Posso estar enganado, mas arrisco-me a dizer que já todos chamámos ou fomos chamados de paranóicos em algum momento da nossa vida. A verdade é que esta expressão é frequentemente utilizada de forma banal e muitas vezes erradamente. Quando pensava que os meus dias de "estás a ser paranóico" tinham terminado, não é que volto a ouvir o mesmo?
Para os que, tal como eu, são um pouco leigos nestas questões psicológicas, a infopédia define paranóia como uma "perturbação mental que se caracteriza pela tendência para a interpretação errónea da realidade em consequência da susceptibilidade aguda e da desconfiança extrema do indivíduo, que pode chegar até ao delírio persecutório". Isto trocado por miúdos significa que se trata da desconfiança ou suspeita exagerada ou injustificada, podendo chegar ao ponto da irracionalidade e ilusão.
É importante compreender que a simples desconfiança não é considerada paranóia — especialmente se for fundamentada numa experiência passada ou em expectativas baseadas em experiências alheias. Boas notícias Taylor Swift! É melhor estar calado senão ela ainda me apaga o blogue.
Brincadeiras de parte, tenho que admitir que às vezes questiono a minha sanidade mental. O meu cérebro está em alerta constante. Quando viajo de comboio sento-me sempre nos lugares junto da janela com a indicação "partir em caso de emergência". Porquê? Ora, porque se acontecer algum acidente quero tentar escapar! Calma que há mais. Na semana passada fui a Lisboa ao início da tarde, resultado, a minha carruagem ia vazia. No início é muito divertido, mas estação após estação e ao ver que continuava a ser o único passageiro, comecei logo a imaginar mil e um cenários sangrentos na minha cabeça. Fiquei de tal maneira assustado com a possibilidade de entrar por ali um homem com uma arma e eu, estando sozinho, não ter por onde me esconder/escapar, que tive um ataque de pânico. "Posso tentar dar um pontapé com força na janela, mas será que parte?" ou "E se eu correr muito depressa e aos ziguezagues de maneira a ele não me conseguir acertar?" eram alguns dos meus elaboradíssimos planos de fuga.
Se à noite estiver a andar num local isolado e calhar de ter o meu guarda-chuva comigo, podem ter a certeza que os meus neurónios, nada criativos, estão a equacionar infinitas sequências de luta e defesa. A minha namorada é testemunha, se por acaso passarmos por uma zona mal frequentada, digo-lhe sempre "ainda bem que trouxe o umbrella" — como se estivesse a compará-lo a uma excalibur — e ela olha para mim com um misto de pena e vontade de rir.
Apesar de ter esta veia dramática desde muito novo, sinto que está a piorar com a idade. Estou tão habituado a que a minha namorada me ligue para lhe fazer companhia quando sai do ginásio, que se não acontecer, fico logo preocupado a pensar que lhe aconteceu alguma coisa. Normalmente ou foi assaltada, atropelada ou raptada. Só coisas boas.
Em entrevista à VISÃO o psicanalista, Stephen Grosz, explicou que "a paranóia é uma defesa contra o sentimento de que ninguém pensa em nós. Por mais trágico que seja sentirmo-nos traídos, perseguidos ou não gostados, é sempre melhor do que a ideia de não estarmos no pensamento de alguém. Essa tendência evidencia-se à medida que se envelhece." Bem, estou oficialmente deprimido. Ao menos parece que tinha razão quanto à questão da idade.
Lamento imenso mas aquilo que chamam de paranóia eu chamo de cautela. Tenho a perfeita noção que os episódios (acreditem que são uma pequena amostra) que vos contei são ridículos, mas fico genuinamente transtornado com a possibilidade de se realizarem. Por muito absurdo que seja, prefiro estar preparado para uma tragédia que andar feliz e contente e zás! Desde que não chegue ao ponto do Mr. Robot (personagem de uma série homónima), está tudo bem.
Também têm este tipo de pensamentos ou sou o único? Alguma vez se consideraram paranóicos?


















