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quinta-feira, 23 de julho de 2015

"Não sou homofóbico, apenas acho errado"


Pela primeira vez nos meus quatro anos de Bibliotecas de Jardim estou a trabalhar com duas raparigas. Por norma o período da manhã costuma ser mais calmo, o que nos permite conversar sobre os mais variados tópicos. Fico aborrecido facilmente, portanto tento sempre manter o diálogo acesso. 

No outro dia estávamos sentados a preparar uma actividade quando reparei em dois miúdos a "lutar". Na brincadeira disse a uma das colegas "já vi muitas relações começarem assim" (eles estavam na relva a rebolar um em cima do outro). "Ai, isso não", respondeu. Quando lhe perguntei se estava a referir-se à brincadeira em si ou ao facto de serem dois meninos, ela disse com alguma vergonha "Por serem dois rapazes. Respeito mas não concordo". Fiquei de queixo caído.

Ao ver o espanto na minha cara, explicou-me que tem amigos 'assim' com quem se dá bem e gosta muito, mas não concorda. "São opções", desabafou. "Opções"? Assim que ouvi tamanha estupidez não pude ficar calado. "Desculpa lá, mas não sejas ignorante. Está cientificamente comprovado que a preferência sexual é genética e não opcional. Achas mesmo que alguém ia escolher ser odiado pela sociedade?" (nesta altura a minha outra colega junta-se à conversa). Por muito que se diga que devemos respeitar as opiniões dos outros, nem sempre é fácil.

Ao que parece ela acredita que as relações devem ser entre homem e mulher, apoiando-se do argumento, nada gasto, da concepção. Ainda que meio rebuscado, confesso, disse-lhe que se ela quisesse falar da questão fisiológica, que me explicasse o motivo pelo qual os homens têm o equivalente ao 'ponto G feminino', situado no ânus. Médicos referiram que deve ser estimulado, afirmando até ser saudável. No caso de se estarem a questionar, não estou a promover esta prática haha(mas nada contra quem o pratica). Foi apenas um contra-argumento no mesmo campo para ver como ela reagia.

Depois veio a inevitável conversa sobre os filhos. Felizmente disse-me que se tivesse um filho gay não o iria abandonar, "não ia achar muita piada, mas é meu filho". Vá lá. Quando lhe disse que não me importava de ter um filho(a) homossexual, não acreditou. "Vais-me dizer que ias gostar de ter um filho gay?" ...Porque não? É meu filho e vou amá-lo a cima de tudo. Não nego que me preocupa saber que provavelmente iria sofrer bastante, mas tirando isso, o resto são macaquinhos na cabeça das pessoas.

No meio disto tudo, só consegui sentir uma enorme desilusão. Tenho consciência que apesar de nos darmos bem, somos apenas colegas de trabalho que nem há um mês se conhecem. Ainda assim, não pude deixar de ficar um pouco triste com esta situação. Talvez por ter sido imensamente massacrado na escola tenho tolerância zero para qualquer tipo de descriminação, seja ela de cariz racial, estatuto social, orientação sexual, e por aí fora. Posso não ser gay, mas fico irritado com este tipo de comentários à mesma. Claro que continuamos a falar, rir, e não a odeio ou coisa do género, mas fica sempre aquele lembrete na minha cabeça.

Com o desenrolar da conversa fiquei a saber que a mãe converteu-se ao Jeovismo há coisa de uns 6 anos. Só podia. Embora afirme que não foi criada a pensar dessa maneira, não tenho dúvidas que a opinião da mãe acaba por ser uma grande influência. Uma coisa é certa, esta colega não foi o pior caso que encontrei ao trabalhar ali. Filho de pais testemunhas de Jeová, o meu colega de à dois anos era completamente contra homossexuais. Chegou ao ponto de dizer que se fosse gay, entendia o porquê dos pais o colocarem fora de casa. Sim, leram bem.

Ainda percebo este tipo de mentalidade retrógrada por parte da geração dos nossos avós e pais, agora da nossa? A falta de informação já não é desculpa. Em vez de exporem as crianças a cenas de pancadaria e reality shows duvidosos, eduquem-nos. Chega de utilizar a "religião" como veículo para a humilhação e comportamentos cruéis. Não sejam ignorantes. Trabalhem para transmitir uma mensagem de aceitação e amor ao próximo. Os homossexuais, lésbicas, bissexuais e transsexuais não vão deixar de existir, portanto quanto mais depressa se habituarem à sua presença, melhor para todos. Está nas nossas mãos garantir que as gerações futuras não sejam seres humanos horríveis e com mais preconceitos que amor próprio.Tenho dito.

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