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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

MOVIE LOUNGE ⤫ BLADE RUNNER 2049 (2O17)


Considerado por muitos como o melhor filme de ficção científica de sempre, e um dos pioneiros no estilo neo-noir, Blade Runner (1982) voltou a materializar-se no grande ecrã. Trinta e cinco anos depois da obra-prima de Ridley Scott, a sequela realizada pelo canadiano Denis Villenueve surge como um alívio personificado ao prolongar e reinventar o universo original.

A acção toma lugar trinta anos após os acontecimentos em Blade Runner: Perigo Iminente, na versão portuguesa. Humanos e replicantes continuam a coexistir, embora a linha que os separa seja cada vez mais ténue. Os Blade Runners continuam a perseguir e "reformar" replicantes ilegais mas, até que ponto serão estes alvos realmente robôs? E afinal, quem é verdadeiramente humano? A premissa original de Hampton Fancher e David Peoples é, assim, preservada.



Não é segredo o meu amor pelo original e desagrado com as notícias de uma sequela (AQUI). Dito isto, tenho que dar a minha mão à palmatória e admitir que Blade Runner 2049 esforçou-se ao máximo para manter a visão de Ridley Scott. Através de paisagens futuristas, fruto de um genial trabalho de fotografia (Roger Deakins) e cenografia (Dennis Gassner), é assegurada a ambientação sombria e iluminação néon que tanto cativaram os fãs desde a década de '80.

O argumento não é revolucionário, mas oferece ideias que nos deixam a remoer a perpétua problemática do que significa estar vivo e consciente. O ritmo da narrativa é lento, algo arriscado num filme de quase três horas, mas os pontos altos justificam tal decisão. Confesso que nem dei pelo tempo passar. Estava de tal modo imerso na acção e maravilhado com a vertente visual que pouco me importou o facto de nem ter tido tempo para almoçar antes da sessão.


O principal problema desta produção prende-se ao casting. O elenco até é bastante a cima da média, mas existem duas escolhas que... não compreendo. Como temi desde o início, Ryan Gosling não se insere propriamente bem nesta temática. Tudo se resume a uma questão de gosto pessoal, mas é impossível não perceber que o actor assumiu uma espécie de "piloto automático" que parecia não ter percebido que o seu agente K, o protagonista, estava a viver um conflito interno sobre a questão da existência ou não da alma. Não posso revelar spoilers portanto permitam-me esta análise superficial. Digamos que para alguém que desenterra um segredo potencialmente perigoso para o equilíbrio da humanidade, falta ali qualquer coisa.


Ana de Armas foi uma autêntica revelação. Confesso que não estava familiarizado com o seu trabalho mas, tal como a maioria dos espectadores, fiquei rendido à sua performance fantasiosa de Joi. Aliás, praticamente cada vez que partilhava a cena com Gosling, afastava os holofotes dele e direccionava todas as atenções para ela. O mesmo acontece com o regresso de Harrison Ford, atirando o actor de La La Land (e o canastrão Jared Leto) para fora das luzes da ribalta. Não há qualquer dúvida de que Joi e Deckard são as personagens mais fascinantes desta longa metragem. De realçar ainda pela positiva a Robin Wright e Sylvia Hoeks.


Por muito que dispensasse uma sequela, não vos consigo descrever o que senti assim que a primeira frame aparece no ecrã e a música começa a ecoar pela sala de cinema. A banda sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch é simplesmente mágica e transportou-me de imediato para a primeira vez em que vi Blade Runner, numa aula de Psicologia, há alguns anos atrás. Foi quase bizarro por sentir nostalgia de algo que nunca vivi, pelo menos na época certa. 


Blade Runner 2049 não chega aos calcanhares do irmão mais velho, mas é uma relíquia visual que merece ser vista de olhos bem abertos. Por ser um filme tão difícil como o primeiro, arrisca-se a ter uma recepção igualmente pouco interessada do grande público, mesmo com um elenco apelativo à la Hollywood e das várias reacções positivas.


Classificação IMDb: 8.6/10
Classificação Ghostly Walker: 8/10


Já viram o filme? Conhecem o original? Se sim, qual o vosso favorito?

terça-feira, 3 de outubro de 2017

CINEMA ⤫ Pocket Reviews #29




SINOPSE: Com destino a um planeta remoto do outro lado da galáxia, a tripulação da nave Covenant descobre o que acredita ser um paraíso desconhecido. Não contavam é que na realidade fosse um estranho e perigoso mundo. Quando encontram um ameaça além daquilo que imaginavam ser possível, tentam uma angustiante fuga.

OPINIÃO: Por esta altura do campeonato é escusado dizer que sou um fã assumido da Alien franchise. É a minha favorita de todos os tempos e, como tal, fui ver este capítulo ao cinema quando estreou, em Maio. Meh é a palavra que melhor descreve o que senti. Contrariamente ao antecessor, o brilhante Prometheus, esta segunda prequela promove mais elementos de terror e acção, mas no que toca ao conteúdo, perde descaradamente.

À medida do que aconteceu no anterior, as origens das criaturas extraterrestres, conhecidas como Xenomorfos, estão no centro da trama, mas pouco ou nada ficamos a saber em relação à primeira prequela. Por outro lado, ficamos a conhecer o desfecho de Elizabeth Shaw e David, que em Covenant solidifica o seu papel de vilão com um enorme complexo divino.

Em suma, este sexto filme da saga icónica de Ridley Scott acaba por desiludir por não acrescentar nada de relevante ao contexto geral do universo em que está inserido.















SINOPSE: Numa sociedade futurista, os humanos conseguiram uma forma de unir a consciência humana com os computadores e tecnologia (o "fantasma" que habita no invólucro do corpo artificial). Motoko Kusanagi, conhecida como Major, é um cyborg com experiência militar que comanda um esquadrão de elite especializado em combater crimes cibernéticos.

OPINIÃO: Não é preciso ser-se um expert de anime para já ter ouvido falar de Ghost In The Shell. Aliás, a protagonista tornou-se numa personagem de culto da cultura pop nipónica e asiática. Como tal, a escolha de Scarlett Johansson, em vez de uma actriz asiática para a personificar, deixou uma multidão enfurecida. Dito isto, o próprio director, Mamoru Oshii, defendeu a decisão, argumentando que um cyborg é uma entidade sintética e sem raça, lançando farpas aos preconceitos políticos que estão cada vez a afectar cada vez mais o mundo das artes e o cinema em especial.

De facto, a falta de imaginação de Hollywood é algo que me incomoda há muitos anos. A necessidade de recorrerem a continuações constantes, remakes de filmes cada vez mais recentes, blockbusters de super-heróis e agora, até o mercado manga querem explorar, não sei qual será o futuro da indústria cinematográfica.

Controvérsias de lado, Ghost In The Shell vale pela componente visual apelativa e uma protagonista à altura do papel que lhe foi proposto. A Scarlett carregou o filme às costas e a dinâmica expressiva e emocional de um ser que apesar de ter consciência devido ao cérebro humano, foi criado em laboratório, é bastante interessante. Infelizmente os elogios ficam-se por aí. Não é um mau filme, mas encontra-se longe de um expoente máximo de acção/fantasia.



SINOPSE: Life conta-nos a história de seis membros da tripulação da Estação Espacial Internacional, no momento em que a mesma se depara com uma das mais importantes descobertas na história da humanidade: a primeira prova de existência de vida extraterrestre em Marte. À medida que a tripulação inicia a pesquisa, os seus métodos acabam por ter consequências indesejadas e a forma de vida mostra ser mais inteligente do que alguma vez esperaram.

OPINIÃO: O conceito não é novo mas o realizador Daniel Espinosa conseguiu homenagear o Alien com um thriller espacial repleto de tensão desde o primeiro minuto. Aproveitando as características do clássico, como o ambiente claustrofóbico, corredores infinitos e mortes violentas, consegue diferenciar-se com o pouco uso de sangue e um twist audaz que me deixou à beira de cair do sofá.

Com um elenco repleto de estrelas como Gyllenhaal e Reynolds, é mesmo Rebecca Fergunson que sobressai, numa espécie de versão alternativa da Sigourney Weaver.

Life não introduz nada de novo ao género e o argumento sofre algumas limitações que se reflectem na perda de gás ao longo da história, mas é uma obra feita para os fãs do Alien de '79.






 
SINOPSE: Enquanto uma ameaça do outro mundo paira sobre Angel Groove, cinco adolescentes com super-poderes, escolhidos pelo destino, têm de ultrapassar os obstáculos mundanos e as suas divergências, e aprender a trabalhar em equipa para salvar a humanidade da vilã Rita Repulsa.

OPINIÃO: O filme que ninguém pediu: Power Rangers. Como muitos de vocês, pertenço à geração que acordava mais cedo ao fim-de-semana para ver as cinco personagens coloridas na SIC. Gostava de tal modo da série que até as figuras oficiais tinha, agora imaginem. Tendo em conta o resultado miserável que a adaptação cinematográfica do Dragon Ball teve, não percebo como é que arriscaram sequer voltar a entrar neste território que simplesmente não resulta em modo blockbuster.

O elenco é questionável a ponto de me perguntar se estão sequer familiarizados com o termo "representação". Como um crítico referiu brilhantemente, "as personagens têm tanta profundidade e carácter como os robôs que andam e falam automaticamente". Não podia ter dito melhor.

Se são apreciadores da série juvenil americana (que por sua vez era inspirada na japonesa "Super Sentai"), que se tornou mundialmente famosa durante os anos 1990, poupem o vosso tempo e não se dêem ao trabalho de ver isto. Só mesmo a Elizabeth Banks é que se salva no meio desta calamidade cinematográfica.


Já viram algum dos quatro filmes? Qual é o vosso favorito e o que gostaram menos?

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Music Videos ⤫ Fresh Out the Oven Vol. 6


Não vos disse que estávamos a entrar na época de caça do entretenimento? Nas últimas semanas têm chovido tantos videoclips que uma pessoa até estranha. Não é segredo nenhum que a componente visual de um projecto é extremamente importante para mim. Em alguns casos é o suficiente para me fazer gostar de uma música que considerava insignificante ou ficar a ferver por ver desperdiçado um single com aquele acompanhamento estético. Não me posso queixar, o conjunto de hoje é bastante positivo.

Neste sexto volume da rubrica "FRESH OUT THE OVEN", reuni cinco que considerei mais interessantes. Venham eles!


..1.. JESSIE WARE  SELFISH LOVE

Um dos meus guilty pleasures britânicos é a Jessie Ware. Acompanho-a há alguns anos e até ao momento, nunca me decepcionou. Dona de um timbre absolutamente angelical e aveludado, tudo aquilo que lança vale ouro. Como tal, fiquei rendido ao seu "Selfish Love". Arrisco-me a dizer que entrou automaticamente para o pódio dos seus melhores trabalhos, tanto a nível sonoro como visual. Só os cenários são capazes de me transportar para uma realidade alternativa que adorava estar a viver.

Lançado há quatro dias, o videoclip faz-me lembrar um pouco a atmosfera vivida no filme Stoker (2013). Com um ritmo a gritar Sade na sua época de glória, estamos perante um verdadeiro festim criativo. Além do mais, conhecemos a prequela dos acontecimentos do primeiro single, "Midnight". Estou sedento pelo álbum, que chegue rápido!


..2.. HURTS  READY TO GO

Por falar em tesouros britânicos, a dupla HURTS continua a preparar terreno para a chegada do quarto disco, Desire, a 29 de Setembro. Em Abril presentearam-nos com o emocionante "Beautiful Ones" e agora chegou a vez de "Ready To Go" receber o tratamento visual. Estrelado pelo vocalista Theo Hutchcraft, acompanhamos a ida ao velório da sua namorada with a twist. Apesar do contexto, o cantor já afirmou que a letra da música tem uma mensagem positiva que pretende celebrar a vida ao máximo. Não foge a projectos anteriores e talvez por isso não surpreenda. De qualquer forma, é mais uma estrela dourada para a caderneta de vídeos dos artistas.


..3.. MOLLIE KING  HAIR DOWN

Após o surpreendente single de estreia, "Back To You", no ano passado, a integrante de um dos meus grupos favoritos do Reino Unido (The Saturdays), está de volta com novo material a solo. Desta vez, deixou as baladas de lado e apresentou um verdadeiro banger. Produzido por Xenomania, é pop no sentido mais trash possível. O pior é que... adoro. A batida é absolutamente infecciosa e, embora ela esteja longe de ser uma vocalista de mão cheia, dá para o gasto. 

Com coreografia do início ao fim e extremamente colorido, o vídeo é a prova viva de que bastam uns ângulos bem jogados, trocas de guarda-roupa e muitas luzes para tornar uma produção escandalosamente limitada em algo minimamente cativante. 


..4.. ST. VINCENT  NEW YORK

Confesso que não acompanho ou sou o maior apreciador do trabalho da St. Vincent mas graças a este vídeo talvez isso mude. Sem previsão de novo álbum no horizonte, a cantora norte-americana estreou o videoclip para a faixa "New York" e é fantástico! Com a direcção de Alex Da Corte e a própria Annie Clark (nome verdadeiro da artista), parece ter sido feito à medida para a criação de gifs. Cada frame é visualmente brilhante e estou boquiaberto. A canção em si é uma balada sobre o fim de uma relação mas sob um tom irónico. Get into it!


..5.. ROSE GRAY  WE GET BY

Estou constantemente em busca de novos artistas e o sentimento que tenho quando encontro algo bom é impagável. Apresento-vos uma das minhas mais recentes descobertas, a Rose Gray. Narrada por uma voz poderosa e igualmente etérea, a canção "We Get By" é de longe uma das minhas favoritas do ano. Aquilo que poderia ter sido a típica balada de piano, é muito mais que isso. A cantora explicou numa entrevista que todos nós sofremos várias pressões e por vezes as expectativas são tantas que se torna tudo too much. "Sometimes it’s ok to just put your hands up and say right now I’m not great, but we will get through this", explicou à Hiskind.

Dirigido por Graham Bryan, a simplicidade dos visuais conseguiu capturar a honestidade necessária à mensagem da letra. Embora possam estar a passar por um momento terrível, eventualmente tudo vai melhorar. O facto da canção ter sido gravada em apenas um take é a cereja no topo do bolo.


Conheciam os vídeos? Qual é o vosso videoclip/música favoritos?

terça-feira, 22 de agosto de 2017

CINEMA ⤫ Blast From the Past


O meu amor pela sétima arte é do mais puro possível. Em criança ouvi o chamamento das sereias e fiquei deslumbrado com o mundo do faz-de-conta. Desde os cenários, ao guarda-roupa, até os filtros que utilizam para filmar, tudo no cinema me enche as medidas.

Contrariamente à maioria dos jovens, sou um grande apreciador dos chamados "filmes antigos". Noto pelo meu irmão mais novo que mal ouve "preto e branco" torce o nariz e recusa-se a assistir ao que quer que seja. Ugh. Alguns dos filmes que considero como os melhores de sempre, são precisamente os chamados "clássicos". Confesso que ainda existem muitos que preciso ver, mas pelo menos não me oponho a tal.

Foi a pensar neste amor pela cinematografia vintage que criei esta rubrica. "Blast from the Past" vai focar-se em duas produções distintas, longe dos holofotes do cinema actual. Para começar, nada melhor que uma dupla de filmes que adoro e já mencionei anteriormente, What Ever Happened to Baby Jane? e Blade Runner.


What Ever Happened to Baby Jane? (1962)

Após anos a fio a ouvir contínuas referências ao icónico WTHTBJ, na pop culture, no ano passado cumpri um desejo antigo e resolvi vê-lo de uma vez por todas. O timming não podia ter sido perfeito, visto que depois foi anunciada a adaptação televisiva pelas mãos do Ryan Murphy.

A história foca-se em Jane Hudson, uma criança famosa conhecida por "Baby Jane". Com o passar dos anos, caiu no esquecimento do público e acabou a viver com a irmã, Blanche - uma antiga actriz que ficou paraplégica -, na sua mansão. Face a decadência evidente, Jane mantém vivo o sonho de voltar a pisar os palcos. Para que isso aconteça, está disposta a cometer as maiores atrocidades contra a própria irmã.

Foram duas horas da minha vida que não trocava por nada. Colocando de parte os atritos, altamente publicitados, vividos pela dupla de protagonistas durante a gravação do filme, o produto final superou as minhas expectativas. A Bette Davis desempenhou a infantil e degenerada "Jane" com tamanha entrega que ainda não consegui digerir o facto de não ter vencido o Óscar de Melhor Actriz a que estava indicada  já sabemos que foi culpa da arqui-inimiga, mas still. A caracterização também está de parabéns e seria um crime terminar este sucinto comentário sem referir a Joan Crawford que, embora mais contida, foi a co-protagonista ideal para a trama.

Classificado como "terror", o género está mais para crime e thriller, portanto se forem medricas, não têm desculpa para embarcarem nesta viagem pelo old Hollywood.




 Blade Runner (1982)

Por esta altura não deverá ser segredo que adoro os trabalhos do Ridley Scott. Além da franchise Alien que é a minha favorita de sempre, existem pérolas como Blade Runner que são absolutamente intemporais. Quem diria que as sessões de cinema nas aulas de Psicologia me iam apresentar a produções de alta qualidade.

Inspirado no livro Do Androids Dream of Electric Sheep (1968) de Philip K. Dick, Blade Runner é considerado pela crítica como o melhor filme de ficção científica de sempre, e um dos pioneiros no estilo neo-noir.

A narrativa passa-se em Los Angeles, num futuro próximo, 2019. Com a deterioração do planeta e a consequente extinção de animais, o uso de "replicantes" (andróides) tornou-se num modo de vida. Produzidos pela corporação Tyrell, estes seres geneticamente modificados, assemelham-se em praticamente todos os aspectos aos seres humanos, excepto na falta de empatia. Os replicantes são exclusivamente utilizados como escravos para o trabalho pesado em colónias fora do planeta, estando proibidos de viajar para a Terra. Aqueles que desafiem a proibição e voltem, são caçados e "aposentados" (mortos), por agentes especiais da polícia conhecidos como "Blade Runners". O enredo centra-se no polícia Rick Deckhard (Harrison Ford), cuja missão é capturar quatro replicantes desesperados por saberem o segredos para prolongar a sua longevidade.

Com a sequela agendada para Outubro deste ano, são vários os receios que me assombram. Por muito que gostemos de saber o que aconteceu a determinadas personagens, quando um produto é bom às vezes é melhor deixá-lo assim, intocável. Felizmente, pelos trailers, o estilo sombrio, as paisagens urbanas nocturnas repletas de luz e a estética futurista continuam presentes. Agora resta saber se as narrativas filosóficas que perpetuamente questionam a ideia do que significa estar vivo e consciente, não foram esquecidas. Toda esta questão existencial típica dos humanos intriga-me tanto que espero ver a ideia desenvolvida no Blade Runner 2049.


Conhecem os filmes? Já viram algum? Qual o vosso favorito?

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Kesha ✞ "Praying"


Após uma longa batalha judicial travada com um produtor musical e a respectiva editora discográfica que a impediram de lançar conteúdo, a Kesha está oficialmente de volta e melhor que nunca. "Praying" é o primeiro single em quatro anos e a primeira balada a ser lançada na carreira da cantora. O resultado é simplesmente arrepiante. Se ainda não ouviram, por favor, parem de ler, cliquem no vídeo abaixo e voltem daqui a 5 minutos.

Mundialmente conhecida como uma party girl e dona de hits como "Tik Tok" e "We R Who We R", este comeback é agridoce. Não por ser num registo completamente diferente, trocando as pistas de dança por algo que se aproxima ao gospel, mas pelas razões que a levaram a estar ausente durante tanto tempo. A canção, inevitavelmente, fala das dificuldades que a jovem enfrentou nos últimos anos e como isso a transformou numa mulher mais forte e orgulhosa de si mesma. Se não estão familiarizados com a história, aconselho-vos vivamente a uma rápida pesquisa pela internet.

Para o lançamento da faixa a Kesha preparou um videoclip poderoso, repleto de simbolismos e metáforas bíblicas que explicam a sua jornada para a liberdade. Dirigido pelo talentoso Jonas Åkerlund, responsável por obras-primas como "Telephone" e "Paparazzi" da Lady Gaga ou praticamente o catálogo inteiro dos Roxette, somos convidados a assistir de camarote à tortura emocional que a Kesha passou. É simultaneamente poético, arrebatador e bonito. De longe o vídeo do ano e o melhor trabalho vocal dela.


Bastou ouvir a introdução para ficar desfeito em lágrimas. Riam-se, mas é verdade. A dor na voz dela é tão evidente que me custa imenso ouvir tudo sem uma reacção emocional. Sozinha, no meio do oceano, a cantora bateu oficialmente no fundo. Sem esperança, questiona Deus sobre o porquê de lhe ter acontecido aquilo. Se ele realmente existe, porque razão permitiu que passasse por algo tão horrível? Destroçada, pede para morrer, pois estar viva dói demasiado:
Am I dead? Or is this one of those dreams? Those horrible dreams that seem like they last forever? If I am alive, why? Why? If there is a God or whatever, something, somewhere, why have I been abandoned by everyone and everything I've ever known? I've ever loved? Stranded. What is the lesson? What is the point? God, give me a sign, or I have to give up. I can't do this anymore. Please just let me die. Being alive hurts too much.
Seja porque motivo for, é praticamente impossível não se conseguirem relacionar com estes pensamentos. Apesar de nunca ter falado abertamente disso aqui no blog, fui vítima de bullying durante 13 anos e foram muitas as vezes em que questionei se valia a pena continuar. Talvez por isso, tive uma conexão instantânea com esta canção. Tocou-me de uma maneira que nunca pensei ser possível. Uma coisa é associarmos uma letra a uma relação amorosa ou momento nostálgico, outra é reflectir um pedaço de nós, da nossa essência.  

Cada vírgula desta letra é para aquele cujo nome não deve ser pronunciado, mas até nisso ela provou ser superior. Não ataca quem lhe fez mal e a deixou ali, destruída. Não procura vingança ou incentiva violência. Em vez disso, reza por eles e espera que a sua alma encontre paz, face aos actos atrozes que cometeram. 

Conseguem compreender o quão importante é esta mensagem? No clima mundial em que vivemos, é extremamente relevante pois estamos rodeados de negatividade 24/7. Seja nos media ou nas trocas de palavras de uns com os outros, está em todo o lado. Ela tinha todos os motivos para odiar aquelas pessoas, mas isso só nos faz mal é a nós. Acabamos por nos deixar consumir por este sentimento tóxico e para quê? De que nos serve continuar a remoer isso se os outros continuam as suas vidas como se nada fosse? 

Na sua redacção para a Lenny Letter a Kesha explicou o significado de "Praying":
“It’s a song about learning to be proud of the person you are even during low moments when you feel alone. It’s also about hoping everyone, even someone who hurt you, can heal.”

Capa de Rainbow.
Todos nós devíamos aplicar esta máxima no nosso dia-a-dia. Podia dizer-vos para não retaliarem quando alguém vos tratar mal, mas na prática não é assim tão fácil. Resta-nos esperar que um dia se apercebam do que estão a fazer e nunca esquecer que a culpa não é vossa. O problema é deles, não vosso. Nunca se esqueçam disso. 

Rainbow é o primeiro álbum de inéditas da jovem norte-americana desde 2012, e vai estar à venda a 11 de Agosto. O projecto conta com Dolly Parton (num dueto da sua canção "Old Flames Can't Hold a Candle To You"), e os Eagles of Death Metal. Ate lá, resta-me continuar a contribuir para o número de visualizações de "Praying" que além de sensacional, tem tudo para se tornar num hino intemporal.


Gostam do comeback da Kesha? Conseguem relacionar-se com a mensagem?

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Sound the Alarm ⤫ Álbuns a ouvir #31


Não bastava estarmos em plena época de preparação para exames como ainda há celebrações dos Santos Populares. Realmente, não podia ter escolhido pior semana para "voltar", ah. Para não atrasar ainda mais a quantidade enorme de album reviews que tenho programadas, vamos lá então retomar e em grande, com o quarteto responsável por salvar a música pop em 2017 (vá, ainda falta a Lorde, mas ela que lance o Melodrama e depois falamos).

'1. Katy Perry Witness

A temível maldição do quarto disco voltou a atacar e desta vez a vítima é a Katy Perry. Parece que o mau olhado da cobra Swift resultou, irra. Acontece aos melhores, Beyoncé (4), Rihanna (Rated R) e Lady Gaga (Joanne) e nem a rainha da Candyfornia está imune ao nariz torcido da crítica. Curiosamente, Witness, é o seu trabalho mais ambicioso, coeso e interessante até à data. 

Aquando do lançamento do primeiro single, o politicamente recheado "Chained to the Rhtythm", a cantora descreveu o (na altura) futuro trabalho como "pop com um propósito". A antecipação era muita mas, infelizmente, isso não se verificou no produto final. Um exemplo disso é a escolha questionável de "Bon Appétit"  uma canção dance-pop sem qualquer aparente contexto político, em colaboração com um trio de homofóbicos para segundo single  algo que parecia deitar por terra tudo aquilo que "Chained" promovia. A Katy passou de um discurso socialmente consciente para querer ser "spread like a buffet". Entretanto ela descreveu a mensagem da música como uma "liberação sexual", mas mesmo assim, nada a ver com o inicialmente referido.

Colocando de lado descrições erradas, o que interessa é a componente musical e é nisso que temos que nos focar. Batidas electrónicas pulsantes e instrumentais de piano divinais fez desta Witness uma viagem deliciosa por entre melodias à la '80 mas em modo futurista. Digam o que quiserem, mas há autênticos hinos neste álbum. Ao longo de uma década a Perry tem-nos presenteado com verdadeiros hits  basta olhar para a era Teenage Dream inteira  e, a meu ver, a melhor canção deste projecto é, de longe, a "Roulette", seguida da faixa-título, "Witness", "Déjà Vu" e claro, a destruidora "Swish Swish".

Não seria um Katy Perry record sem uma balada capaz de nos despedaçar o coração e é isso mesmo que a "Miss You More" faz. Numa realização brutal em que a cantora se apercebe que as saudades de um antigo companheiro são superiores ao amor que ela sentiu por ele, é impossível ficarmos indiferentes. Tal como aconteceu em "The One That Got Away" ou "Unconditionally", esta é Katy no seu melhor e ai de quem disser o contrário. Também "Save as Draft" e "Into Me You See" apelam para o lado sentimental mas são poluídas pelo calcanhar de Aquiles da compositora, as letras. Não é segredo que a KP gosta do seu ocasional trocadilho azeitieiro, mas aqui esmerou-se. Digamos que proferir um "open sesame" a meio de um testemunho sentido ou fazer um suspiro dramático antes de dizer que vai... "salvar como rascunho" é absolutamente ridículo.

Fazendo um balanço geral, considero Witness um álbum superior ao Prism que, verdade seja dita, não apreciei muito (a não se por cinco faixas). Este mantém uma linha melódica coesa do início ao fim e, apesar de tudo, cumpre o seu objectivo: agradar os meus ouvidos. Pode não ser o bublegum pop que conhecemos e amamos ou até politicamente eficaz, mas não entendo a perseguição que as cantoras sofrem cada vez que tentam inovar e "mijar fora do penico". Evolução e experimentação são importantes e permitem-nos progredir. Da minha parte, Witness, recebe um Golden Ghostly.


'2. Halsey  Hopeless Fountain Kingdom

A Halsey não estava a brincar quando disse que estava heading straight for the castle. O secretamente soberbo disco de estreia, Badlands (2015), falava de "olhos educados entre as coxas dela" e "fazer sexo no lavatório da casa-de-banho". Em Hopeless Fountain Kingdom, o primeiro álbum de uma cantora a estrear em #1 no top da Billboard este ano, estamos perante uma recriação do romance de Romeu e Julieta, sob um olhar moderno e millenial, como é indicado em "The Prologue". Pois é, se pensaram que a referência ao 'Biggie e Nirvana' na "New Americana" foi atrevida, preparem-se.

Com uma produção digna de uma estrela com anos de carreira, o grande destaque é "Strangers", uma colaboração com a Lauren Jauregui das Fifth Harmony. Um hit instantâneo com sabor à anos 80 e que pode muito bem ser o primeiro dueto de peso (as t.A.T.u eram um grupo) sobre duas mulheres bissexuais a usarem o mesmo pronome de género ao longo da canção como, "she doesn’t kiss me on the mouth anymore".

Há que aplaudir a Halsey por ter criado uma visão romantizada desta narrativa quase poética de amores proibidos e más relações. O único senão é o facto de se notar que ela ainda não encontrou a sua voz enquanto artista. Os ingredientes estão todos lá, mas nota-se a milhas que ela se molda aos produtores e influências. Tanto pode saltar entre o The Weeknd e Avril Lavigne, como Florence & The Machine e até Rihanna  ainda não superei o facto da "Now or Never" ser uma cópia descarada da "Needed Me", mas tenho que admitir que estou viciado na maldita canção, algo que não aconteceu com a versão original.

Tive as minhas duvidas durante muito tempo mas consegui, finalmente, aceitar o timbre da Halsey e posso dizer que estou oficialmente rendido. 


'3. Dua Lipa  Dua Lipa

Até que em fim! Inicialmente previsto para ser lançado em Setembro de 2016, depois adiado para Fevereiro deste ano e mais uma vez adiado até 2 de Junho, habemus Dua Lipa, o álbum. Tenho sido um fiel seguidor da jovem inglesa de origem albanesa desde que lançou a impecável "Be The One" há dois anos atrás, e a cada aperitivo musical, as expectativas só aumentaram. Dito isto, não me pareceu nada bom presságio existirem seis singles oficiais antes do álbum de estreia ter chegado — isto para não falar das colaborações com o Sean Paul ("No Lie") e Martin Garrix ("Scared to be Lonely"). É praticamente metade do corpo de trabalho exposto antes do tempo, perdendo por completo o efeito surpresa. Não faz sentido nenhum. Aliás, isso explica o facto de só ter conseguido alcançar a #5 posição no top do UK. Sacrilégio.

Números e calendários à parte, não podia estar mais feliz por ter finalmente o projecto final em mãos, ou devo dizer, ouvidos? Tendo ouvido tudo do início ao fim umas 200x, confirma-se, a galinha dos ovos de ouro é, sem dúvida alguma, a voz da cantora. Dona de um timbre raspy extremamente edgy e cheio de garra, a Dua tem a capacidade de transformar uma faixa genérica e aborrecida numa aposta vencedora. É incrível!

Para um primeiro trabalho, o veredicto é positivo mas nada do outro mundo. Tem bons momentos mas não chega a fugir ao molde pop existente no mercado. As letras pós-adolescência repletas de questões sobre sexo, amor e empoderamento são actuais, asseguram o interesse do público e são todas da autoria da cantora, o que é um ponto positivo. Além de "Be The One" e "Hotter Than Hell", a mais recente, "Lost In Your Light", em parceria com o Miguel, é uma amostra perfeita de fluidez harmónica entre teclados, bateria e um refrão capaz de meter qualquer um a abanar o pé. Outro standout é a faixa de encerramento, "Homesick". Apoiada de piano, a composição resulta de uma colaboração com Chris Matin, dos Coldplay, que participa na gravação e cujos vocais se fazem ouvir ocasionalmente. Simplesmente mágica.


'4. Allie X  CollXtion II

Sabem quando gostam tanto de um artista underground que quase preferem nem falar muito dele para se manter "vosso" e longe do mainstream? É assim que me sinto com a Allie X. Após ocupar a 3ª posição no meu "TOP 10 EP's of 2O15" com a sensacional colectânea CollXtion I, a jovem canadiana está de volta com o tão aguardado segundo volume, agora em forma de álbum de estreia. Tal como o trabalho antecessor, encontramos um leque de canções sofisticadas, coesas, provocadoras, etéreas e absolutamente avassaladoras. É tudo o que podia querer e mais um bocadinho. Se ainda não perceberam, deixo bem claro, estamos perante um forte candidato ao título de Álbum do Ano.

Numa mistura sónica e visual entre Lady Gaga e Kate Bush, a Allie X é capaz de captar a nossa atenção de uma maneira brutal, deixando-nos suspensos no tempo e espaço. Além de escrever tudo, a cantora também tem créditos de produtora em praticamente todas as canções do disco. Se há coisa que aprecio é quando os artistas tomam o controlo do seu trabalho e não se deixam influenciar por barulho exterior. O resultado está à vista, uma sequência musical genial do início ("Paper Love") ao fim ("True Love Is Violent"). E tenho dito.



OUTROS ÁLBUNS A OUVIR (AQUI)

Já ouviram algum dos quatro álbuns? Qual é o vosso favorito?

sexta-feira, 26 de maio de 2017

CINEMA ⤫ Pocket Reviews #27


SINOPSE: Chris Washington, um afro-americano, vai visitar os pais da namorada que habitam num misterioso subúrbio caucasiano. A visita torna-se cada vez mais estranha e desconcertante para o jovem que rapidamente se apercebe que algo de errado se passa naquela comunidade.

OPINIÃO: Nos dias que correm são raras as produções que conseguem fazer jus à hype, leia-se, The Girl on the Train, mas esta conseguiu triunfar onde muitas erraram. Get Out é um filme de terror psicológico com a capacidade de se tornar num clássico dos tempos modernos. Sem se limitar a recorrer aos habituais truques de luz e som para provocar sustos no público, esta longa vai construindo uma narrativa sólida com personagens fortes e bem desenvolvidos. Algo extremamente raro no género em questão.

Jordan Peele, a mente criativa por trás do guião, escreveu uma premissa com tensões raciais mas extremamente interessante. Embora considere que o trailer dá a entender metade daquilo que vai acontecer, o que quebra um pouco o efeito surpresa. Dito isto, seria um verdadeiro crime caírem no erro de pensar que este é apenas "mais um filme contra racistas". Não é, é muito mais que isso.



SINOPSE: Jamie Fields é um adolescente que vive com a sua mãe, Dorothea, em Santa Bárbara, Califórnia. Abbie é uma estudante de arte e feminista que aos poucos vai utilizando as suas experiências para passar conhecimentos ao rapaz. Já Julie tem uma forte ligação com Jamie mas, apesar de dormirem juntos todos os dias, são apenas bons amigos.

OPINIÃO: 20th Century Women foi uma das razões pelas quais tentei adiar ao máximo a minha lista dos "Melhores Filmes de 2016". Tinha a certeza que quando o visse entraria para o top 20 mas infelizmente não foi disponibilizado a tempo. As expectativas confirmam-se, esta dramedy é fantástica.

Um dos vários factores positivos desta obra é a contextualização da década de '70, numa altura em que a violência não era uma das principais preocupações das pessoas. São pequenos detalhes como, por exemplo, o discurso da "Crise de Confiança" de Jimmy Carter, que elevam a caracterização não só da família como do quotidiano norte-americano.

Sensível e incrível, a narrativa é uma homenagem a todas as mulheres e mães. Aborda a força impressionante do sexo feminino e, ainda que o título remeta ao século 20, a mensagem é intemporal. Destaque ainda para a interpretação de Annette Bening, esse monstro da representação que mereceu sem dúvida alguma a nomeação ao Óscar de Melhor Actriz com a sua Dorothea.








SINOPSE: O ano é 2029. Já não nascem mais mutantes e Logan vive sob o seu nome verdadeiro: James Howlett, a poupar dinheiro para proteger o cérebro mais poderoso do mundo e que sofre de uma doença degenerativa. O Professor Xavier está demente e as consequências do descontrolo podem ser fatais para a Humanidade.

OPINIÃO: Apesar da X-Men franchise ser uma das minhas favoritas, nunca pensei que tivessem a capacidade de criar algo tão rico como este filme. A sério, ainda estou em choque com a qualidade. Satisfatoriamente violento, a certa altura Logan torna-se numa espécie de roadtrip movie, numa mistura entre os westerns clássicos de Clint Eastwood e a acção distópica de Mad Max. Não perde tempo a fazer um resumo do que aconteceu no passado. É uma história escrita, do início ao fim, para os verdadeiros fãs da saga e não podia estar mais satisfeito.

A relação quase de pai/filho entre o Hugh Jackman e o Patrick Stewart é igualmente dramática e absolutamente ternurenta. A química é tão natural que chega a ser comovente quando nos apercebemos que ambos vão deixar este universo. Sem revelar demasiado, a cena em que vemos Logan a subir com o  Prof. Xavier ao colo, para o deitar, é das mais queridas dos últimos tempos, especialmente num filme de super-heróis!

O final deixa-nos com um nó no peito. Hugh Jackman é e sempre será Logan. Deu corpo e alma a esta personagem e ao fim de 18 anos, despediu-se com chave-de-ouro, no melhor filme alguma vez produzido na franquia.




SINOPSE: Ashley e Verónica encontram-se por acaso numa festa e percebem que as suas vidas tomaram caminhos bem diferentes. Uma é pintora e não tem onde cair morta, a outra é rica e despreza a arte. Rapidamente as antigas hostilidades ressurgem e acabam ao murro, literalmente.  

OPINIÃO: Numa era em que muito se debate a crise de originalidade em Hollywood, é tão bom saber que ainda há quem tente contrariar a norma e construir novos tipos de narrativa. Ignorado por muitos, Catfight é um dos filmes mais originais e interessantes saídos do território norte-americano no último ano.

A dupla brilhante de protagonistas, Anne Heche e Sandra Oh interpretam duas arqui-inimigas e o reflexo uma da outra. Não é por acaso que a história se divida em dois actos reversos um do outro. Uma é artista, a outra não compreende o valor da arte; uma usa o conflito no Médio Oriente como inspiração artística, a outra deixa-se levar pelo interesse financeiro do marido no conflito; mas ambas acabam por ser mulheres solitárias, mesmo quando estão acompanhadas.

Existe um forte elemento de wtf ao longo da trama, mas é precisamente isso que me fez adorar este filme. O duo anda à luta três vezes e o desfecho aponta para um empate técnico, se bem que a vitória é das actrizes que estão soberbas tanto na vertente emocional como na comédia negra.


Já viram algum dos quatro filmes? Qual é o vosso favorito e o que gostaram menos?

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Sound the Alarm ⤫ Álbuns a ouvir #30


#1. Drake More Life
MUST LISTEN: GET IT TOGETHER | PASSIONFRUIT | MADIBA RIDDIM |  TEENAGE FEVER 

Num intervalo de apenas dois anos, o Drake lançou duas mixtapes If You're Reading This It's Too Late (2015) e What a Time to Be Alive, esta última em parceria com Future, lançou um disco bem recebido comercialmente, Views (2016), e ainda colaborou numa série de faixas, como o hit "Work" da Rihanna.

Com tanto material a sair sem seguir, necessariamente, uma linha conceptual única, o rapper norte-americano encontrou a solução ideal, lançar o novo registo musical como uma playlist. Intitulado More Life: A Playlist by October Firm (2017), o novo "álbum" é excessivamente longo, com uma duração de 80 minutos. A colectânea de 22 faixas e interludes navega pelo dancehall ("Madiba Riddim", "Blem"), o grime ("Get It Together", "Passionfruit"), e R&B ("4422", "Glychester"), sem que se torne numa confusão de géneros.

Sinceramente considero o Drake extremamente sobrevalorizado, e não percebo a hype toda à sua volta. Apesar de não ser nenhum entendido em rap ou sequer adorar o estilo, sei ver que existem muitos outros artistas bem mais eficazes que ele. Dito isto, More Life valeu a pena nem que seja pela genial "Get It Together". 


#2. Nelly Furtado  The Ride
MUST LISTEN: PHOENIXPIPE DREAMS | CARNIVAL GAMES | STICKS AND STONES

Oh Nelly, a falta que me fizeste! Cinco anos após o lançamento do último disco, o injustamente underrated, The Spirit Indestructible (2012), a luso-canadense mais conhecida do mundo está de volta com The Ride. Neste sexto álbum, a cantora volta a explorar um novo universo musical, aproveitando para revisitar uma série de elementos originalmente utilizados nos seus primeiros trabalhos. Estamos no mesmo território indie pop/synthpop de artistas como Sky Ferreira, HAIM ou até Carly Rae Jepsen, ou seja, música de qualidade com pouco ou nenhum sucesso comercial.

Produzido em parceria com John Congleton, o leque de 12 faixas é uma viagem melodicamente incrível, do início ao fim. A cantora provou que o pop não precisa ser necessariamente descartável, pode ter cabeça, tronco e membros. Da batida emocionante de "Magic", dreamy "Pipe Dreams", culminando na etérea "Phoenix", é um crime não embarcarem nesta Ride.

#3. Goldfrapp  Silver Eye
MUST LISTEN: ANYMORE | EVERYTHING IS NEVER ENOUGH | MOON IN YOUR MOUTH | OCEAN

Honesty Time: este é o primeiro projecto que ouço dos Goldfrapp do início ao fim. Veredicto: não me perdoo por não lhes ter dado uma oportunidade antes. Silver Eye é o primeiro registo de inéditas em quatro anos e do pouco que conheço dos trabalhos anteriores, segue o mesmo estilo apoiado em sintetizadores e batidas trip-hop/chillout que os meteu no mapa.

Como não tenho propriamente fonte de comparação, estou bastante satisfeito com o que ouvi. "Anymore" e "Ocean" são sem dúvida as grandes stand-out tracks do álbum. Por entre tantas batidas minimalistas e sintetizadores crescentes, a voz delicada da Alison capta a nossa atenção de uma maneira incrível. Sem dúvida uma das grandes surpresas deste ano.

#4. Mac DeMarco  This Old Dog
MUST LISTEN: THIS OLD DOG | WATCHING HIM FADE AWAY |  MY OLD MAN | A WOLF WHO WEARS SHEEPS CLOTHES

O Mac DeMarco é um verdadeiro achado. Foi-me recomendado por um colega, quando andava na Universidade, e desde então converti-me num fã. Desde 2012 ele já lançou dois álbuns aclamados pela crítica e parece-me que este This Old Dog vai completar o triângulo. Responsável pela composição, produção e gravação de cada um dos instrumentos, o músico canadense (apercebi-me agora que o Canadá está em grande nesta publicação) faz do registo de 13 faixas uma obra pessoal e intimista, através de versos em modo de confissão presentes ao longo do trabalho.

Na faixa de abertura, My Old Man, Demarco apresenta ao ouvinte uma cuidadosa reflexão sobre a necessidade de amadurecer e encarar a vida adulta. Aos poucos, vamos tendo acesso a vislumbres da vida pessoal e infância do compositor. Uma história marcada por abusos e agressões causadas pelo pai alcoólico. Este tipo de vulnerabilidade é desfolhado com o avançar de cada canção, até "Watching Him Fade Away", encerra o ciclo. Sem dúvida a música mais sincera da sua carreira. Aqui vemos o cantor a chegar a um patamar de aceitação sobre deixar algo que nunca teve verdadeiramente. Este é o Mac mais no seu estado mais cru de sempre, numa espécie de carta de amor à família que nunca teve. É simplesmente heartbreaking.

OUTROS ÁLBUNS A OUVIR (AQUI)

Já ouviram algum dos quatro álbuns/ep's? Qual é o vosso favorito?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Sound the Alarm ⤫ Álbuns a ouvir #29


1. Charli XCX Number 1 Angel
MUST LISTEN: BABYGIRLLIPGLOSSROLL WITH ME3AM

Enquanto o aguardado terceiro disco de estúdio não chega, a Charli XCX continua em terreno experimental com a mixtape "Number 1 Angel". Menos pessoal que o primeiro disco "True Romance" e menos agressivo que o EP "Vroom Vroom", este trabalho tem batidas cativantes e esboços de trap comandados por um exército pop feminono.

Composto por 10 faixas, a mixtape conta com a colaboração de diversas artistas emergentes na cena musical como Uffie, ABRA, Starrah, Raye e até a divertida Cupcakke. Também nomes conhecidos dão uma mãozinha como a dinamarquesa mais famosa do momento, MØ, a voz por detrás de hits como "Lean On" e "Cold Water". Estamos perante um verdadeiro caso de "girl power" e o resultado não podia ser melhor.

"Number 1 Angel" pode não ser um êxito comercial e alcançar qualquer tipo de sucesso, mas é, sem dúvida alguma, uma lufada de ar fresco.

2. ANOHNI  Paradise
MUST LISTEN: IN MY DREAMS | RICOCHET | PARADISE

Menos de um ano após o lançamento do álbum Hopelessness, o mais político de sempre da sua carreira, e que ocupou a 6ª posição no meu "TOP 50 de Melhores Álbuns de 2016", Anohni mostrou que ainda tem mais para dizer. Sob o EP Paradise, a cantora mantém a mesma linha criativa do trabalho anterior, com letras que exercitam mensagens dolorosas que expressam diferentes fases de sofrimento, superação e melancolia, embrulhadas numa estética electrónica alucinante. 

Contrariamente ao disco do ano passado, este é um pouco duro de ouvir, mas é suposto. Com as suas distorções, repetições e dissonâncias, a narrativa passa por momentos de lamentação ("Paradise"), amargurados ("Jesus Will Kill You") e furiosos ("Ricochet"), mergulhadas em feminismo e contra o capitalismo que parece terem sido criadas precisamente para não serem êxitos comerciais, algo contrário ao que o POP sempre foi. Um paradigma musical de génio. Numa conferência sobre este EP, Anohni explicou que o objectivo é "apoiar conversas activistas e romper suposições sobre a música popular através da colisão do som electrónico e letras altamente politizadas". Segue-se uma longa mensagem sobre a opressão do sexo feminino por parte do masculino, inclusive dos nossos líderes políticos. Música com consciência é rara e não podia estar mais satisfeito com o resultado final destas seis faixas.

3. Muna  About U

Há algum tempo que vos queria falar de uma das minhas mais "recentes" obsessões, as Muna. Este trio de ex-colegas da University of Southern California, formado por Katie Gavin, Naomi McPherson e Josette Maskin, é uma das grandes promessas musicais deste ano. O amor pelo synthpop e pop dos anos '80 é bastante evidente ao escutarmos cada uma das 12 faixas de "About U", o. álbum de estreia.

Uma coisa é certa, as raparigas têm uma habilidade incrível para criar melodias viciantes, apoiadas de bons refrões e linhas melódicas convincentes. Têm uma veia dramática que aprecio e se revela em algumas letras, como no caso de uma das minhas favoritas, a "Crying on the Bathroom Floor"  o título diz tudo. O facto de serem uma voz activa na comunidade LGBT é importante, nem que seja pelas mensagens que as suas músicas carregam. Enquanto elas não explodem no mundo mainstream vou continuar desfrutar de "About U" e pensar que o trio é só meu. Mas vá, não me importo de o partilhar com vocês.

4. Fenech Soler  Zilla
MUST LISTEN: UNDERCOVER | KALEIDOSCOPE | NIGHT TIME TV

Seguindo a temática 80's que parece ser uma constante na minha biblioteca musical, chegou a altura de vos apresentar o duo Fenech Soler. Com a saída do fundador Daniel Fenech-Soler e Andrew Lindsay do até então grupo, restaram os irmãos Ross e Ben Duffy para continuar a deliciar os fãs com o terceiro álbum de estúdio, Zilla.

Com uma sonoridade semelhante aos Daft Punk, é impossível ficar quieto ao som das batidas com sabor a Verão que o duo nos oferece faixa após faixa. Energético, repleto de refrões infecciosos e diversidade, sem perder a coesão, Zilla só peca por se tornar um pouco repetitivo. Dito isto, é O disco a ouvir antes de qualquer saída à noite, ou se forem lobos solitários como eu, a qualquer altura do dia.


OUTROS ÁLBUNS A OUVIR (AQUI)

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segunda-feira, 24 de abril de 2017

GIRLS, Uma série com tomates


Há uma semana que tento digerir o final de GIRLS mas sem sucesso. Seria de esperar que ao acompanhar tantas séries já me tivesse habituado às despedidas, mas não. Durante seis anos a Lena Dunham, por muito controversa que possa ser, foi mais do que uma porta-voz para os jovens da minha faixa etária. Despida de preconceitos, expôs cada curva do seu corpo com a mesma sinceridade com que quebrava o olhar estereotipado sobre o mundo feminino na televisão norte-americana. Hannah pode não ser a protagonista mais fácil de aturar, mas foi sem dúvida uma companheira.


Quando a Dunham quis criar, escrever, produzir e protagonizar a série da HBO que, segundo a própria, seria uma "espécie de Sexo e a Cidade mais próximo da realidade", fiquei com a pulga atrás da orelha. O desafio era simples, mostrar de igual forma as batalhas que todas as mulheres enfrentam no dia-a-dia, independentemente dos padrões de beleza popularizados pelos media. Se existiam dúvidas quanto ao produto final, foram esquecidas com a estreia que reuniu a opinião favorável da crítica e do público, elogiando o retrato arrojado e sincero das jovens mulheres, as suas imperfeições e vulnerabilidades.

A comparação óbvia com uma série tão icónica como o Sex & The City é inevitável, visto que também mostra quatro amigas a viver em Nova Iorque, mas as semelhanças ficam-se por aí. GIRLS dá voz a uma geração diferente, focando-se em relações pouco saudáveis, empregos e preocupações distintas daquelas vividas por Carrie Bradshaw e companhia. Tudo isto, através de um toque de dramedy em doses perfeitas, capazes de nos levar das lágrimas às gargalhadas. 


Tal como muitos de nós, a série mostra um rol de millennials privilegiados, recém-formados e criados pela tecnologia que, embora aparentem estar preparados para tudo, não fazem ideia do que implica entrar na vida adulta. Se não se identificaram com esta última parte, parabéns. Gostava de ser como vocês. Ao fim ao cabo, o objectivo de Hannah (Lena Dunham), Marnie (Alison Williams), Jessa (Jemima Kirke) e Shoshanna (Zosia Mamet), ao longo de seis temporadas, é precisamente tentar encontrar um rumo para as suas carreiras e relações enquanto se descobrem a si próprias.


Face à conjuntura social mundial que estamos a enfrentar neste momento, vão surgindo cada vez mais séries com cabeça, tronco e membros. Por muito que o mundo da fantasia seja um escape ideal para os problemas da vida real, são séries como esta que nos fazem pensar, e de que maneira. Nos últimos anos, nenhuma foi capaz de abrir caminho à discussão fervorosa, incómoda e controversa, quer seja pelo tratamento de questões como a imagem, a auto-estima, o body shaming, o feminismo e a sexualidade. Por falar em sexo, este foi retratado de uma forma muito... interessante. Longe de ser politicamente correcto ou visualmente apelativo, na maioria das vezes mostrou ser embaraçoso, desconfortável e até difícil de ver. De facto, esta é uma das minhas componentes favoritas da série. O contraste dos corpos magros e musculados que Hollywood nos impinge com as barrigas com pneus, pernas com celulite e os efeitos hormonais da menstruação, elevam esta produção a um nível de realismo ímpar. 


CUIDADO, POSSÍVEIS SPOILERS ABAIXO
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A atribulada viagem de auto-descoberta do quarteto de protagonistas culmina num dos melhores episódios da série, Goodbye Tour, o penúltimo. Naquele que foi apontado pela maioria do público como o verdadeiro final da season, vemos imagens da Hannah a deixar Nova Iorque e a tomar as rédeas da sua vida enquanto futura mãe solteira que se prepara para ser professora universitária, intercaladas com a festa de noivado-relâmpago de Shoshanna. Acompanhada da assombrosa canção "Crowded Places", da BANKS, escrita de propósito para o episódio em questão, e que me deixou lavado em lágrimas pela letra e cena em geral, Hannah, Marnie, Jessa e Shoshanna dançam os problemas e diferenças fora antes de tudo mudar para sempre.


Latching, o capítulo final ever de GIRLS, surpreendeu por avançar cinco meses na acção e se focar na vida de Hannah enquanto recém-mamã, apoiada de Marnie, que acabou por preencher o papel de pai. Só de pensar que estas duas personagens terminaram como começaram, juntas, dá-me um aperto no peito. O facto de incluírem a Loreen, mãe de Hannah, deixou-me muito feliz, nem que seja por proporcionar um dos melhores diálogos da série. Por fim, alguém dá o reality-check que a jovem precisava sobre a sua constante self-pitty party (eu pensava que era mau mas ela... damn). "You know who else is in emotional pain?", pergunta Loreen. "Fucking everyone.". Nem vos consigo descrever o arrepio que senti durante esta cena. 


Muitos criticaram o facto de se tratar de um episódio "externo", em "aberto" e sem vínculos com o restante elenco, mas isso só demonstra que não compreenderam a verdadeira essência dos acontecimentos. Tal como a série em si, o último episódio foi chocante, solitário, cru e esperançoso. A meu ver, foi dos finais mais poderosos a que alguma vez assisti de uma produção televisiva. Por muitos defeitos que aquelas quatro raparigas tenham, seja a falta de independência de Hannah, os problemas de OCD da Shoshanna, a falta de amor próprio mascarado de desapego emocional de Jessa ou a falta de noção de Marnie, sinto que perdi quatro melhores amigas. Sim, conseguiam ser demasiado irritantes, mas só demonstra o quão real era o retrato de cada uma delas. Digam o que disserem, GIRLS tornou-se numa série de culto sobre a incerteza da entrada na idade adulta e estarão para sempre comigo.


Conhecem/viam GIRLS? Qual é a vossa personagem ou momento favoritos? Gostaram do final?

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