Estou a entrar naquela altura crítica em que os vintes começam a escassear e os trinta a aproximar-se de mim como a boca de uma velhota cheia de manteiga, pronta para me beijar (sim, já me aconteceu mas isso é uma história para outra altura). É a lei natural da vida e já me mentalizei disso. Mas, por favor, não me tratem por Senhor.
A conotação educada que o termo carrega é agradável, especialmente quando queremos respeito de algum badameco, mas o peso que nos coloca em cima dos ombros é que nem tanto. Poupem-me os discursos motivadores da malta de 19 anos ou de quem não tem qualquer tipo de problema com o avançar da idade. Bom para vocês, mas não sou assim.
Uma criança de 5 anos perguntar-me se tenho 44 é um golpe agridoce porque apesar de hilariante, não deixa de ferir ligeiramente. Agora, quando jovens na minha faixa etária interagem comigo como se fosse um centenário de cartola e relógio de bolso, é preferível deixarem-me logo no jazido.
Ainda há coisa de dias, em pleno ginásio, um rapaz virou-se para mim e perguntou "desculpE, posso intercalar conSIGO?" —porque é que isto agora me está a soar dirty? Continuando, fiquei a olhar para ele do género, estás a falar a sério? Se for preciso és mais velho que eu. Epá sei que no contexto em que estava inserido não estou propriamente no meu melhor, mas bolas, tenho um ar assim tão acabado?!
Não sei que vos diga mas fico satisfeito por saber que não sou o único que fica com um tique nervoso nos olhos quando passa por isto. Já uma ou duas pessoas partilharam comigo este sentimento de "revolta" mesmo sabendo que, na maioria das vezes, as pessoas apenas querem ser educadas e não existe nada de errado nisso. Dito isto, a vida já se encarrega de nos envelhecer com o stress, preocupações e obrigações, não é preciso ajudarem à festa.
MUST LISTEN: ⤫ END GAME ⤫ CALL IT WHAT YOU WANT ⤫ GETAWAY CAR
1. Taylor Swift ⤫Reputation
Prezo muito a imparcialidade no que toca a reviews, portanto vou tentar ao máximo separar a minha opinião, digamos menos positiva, sobre a cantora em questão e o respectivo disco. Três anos desde que lançou 1989, o álbum que marcou o abandono das raízes country e entrada oficial no mercado pop, a Taylor Swift está de volta com Reputation. O "polémico" retorno é marcado por uma suposta mudança de atitude, de menina inocente para bad girl. O resultado é... triste.
Repleto de elogios da crítica, possivelmente por medo de represálias pela nova representante do lápis azul, versão musical, o certo é que este novo rumo da jovem norte-americana não é nada mais que uma caricatura já explorada uma série de vezes dentro do género. A sua interpretação de "bad" parece ficar-se pelo uso de batidas típicas de hip-hop para criar um ritmo pesado, upbeat, e causar impacto. O problema é que não existe qualquer originalidade no processo, tudo soa a algo já existente, antigo, ultrapassado. Aliás, cada uma das 15 faixas parece igual à anterior, criando uma espécie de confusão por nem nos apercebermos se já passámos para a próxima ou ainda estamos a ouvir a mesma.
Além de não convencer ninguém nesta sua personagem altamente artificial, a Ssswift conseguiu a proeza de criar música preguiçosa, apoiada de refrões fáceis e uma produção tão exagerada que nos faz querer perguntar "are you okay, sweety?". Tendo em conta os números astronómicos de vendas, diria que se confirma algo que há anos se apregoa, o público é mesmo estúpido. Ainda assim, o que realmente me incomoda é ver críticas elogiarem a evolução da Taylor como compositora. Não só continua com uma escrita bem medíocre e extremamente infantil, como quando comparamos com obras-primas como Melodrama, da Lorde, chega a ser hilariante a drástica diferença de qualidade lírica.
Nem tudo está perdido, por entre este vale de fachadas existem pequenas pérolas como "End Game", "Call It What You Want" e até a mega-cliché "Gateway Car".
MUST LISTEN: ⤫ BEAUTIFUL TRAUMA ⤫ WHATEVER YOU WANT ⤫ BUT WE LOST IT ⤫ WHAT ABOUT US
Se há cantora consistente no que toca à entrega sucessiva de música e vocais com qualidade, é a P!nk. Uma pena que ela não receba nem metade do crédito que merece. Confesso que não tinha propriamente grandes expectativas em relação a este Beautiful Trauma, mas ela conseguiu calar-me enquanto me esbofeteava com os receipts.
No sétimo disco da sua carreira, a eterna rebelde, presenteou-nos com histórias bem pessoais, como a sua indignação face a actual situação política nos EUA, ou a dependência a relacionamentos amorosos destrutivos. No que toca a este departamento, ao contrário de outras colegas de profissão, a P!nk é extremamente sincera e consegue conectar-se com qualquer pessoa. O facto de abordar relações na sua fase mais negra, como a carência e o medo de ficar sozinha que podem prender uma pessoa a um parceiro abusivo, é algo que raramente ouvimos passar nas rádios.
Embora se mantenha na sua zona de conforto e não haja propriamente grande inovação, o certo é que isto é P!nk no seu melhor. No que toca à componente sonora, é um verdadeiro melting pot. Tanto temos canções com instrumentais mais pesados como outros mais leves, com influências que vão do pop-rock ao R&B e até folk.
MUST LISTEN: ⤫ WOULD YOU CALL THAT LOVE ⤫ MEANING OF LIFE ⤫ MEDICINE ⤫ LOVE SO SOFT
Desde a sua vitória na primeira edição do American Idol, em 2002, a Kelly Clarkson tornou-se numa das cantoras mais talentosas da sua geração. Quinze anos depois, a norte-americana lançou o seu oitavo álbum de estúdio, Meaning of Life, o primeiro pela Atlantic Records, o que lhe concede mais liberdade e autonomia para tomar decisões. Good for you!
Distinto dos seus outros trabalhos, mais direccionados para o pop comercial, aqui ela apresenta uma sonoridade mais soul/R&B, concretizando um desejo de longa data. Basicamente é o álbum que ela sempre quis fazer, mas não podia devido a restrições contratuais.
Aqui entre nós, como a abécula que sou, quando soube da mudança de géneros, fiquei apreensivo. Digamos que "Behind These Hazel Eyes", "Because of You" e "My Life Would Suck Without You", são as minhas jams! Felizmente não havia qualquer razão para isso. Meaning of Life possui poucos momentos fracos, revelando-se como a produção mais coesa que alguma vez lançou. Cheia de sass, é com bastante alegria que vejo uma Kelly na melhor fase da sua vida, em pleno.
MUST LISTEN: ⤫ HIM ⤫ PRAY ⤫ BURNING ⤫ NOTHING LEFT FOR YOU
O Sam Smith voltou com tudo no segundo disco da sua carreira, The Thrill Of It All, e eu não podia estar mais satisfeito. Repleto de mais histórias de desilusão e amor não correspondido, algo está diferente. Ao contrário da sensacional estreia In The Lonely Hour (2014), o jovem de 25 anos agora canta um discurso mais forte e confiante, algo que se reflecte positivamente na música.
No leque de 13 canções, destacam-se duas pela sua genialidade e ousadia musical: "Pray" e "HIM". A primeira é o exemplo mais nítido da sua potência vocal, especialmente quando ele consegue superar o coro, que por si só já é fantástico o suficiente, e estender as notas de tal maneira que outros só conseguiriam através de plugins, se é que me entendem.
Em "HIM", o Smith declara o seu amor por outro homem e aceitas as consequências que isso acarreta. É, de resto, a sua afirmação lírica mais arrojada, "Don't you try and tell me that God doesn't care for us. It is him I love, it is him I love." A mensagem é poderosa e capaz de emocionar até um céptico.
Nem um álbum tão bom como The Thrill Of It All está imune a um ou outro ponto maçador, mas são coisas tão triviais que, a voz distinta do Sam consegue apagar por completo.
Se há uns anos atrás me dissessem que ia chegar aos 25 e continuar em casa dos meus pais, provavelmente ia pensar que me tinha tornado num valente falhado. Pois, aqui estamos nós. E agora?
Embora a minha situação familiar seja minimamente normal, sendo que nunca falta a gritaria fofinha que muitos de vocês também devem conhecer, a verdade é que já me sinto a mais. É uma sensação extremamente estranha quando de repente já não nos sentimos 100% confortáveis no sitio a que chamamos casa. Considero-me um sortudo na medida em que os meus pais não exigem que contribua nas despesas mas ao mesmo tempo cresce um sentimento de culpa que é fortificado quando se lembram de mandar uma ou outra boca ao ar. É certo que pago tudo o que seja passes, roupas e comida específica só para mim, mas é diferente.
Com o avançar da idade também cresce a nossa falta de paciência. Ser um adulto trabalhador e ter que estar a ouvir raspanetes da mãe porque não arrumou bem a louça na máquina ou pendurou a roupa no armário é algo que me tira especialmente do sério. Como ela diz e bem, "independente da tua idade, serei sempre tua mãe." Certo, mas isso não implica que esteja sempre receptivo a aturá-la, especialmente depois de um longo dia cheio de preocupações laborais. Mas é caricato ver que a postura dela com o meu avô é exactamente a mesma que ela se queixa que eu às vezes tenho com ela.
De facto, não há nada como chegar a casa e ter o jantar à minha espera ou saber que a minha roupa é sempre lavada sem que eu tenha que mexer um dedo (além da árdua tarefa de a meter dentro na máquina), portanto sei que vou sofrer quando finalmente sair do ninho. Mas é um processo completamente normal e que a maioria das pessoas passa. Custa no inicio mas supera-se. Agora, há que ter oportunidade de viver isso.
Por muito que goste das regalias todas que viver em casa dos pais me dão, confesso que o principal motivo pelo qual ainda não saí se deve à minha actual situação salarial. É a triste realidade dos millennials. Com o ordenado miserável que recebo seria impensável conseguir sustentar-me sozinho. Pensando que logo metade seria para a renda, e o bolo restante entre água, luz, net, etc, sobravam-me migalhas para comer. Factores positivos: ficava elegante; factores negativos: estava condicionado a uma vida restrita e sem poder de cometer qualquer tipo de exploração fora do pequeno budget existente. Sim, podia juntar-me com a minha namorada mas nem assim íamos estar suficientemente estáveis, pelos menos como gostaríamos.
Enfim, não sei quando se dará a mudança que considero como a última etapa para estar de vez na vida adulta (por tudo o que isso acarreta), mas até lá resta-me rezar pelo euro milhões, um aumento chorudo ou um sugar daddy.
Ainda vivem com os vossos pais?
Se sim, sentem necessidade de sair? Se não, custou a mudança?
Ao fim de quase três anos de blog é seguro dizer que já me conhecem minimamente bem. Ainda assim, como em qualquer relação, existe sempre algo extra por descobrir. Embora já o tenha referido no passado, nunca me debrucei muito sobre uma das particularidades mais fincadas do meu ser, a hipocondria, isto é, o medo excessivo e irrealista de ter uma doença.
Por falta de melhor palavra, ser hipocondríaco é uma valente shit. A pressão psicológica que exercemos sobre nós mesmos é de tal forma pesada que morremos centenas de vezes ao longo da vida.Uma simples dor de cabeça nunca é apenas isso. Aliás, desde criança sofro de enxaquecas (há temporadas em que são diárias) e, como tal, os red flags apontavam todos para um tumor ou aneurisma. Numa dessas alturas de maior incidência de dores, descobri um alto "duro" na nuca e o nível de terror só aumentou. A paranóia foi tanta que acabei por fazer exames. Ainda me lembro do ar do médico quando me diz que aquilo saliente na nuca era um osso, bastante comum nas pessoas da sua etnia, africana.
O mesmo tipo de pensamento acontece com qualquer outro problema físico que possa encontrar. Uma mancha na pele só pode significar cancro, e por aí fora. É esgotante e só quem sofre deste problema consegue perceber que é mais forte do que nós. Não digo que vivo em constante medo de apanhar qualquer coisa, mas lá no fundo, existe uma voz que vai sussurrando, "cuidado, é melhor ires ver isso". A verdade é que me sinto revitalizado quando faço análises. Ter a confirmação de que está tudo bem é algo que não consigo explicar.
É importante perceber que existem três tipos de hipocondríacos. O primeiro é aquele que sofre em silêncio, a imaginar as piores doenças, mas que prefere não ir ao médico com medo de se confirmar que estava certo; depois vem o tipo que sofre em partilha, aborrecendo as pessoas à sua volta com as suas supostas maleitas e que só vai ao médico se o problema não passar num período de tempo que considere adequado; por fim temos aquele que também partilha com o mundo e que está sempre caído no hospital para fazer todos e quaisquer tipo de exames.
Confesso que sou um misto entre o segundo e terceiro. Se bem que geralmente evito a visita ao médico porque tenho rasgos de lucidez, apoiada da repreensão dos meus pais e namorada, que me ajudam a perceber que provavelmente não há de ser nada, e que passa sozinho. É precisamente este ponto que irrita um hipocondríaco, o facto de ninguém nos levar a sério. É compreensível, até porque também reviro os olhos quando ouço outra pessoa com esta condição a falar. Devia ser solidário por saber perfeitamente o que estão a sentir, mas não consigo evitar. Ao fim de tanto tempo a ouvir alguém dizer que vai morrer, mas esse dia parece nunca mais chegar, é inevitável desvalorizar-se os murmúrios de uma alma penada.
Compreendo o teor cómico que esta conversa possa ter, mas garanto-vos que para nós, é tudo menos isso. Tenho noção que muitas vezes exagero, sou ridículo e de tal forma negativoque penso sempre no pior cenário possível, mas prefiro estar preparado para o pior e ser surpreendido com boas notícias. Até agora tem resultado, mas estou sempre à espera do dia em que isso mude.