Afirmei-o no passado e repito, compilar uma lista com as melhores séries do ano é sempre uma tarefa ingrata, especialmente para quem acompanha tantas como eu. A televisão voltou à sua era de ouro são cada vez mais os actores ditos "conceituados" que optam pela telas caseiras em vez das IMAX.
Das 71 que vejo, optei por me limitar a um TOP 10, escolhendo apenas uma pequeníssima fracção de todas as produções que gostaria de incluir. Foi tão complicado que ponderei passar para 20, mas acabaria ter um efeito bola de neve. Se as vossas favoritas não forem referidas ao longo desta publicação, talvez se deva ao facto de não as ter visto.
Numa análise rápida e superficial, 2016 foi o ano da fénix: "Orphan Black", "Game of Thrones", "House of Cards", "American Horror Story" e "Orange is The New Black" receberam uma injecção criativa enorme que as trouxe de volta ao jogo. A vencedora do ano passado, "Mr. Robot" teve uma segunda temporada boa, mas não o suficiente, e "Daredevil" foi uma enorme decepção. "Penny Dreadful" despediu-se em grande enquanto "Supernatural" se mantém no ar, graças a uma fiel legião de fãs que, claramente, não se importa de ver algo medíocre. Pelo meio tivemos boas surpresas como "Better Things", "Preacher" e o revival dos "X-Files".
Abomino escrever sinopses e pior ainda quando tenho que o fazer para séries com mais do que uma temporada, portanto dêem-me um desconto. Como nunca sei ao certo o que revelar ou não, é preferível deixar o aviso da praxe, atenção aos spoilers.
MENÇÕES HONROSAS: ORANGE IS THE NEW BLACK | PENNY DREADFUL | MR. ROBOT | UNREAL | YOU'RE THE WORST | BETTER THINGS | PLEASE LIKE ME | UNBREAKABLE KIMMY SCHMIDT | YOUNGER | BLACK MIRROR | PREACHER | THE X-FILES | GIRLS | FARGO | ASH VS. EVIL DEAD
.10.. “House of Cards”, Season 4
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI
Após uma season pouco memorável, o drama político mais cruel dos Estados Unidos voltou com tudo na quarta temporada. Kevin Spacey interpreta Frank Underwood, o Presidente norte-americano capaz de passar por cima de tudo e todos para se manter no poder. Simultaneamente, Claire tem a sua própria agenda e se for necessário expor a fraude que é o seu casamento para conseguir o que quer, assim o fará.
Aclamada pela crítica, a trama é complexa e bem desenvolvida. Se conseguiram converter alguém como eu, que detesta este género televisivo, é porque estamos perante um produto verdadeiramente interessante. Ver o Spacey em cena é algo mágico. A sua entrega ao papel de um sociopata vingativo é ainda mais chocante por tornar o público no seu cúmplice — ele fala directamente para a câmara em alguns momentos-chave. Involuntariamente acabamos a torcer para que os seus estratagemas dêem certo. Uma vez que expõe os bastidores da política norte-americana, ninguém tem moral na história, o que talvez explique o facto de parecer tão real. Não posso deixar de referir a outra peça-chave do tabuleiro, a soberba Robin Wright como a sofisticada, fria e falsa, Claire (a esposa). Com um elenco dramático de luxo e uma fotografia digna de muitos filmes — valendo-lhes um Emmy nas respectivas áreas —, House of Cards é a combinação perfeita de política, crime e drama, com direito a cenas sexuais e momentos de puro choque.

..9.. “American Horror Story”, Season 6
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI
Pensar que quando estreou, "American Horror Story", foi considerada uma relíquia pela crítica, e depois caiu por terra graças a temporadas pouco felizes como "Circus" ou "Hotel". Decidido a dar a volta por cima, Ryan Murphy ofereceu-nos uma das melhores fases da antologia, "Roanoke".
Com claras referências a "The Blair Witch Project" e "The Texas Chainsaw Massacre", a trama centra-se no pesadelo vivido pelo casal Shelby e Matt + a irmã dele, Lee, na sua nova casa. Contada em modo documentário/lost footage, parte da história é narrada por "pessoas reais", Lily Rabe, André Holland e Adina Porter, e depois vemos actores (Sarah Paulson, Cuba Gooding Jr. e Angela Basset) desempenharem os eventos. Não vou adiantar qualquer sinopse porque estamos em terreno escorregadio e ao mínimo deslize posso estragar alguma reviravolta. Porém, destaco as interpretações de Kathy Bates e Frances Conroy que mereciam ser premiadas. Confesso que pela primeira vez desde a primeira temporada tive medo e assustei-me a sério com algumas cenas. A atmosfera aterrorizadora e pesada foi constante, deixando os espectadores ao rubro. Nem mesmo o último episódio desastroso conseguiu baixar o nível dos restantes.
..8.. “Game of Thrones”, Season 6
NOTA: 9/10 | TRAILER: AQUI
Por norma dou preferência aos underdogs mas quando um produto é bom, não há como negar, e este ano "Game of Thrones" mereceu um lugar entre os melhores. Passadas 6 temporadas, o Inverno ainda não chegou, mas sinceramente isso pouco ou nada interessa. Sangrenta, cativante e altamente crua, a adaptação dos livros de George R.R. Martin mantém-se como uma das mais fortes produções televisivas da última década. Yeah, I said it.
Nesta fase da história, as poucas personagens que restam lutam pela sobrevivência, sofrendo nas mãos dos que têm força em números. Após um acidente de percurso, Jon Snow voltou e proporcionou-nos um dos momentos mais satisfatórios de 2016, o confronto Snow vs. Ramsey. Considerado o episódio mais caro de sempre, a luta dos bastardos foi uma obra de arte do início ao fim. Bem dirigida, chocante, visceral e cheia de suspense, só tive pena de não ter pipocas a acompanhar o duelo do século. Vá, estou a levar-me pelo entusiasmo, mas vocês perceberam a ideia.
..7.. “Transparent”, Season 3
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI
Os Pfefferman continuam com sérios problemas de comunicação mas, em contrapartida, a transsexualidade de Maura, o pai, já não causa transtorno. O primeiro episódio desta terceira temporada foi tão forte, que cheguei a pensar que se tinham inspirado na longa-metragem "Tangerine", que em 2015 ocupou a #15 posição na minha lista de "Melhores Filmes". Foi com alguma pena que não vi essa narrativa ser explorada nos capítulos seguintes, mas felizmente compensaram com diálogos inteligentes e a dose certa de dramedy.
De uma maneira geral, arrisco-me a dizer que esta season foi a mais inovadora até à data, com sequências alucinantes absolutamente surreais, uma tartaruga como personagem-especial e episódios de ouro como o de estreia e o "If I Were a Bell", onde descobrimos como é que Maura e Shelly se conheceram. Os filhos, Ally, Sarah e Josh, continuam a dividir o tempo de antena com o MoPa, mas felizmente a partilha de protagonismo não feriu a história — aliás, é uma das duas séries que se manteve no top em relação ao ano passado. A grande surpresa foi Shelly, a mãe. Nunca pensei que ouvi-la cantar a "Hand In My Pocket" da Alanis Morissette na final fosse tão comovente. Sem dúvida um dos pontos altos.
..6.. “Westworld”, Season 1
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI
Baseada no filme homónimo de 1973, Westworld é descrita pela HBO como "uma odisseia obscura sobre a aurora da consciência artificial e evolução do pecado", explorando um mundo onde todos os desejos humanos, até os mais macabros, são tolerados.
Apontada como a grande sucessora de Game of Thrones — basta verem o genérico e percebem logo as semelhanças —, o episódio-piloto entrou para a história como um dos mais caros de sempre (razão pela qual a segunda temporada só vai para o ar em 2018), superando a terra dos dragões. Com o elenco mais rico da tv norte-americana (Anthony Hopkins, Evan Rachel Wood, Ed Harris, James Marsden, Thandie Newton, Jeffrey Wright, entre outros), esta espécie de Disneyland futurista/velho oeste para adultos milionários deixa-nos com os ânimos à flor da pele. A narrativa é provocadora e bastante ambiciosa, não se resume a superficialidades. As interacções pessoais entre humanos e máquinas são tão profundas e complexas que só comprova a ideia de que o futurismo e classicismo podem coexistir de forma natural.
..5.. “Orphan Black”, Season 4
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI
Se a competição não fosse tão forte este ano, garanto-vos que esta temporada de "Orphan Black" estaria no pódio. Sem palavras. Foi assim que fiquei com o desenrolar da história. Os criadores deram uma volta de 180º até às raízes da estranha, inovadora e cativante premissa. Sem qualquer aviso prévio, voltamos à estaca zero, ao momento em que Beth descobre que faz parte de uma experiência laboratorial de clones.
Saltando da 10ª para a 5ª posição, "Oprhan Black" não se perdeu nas questões mitológicas, e focou-se no que realmente interessa, as relações entre as sistras. Escusado será dizer que a interpretação fenomenal da Tatiana Maslany como protagonista e metade das restantes personagens secundárias continua a ser a galinha dos ovos de ouro desta produção. Conhecemos novos clones, temos momentos paralelos incríveis entre Sarah e Beth, uma narrativa coesa, e o aparecimento de alguém que se julgava perdido. A sério, estou de queixo caído com a qualidade desta temporada. Uma pena que a próxima será a última. Prevejo um rio de lágrimas quando esse momento chegar.
..4.. “The Crown”, Season 1
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI
"The Crown", a nova produção original da Netflix, foi vendida como a série mais cara desenvolvida pelo serviço de streaming. Basta assistir a um episódio para perceber o motivo de custos tão elevados. A beleza e grandiosidade dos cenários, o rigor do guarda-roupa e caracterização impecável, são os veículos principais para nos transportar até à época de tensões políticas e sociais de um Império que além de sobreviver a uma guerra, ainda tem que lidar com a ascensão de uma jovem mulher ao trono, Elizabeth.
O burburinho em volta desta série foi grande e felizmente não desapontou. Tratando-se de um retrato fiel sobre "pessoas reais", não existe propriamente um enredo com as reviravoltas habituais de uma produção televisiva. Dito isto, a concepção delicada e quase poética, do interlúdio da vida da monarca, mostrando como ela teve pouco tempo para assimilar a morte do pai e a ascensão ao trono, é no mínimo fascinante. Simultaneamente, a jovem Rainha tem que lidar com o Primeiro Ministro Winston Churchill, com o marido que se sente inferior e a inveja da irmã mais nova. O espectador é convidado a assistir ao desenvolvimento de Elizabeth, desde a inicial falta de traquejo e conhecimento que fazem dela um alvo fácil a ser manipulado, culminando no momento em que começa a ficar mais segura de si, na figura forte que conhecemos hoje em dia. É de realçar, ainda, a verdadeira alma da série, o elenco.
..3.. “The OA”, Season 1
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI
Sem qualquer aviso prévio e envolvido numa aura de mistério, "The OA" estreou a 16 de Dezembro e rapidamente se tornou numa das minhas obsessões do ano. Prarie Johnson, uma jovem cega, desaparece durante sete anos e quando volta, suja, cheia de marcas no corpo e a ver, muitos a consideram um milagre. No desenrolar dos episódios, a protagonista vai contando o que lhe aconteceu e cada revelação é mais chocante e estranha que a anterior.
"The OA" não se limita a explorar o desconhecido. Ao fim ao cabo, trata-se de uma história de amor, amizade, lealdade, personificada pela união de um grupo de jovens deslocados e de uma professora solitária, que se tornam felizes e corajosos com a companhia uns dos outros. O poder da família, não a verdadeira, a que se escolhe, é tão poderoso que até pode abrir portas para outras dimensões. Just saying. Brit Marling, a actriz principal, criadora e argumentista da série é tão ou mais intrigante que o produto em si. Intensa, complicada e com alguns clichés que, sinceramente nem me incomodam, a cena final da temporada deixou-me em lágrimas. Sem querer revelar spoilers, não só o assunto em questão é bastante actual como funciona de catalisador para a união dos grupo de misfits. Mesmo com o meu emprego e falta de tempo, fiquei de tal modo investido na série que a devorei num ápice. Uma das melhore prendas de Natal que podia ter recebido.
..2.. “American Crime Story”, Season 1
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI
Baseada no livro The Run of His Life: The People vs. O.J. Simpson, de Jeffrey Toobin, a série acompanha os bastidores e julgamento de Simpson após ser acusado de assassinar a ex-mulher, Nicole Brown, e o amigo Ronald Goodman , em 1994.
Seguindo o mesmo conceito que American Horror Story, a produção com carimbo do Ryan Murphy é uma antologia, ou seja, a narrativa muda a cada temporada. Nesta primeira, a estrela foi, sem dúvida alguma, Sarah Paulson. No papel da advogada de acusação, Marcia Clark, a actriz foi simplesmente brilhante. A maneira como consegue alternar entre uma postura segura, com os cojones no sítio, e uma vulnerabilidade comovente, é algo que poucos artistas conseguiriam desempenhar. Após anos a ser descartada em entregas de prémios, é bom ver o seu trabalho a ser finalmente reconhecido. Aliás, o elenco inteiro está de parabéns. Foi uma surpresa ver o John Travolta, mas ainda bem que participou. É possível que seja a melhor interpretação que teve na última década. Apesar do desfecho ser de conhecimento público, é muito interessante descobrir o que realmente aconteceu atrás das cortinas. Desde a escolha do juri, à falsificação de provas e a cruzada absurda contra a Marcia. Com apenas 10 episódios, se ainda não viram, estão à espera de quê?

..1.. “Stranger Things”, Season 1
NOTA: 9/10 | TRAILER: AQUI
Por esta ninguém esperava, hum? Not. Assim que as letras vermelhas e luminosas do genérico aparecem na tela, acompanhadas daquela melodia já icónica, percebi que estava perante algo sensacional. Afirmei-o quando estreou e fico feliz por não ter mudado de opinião, "Stranger Things é a melhor série do ano!"
A jornada de um grupo de amigos, uma rapariga com habilidades sobrenaturais e uma mãe desesperada em busca do pequeno Will Beyers, tornou-se num fenómeno global a que ninguém ficou imune — até a minha namorada viu e gostou, vocês não têm noção o que isso significa haha. Como é hábito em produções originais da Netflix, tecnicamente, a série é perfeita. Além de uma boa ambientação e inúmeras referências à pop culture do início dos anos 80 (destaque evidente para E.T. e Alien), é impossível não ser transportado de volta ao passado, mesmo que nunca o tenham vivido, como é o meu caso. O espectador é levado numa aventura sci-fi com homenagens aos Stephens, King e Spielberg. Além da componente estética, a banda sonora também funciona bem, ainda que um pouco cliché, mas bem executada ao surgir discretamente em momentos apropriados. O núcleo de actores parece ter sido escolhido a dedo. Tanto os mais novos como os veteranos como a brilhante Winona Ryder, deram a uma narrativa já de si interessante, a densidade necessária às suas personagens tão complexas. Com apenas 8 episódios, não percam mais tempo e devorem a primeira temporada.
Acompanham algumas das séries? Quais foram as vossas favoritas de 2016?



