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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

MOVIE LOUNGE ⤫ BLADE RUNNER 2049 (2O17)


Considerado por muitos como o melhor filme de ficção científica de sempre, e um dos pioneiros no estilo neo-noir, Blade Runner (1982) voltou a materializar-se no grande ecrã. Trinta e cinco anos depois da obra-prima de Ridley Scott, a sequela realizada pelo canadiano Denis Villenueve surge como um alívio personificado ao prolongar e reinventar o universo original.

A acção toma lugar trinta anos após os acontecimentos em Blade Runner: Perigo Iminente, na versão portuguesa. Humanos e replicantes continuam a coexistir, embora a linha que os separa seja cada vez mais ténue. Os Blade Runners continuam a perseguir e "reformar" replicantes ilegais mas, até que ponto serão estes alvos realmente robôs? E afinal, quem é verdadeiramente humano? A premissa original de Hampton Fancher e David Peoples é, assim, preservada.



Não é segredo o meu amor pelo original e desagrado com as notícias de uma sequela (AQUI). Dito isto, tenho que dar a minha mão à palmatória e admitir que Blade Runner 2049 esforçou-se ao máximo para manter a visão de Ridley Scott. Através de paisagens futuristas, fruto de um genial trabalho de fotografia (Roger Deakins) e cenografia (Dennis Gassner), é assegurada a ambientação sombria e iluminação néon que tanto cativaram os fãs desde a década de '80.

O argumento não é revolucionário, mas oferece ideias que nos deixam a remoer a perpétua problemática do que significa estar vivo e consciente. O ritmo da narrativa é lento, algo arriscado num filme de quase três horas, mas os pontos altos justificam tal decisão. Confesso que nem dei pelo tempo passar. Estava de tal modo imerso na acção e maravilhado com a vertente visual que pouco me importou o facto de nem ter tido tempo para almoçar antes da sessão.


O principal problema desta produção prende-se ao casting. O elenco até é bastante a cima da média, mas existem duas escolhas que... não compreendo. Como temi desde o início, Ryan Gosling não se insere propriamente bem nesta temática. Tudo se resume a uma questão de gosto pessoal, mas é impossível não perceber que o actor assumiu uma espécie de "piloto automático" que parecia não ter percebido que o seu agente K, o protagonista, estava a viver um conflito interno sobre a questão da existência ou não da alma. Não posso revelar spoilers portanto permitam-me esta análise superficial. Digamos que para alguém que desenterra um segredo potencialmente perigoso para o equilíbrio da humanidade, falta ali qualquer coisa.


Ana de Armas foi uma autêntica revelação. Confesso que não estava familiarizado com o seu trabalho mas, tal como a maioria dos espectadores, fiquei rendido à sua performance fantasiosa de Joi. Aliás, praticamente cada vez que partilhava a cena com Gosling, afastava os holofotes dele e direccionava todas as atenções para ela. O mesmo acontece com o regresso de Harrison Ford, atirando o actor de La La Land (e o canastrão Jared Leto) para fora das luzes da ribalta. Não há qualquer dúvida de que Joi e Deckard são as personagens mais fascinantes desta longa metragem. De realçar ainda pela positiva a Robin Wright e Sylvia Hoeks.


Por muito que dispensasse uma sequela, não vos consigo descrever o que senti assim que a primeira frame aparece no ecrã e a música começa a ecoar pela sala de cinema. A banda sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch é simplesmente mágica e transportou-me de imediato para a primeira vez em que vi Blade Runner, numa aula de Psicologia, há alguns anos atrás. Foi quase bizarro por sentir nostalgia de algo que nunca vivi, pelo menos na época certa. 


Blade Runner 2049 não chega aos calcanhares do irmão mais velho, mas é uma relíquia visual que merece ser vista de olhos bem abertos. Por ser um filme tão difícil como o primeiro, arrisca-se a ter uma recepção igualmente pouco interessada do grande público, mesmo com um elenco apelativo à la Hollywood e das várias reacções positivas.


Classificação IMDb: 8.6/10
Classificação Ghostly Walker: 8/10


Já viram o filme? Conhecem o original? Se sim, qual o vosso favorito?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

MOVIE LOUNGE ⤫ FANTASTIC BEASTS (2O16)


Só eu sei o quanto me dói contribuir para a maré exaustiva de publicações sobre este filme mas, vamos lá. 

Fantastic Beats and Where to Find Them marca o regresso tão aguardado do mundo mágico criado por J. K. Rowling, que se estreia como guionista nesta produção realizada por David Yates. Com a difícil tarefa de manter a fasquia elevada da saga Harry Potter, foi com um certo cepticismo que entrei na sala de cinema. Assim que as luzes se apagaram e ao longe começou a ecoar a intro que ouvi pela primeira vez há 15 anos atrás, fui consumido por um sentimento de nostalgia enorme que me fez lançar um omg sorrateiro.


Terminada a melodia, o espectador é "forçado" a encarar a realidade: não estamos em Hogwarts. Com tons mais sombrios, a acção desta longa-metragem desenrola-se na cidade de Nova Iorque, na década de 1920, onde uma guerra civil entre feiticeiros e "No-Majs" (apelido absurdo que os americanos dão aos "nossos" Muggles) pode estar prestes a rebentar.


É neste contexto que conhecemos um novo herói, Newt Scamander (Eddie Redmayne), um "magizóologo" britânico que viaja até à big apple acompanhado de uma mala cheia de criaturas fantásticas. E são, de facto, fantásticas: não só por cada um ter a sua própria personalidade, como pelos efeitos visuais francamente cativantes que tornam a sua presença o mais realista dentro do possível. Aqui entre nós, fiquei completamente derretido com o Niffler e o Demiguise. 

Em contraste com o mundo fantástico dos monstros que habitam a mala de Newt, encontramos Percival Graves (Collin Farrel) e Grindelwald (Johnny Depp). Sem querer revelar spoilers, a suposta "reviravolta" era tão óbvia que não contive um revirar de olhos quando se concretizou.


Em relação ao elenco, há que destacar o desempenho extremamente competente de Ezra Miller (Clarence) e a dupla Dan Fogler (Jacob Kowaslki) e Alison Sudol (Queenie Goldstein), os dois parceiros de Newt e Tina (Katherine Waterson), na busca dos monstros que fugiram da mala do feiticeiro inglês.


Ainda que visualmente apelativo, se nos abstrairmos de laços emocionais, este primeiro capítulo de cinco, deixou um pouco a desejar. A narrativa não arrisca muito, adoptando uma abordagem superficial da imensidão que este universo tem para oferecer. São deixadas coisas por explicar e existem demasiadas referências  algumas quase forçadas  da história a serem exploradas de uma só vez. Conclusão, por vezes consegue tornar-se um pouco confuso. Divertido, mas confuso.


Fantastic Beasts and Where to Find Them pode não ser o filme do ano, mas é um aperitivo suficientemente interessante para nos fazer pedir o prato principal. Até lá, resta-me esperar impacientemente pelos próximos filmes que ainda estão para vir.

Classificação IMDb: 7.8/10
Classificação Ghostly Walker: 7/10


Pergunta desnecessária mas, já viram o filme? Adoraram ou podia ter sido melhor?

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

MOVIE LOUNGE ⤫ THE NEON DEMON (2O16)


Estreou há pouco mais de três meses e, The Neon Demon, já se afirmou como um dos mais controversos e polarizantes filmes de 2016. O realizador Nicolas Winding Refn (Drive, Lost RiverOnly God Forgives) concebeu um espectáculo visualmente apelativo, inspirado em lendas, no oculto, no género slasher e cinema europeu. Não sendo fácil de engolir  literalmente  tornou-se numa das produções cinematográficas mais fascinantes dos últimos tempos.


The Neon Demon conta a história de uma jovem de 16 anos, Jesse, que chega a L.A. com o sonho de se tornar modelo. Portadora de uma (suposta) beleza absolutamente arrebatadora, assina contrato com uma grande agência. Admirada por uns e detestada por outros pela sua perfeição, certo é que a sua carreira de modelo cresce a uma velocidade alucinante. Nem tudo é um mar de rosas e no meio do plástico demoníaco, este ser natural e puro acaba por ser comido pelas mulheres que se sentem ameaçadas pela sua simples existência.

À primeira vista o enredo é capaz de originar um bocejo ao ler "jovem aspirante a modelo tenta vencer em L.A.", mas não se deixem enganar. O argumento é polémico, satírico e corajoso, abordando a luta constante pela perfeição estética com unhas e dentes. Não nego a quantidade de clichés, superficialidades e amoralidades aqui presentes, mas é exactamente esse o propósito desta obra.


Seguindo o mesmo modelo apresentado por Refn em trabalhos anteriores, a componente visual é tão ou mais importante que acção propriamente dita. Ver The Neon Demon é o equivalente a desfolhar as páginas de uma Vogue escrita por psicopatas sob ácidos. Cada frame está meticulosamente trabalhada, desde o jogo de luzes e sombras, aos splashes de cores psicadélicas. Digam o que disserem, a criatividade está no seu expoente máximo.

A fotografia de Natasha Braiar, os figurinos de Erin Benach e a música de Cliff Martinez dão o ênfase necessário a esta atmosfera predatória do mundo da moda. Não é por acaso que a cena da passerelle, numa espécie de realidade alternativa, representa o momento em que a nossa protagonista evolui, por assim dizer, de santa a demónio. Um verdadeiro concurso narcisistico que termina com Jesse a beijar o seu próprio reflexo e aceitar que é the hottest shit in town.


A protagonista desta fábula trágica é uma contradição andante. Jesse é simultaneamente uma virgem inocente e um demónio narcisista. É santa e pecadora, pura e objecto de desejo sexual. Neste campo, a Elle Fanning fez um bom trabalho ao projectar a vulnerabilidade e awkwardness necessárias na interacção com outras personagens. Face a dualidade psicológica da jovem modelo, Refn não pretende que a audiência a julgue. Muito pelo contrário, quer que seja celebrada no seu esplendor contraditório.

Arrisco-me a dizer que a Jena Malone oferece uma das, se não mesmo a melhor prestação da sua carreira enquanto Ruby, uma maquilhadora sedenta de afecto e diabolicamente depravada. Não só aceita os clichés do argumento como os celebra, levando-os ao extremo. Sem revelar spoilersAQUELA cena da morgue foi fruto da entrega total de Malone a este projecto.


Há que aplaudir o modo como Refn torna a câmara no verdadeiro monstro do filme e não as modelos. Apesar da sua premissa aparentemente anti-feminista, os homens do filme não passam de adereços descartáveis e irrelevantes. Ainda assim, seria injusto ignorar a prestação de Alessandro Nivola, o designer de moda que encontra em Jesse uma musa, e que apesar de pouco tempo de antena, conseguiu cativar a atenção do público.


É importante perceber que não estamos perante um drama narrativo, mas sim numa viagem estética. Atenção, não significa que falte substância. Está é personificada de modo visual, colocando de lado metáforas e dando prioridade ao sentido literal das coisas. Talvez seja esse o motivo pelo qual o filme está sujeito a várias interpretações. Há quem diga que leva ao exagero e ao chocante a temática da obsessão pela beleza e poderes de uma indústria que busca a todo o custo a perfeição.

Com um passo um tanto ao quanto lento, confesso que as cenas finais me surpreenderam. Desconfiava que algo de muito estranho estava a acontecer nos bastidores ficcionais da história mas nunca me passou pela cabeça que fosse aquilo


Quem estiver disposto a colocar ideias pré-concebidas de lado e aceitar o choque e provocação criadas por Refn neste universo semi-alternativo, pode descobrir momentos absolutamente geniais no seu íntimo. A polaridade opinativa entre o tédio e a devoção que o filme provoca nos espectadores só comprova o quão interessante é esta obra.

The Neon Demon não é mais que uma história simples pintada de forma irreverente, por intermédio de vaidades e sede de poder tão presentes na nosso quotidiano. Não é um conto moral. Aceita que o mundo é pútrido e comemora-o como tal.

Classificação IMDb: 6.5/10
Classificação Ghostly Walker: 7/10


Já viram o Neon Demon? Pertencem ao grupo que gostou ou detestou?

quarta-feira, 20 de abril de 2016

MOVIE LOUNGE | "Robinson Crusoe" (2016)


Durante uma violenta tempestade, Robinson Crusoe é atingido na cabeça e perde os sentidos. Ao acordar descobre que não só o seu navio ficou destruído como é o único sobrevivente da tripulação. Acabando por atracar numa pequena ilha do Pacífico com o seu cão, conhece um papagaio que sonha viajar pelo mundo. É através dele que o jovem inglês se torna amigo de todos os animais que lá habitam, criando-se um elo de entre-ajuda e cumplicidade. Esse laço vai-se revelar fundamental quando se virem obrigados a lutar contra um grupo de gatos maquiavélicos – também eles náufragos –, que desejam assumir o controlo da pequena ilha.


Pouco convencido com trailer, tive direito a bilhetes para assistir à antestreia deste filme, em 3D, no passado Sábado, dia 16. Os fãs de Daniel Defoe e o seu clássico de 1719 que me perdoem, mas não considerava a história interessante o suficiente para ser adaptada para o grande ecrã, muito menos como animação. Curiosamente, é esse o principal problema desta longa-metragem, a narrativa. Extremamente simples e sem momentos de pura comédia para contra-balançar, digamos que foi um prato servido morno.


Numa era em que as personagens animais comandam as principais produções cinematográficas do género, Robinson Crusoe peca por comparação. O elenco de criaturas excêntricas e todo o diálogo subjacente não são nada eficazes. Excepto uma porco-espinho amorosa e um tatu, enquanto espectador, não consegui criar uma relação de empatia com praticamente mais ninguém. Ainda assim, não posso deixar de referir que existem algumas cenas ternurentas, capazes de nos deixar escapar um "aww".

Tendo em conta que o estúdio belga nWave não tem o mesmo orçamento que os gigantes DreamWorks e Pixar, tecnicamente falando, fiquei bastante impressionado com a utilização do 3D. Os animadores fizeram um trabalho fantástico com os cenários, incluindo pores-do-sol tropicais lindíssimos e até mesmo a tempestade em mar alto que envia o Crusoe para a sua nova casa.

Embora não seja uma prática recorrente, animação é o único género cinematográfico que não me
 importo de ver dobrado. Pode-se dizer que me transporta à infância, quando me refastelava no sofá a ver as cassetes dos clássicos da Disney (muitos deles em brasileiro). De qualquer forma, e de uma maneira geral, o núcleo de actores nacionais escolhido para dar voz às personagens foi competente.

Apesar do público-alvo ser, claramente, as crianças na faixa etária dos 6 anos, é uma óptima opção para passar o tempo. Com realização de Vincent Kesteloot e Ben Stassen, Robinson Crusoe, estreia em Portugal amanhã, dia 21 de Abril.


Classificação IMDb: 5.6/10
Classificação Ghostly Walker: 5/10

Conheciam o filme? Ficaram curiosos?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

MOVIE LOUNGE | Me and Earl and the Dying Girl



A história acompanha Greg (Thomas Mann), estudante e apaixonado por cinema, que produz paródias de filmes clássicos com o seu único amigo Earl (RJ Cycler). Decidido a levar o último ano do Secundário no anonimato, evitando interacções sociais, é obrigado pela mãe a fazer amizade com uma colega de turma, Rachel (Olivia Cooke), que tem cancro. Greg só não podia imaginar que Rachel iria mudar a sua vida para sempre.


Ao que parece a febre hollywoodesca dos vampiros foi substituída pelo cancro. Nada mórbido. À primeira vista a sinopse de Me and Earl and the Dying Girl até pode parecer similar à do Fault In Our Stars, mas não é. A única coisa que os une é a mesma doença, porque de resto, este tem qualidade. Logo no início do filme, o protagonista prepara o espectador para o que aí vem: não vai assistir ao cliché romântico do rapaz awkward que se apaixona pela rapariga doente, mas sim à história de como "o meu filme matou, literalmente, uma rapariga". 


Durante esta produção, existe sempre aquela sensação de desconforto por nos rirmos de um filme que gira em torno de uma rapariga que sofre de cancro. Neste ponto, existe um cuidado enorme pelo director, Alfonso Gomez-Rejon, ao certificar-se que o assunto recebe o tratamento delicado que merece, combinado com a dose perfeita de comédia e drama.


Cada vez que pensava que não iriam cumprir com a premissa, e que seria engolido por algo cliché ou extremamente sentimental, era surpreendido pelo argumento astuto e inteligente. Despido de qualquer estereótipo e com referências fantásticas a clássicos da sétima arte, passamos o tempo inteiro a desejar que o aviso inicial da personagem principal não passe de uma partida, um engano, e que no final tudo ficará bem. Sem comentários. Chorei baba e ranho, só faltou soluçar. 


O elenco é, sem dúvida alguma, um dos pontos mais fortes desta produção. O trio de protagonistas, Thomas Mann, RJ Cyler e Olivia Cooke  a actriz da série Bates Motel rapou o cabelo todo para este papel , presenteiam-nos com performances igualmente fortes tanto no campo cómico como dramático. Apoiados por actores secundários veteranos como Connie Britton, Molly Shannon, Jon Bernthal e Nick Offerman, até a voz do Hugh Jackman faz uma aparição hilariante.


Baseado no livro homónimo de Jesse Andrews, que também assina o roteiro, a adaptação cinematográfica de Me and Earl and the Dying Girl venceu os prémios do Grande Júri e do Público no Festival Sundance 2015. Aconselho-vos vivamente a verem este filme, um dos meus favoritos dos últimos tempos.

Classificação IMDb: 7.9/10
Classificação Ghostly Walker: 8/10

Já conheciam o filme? Ficaram curiosos?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

MOVIE LOUNGE | "O Principezinho" (2015)


Nunca li "O Principezinho". Não há maneira de fugir ao assunto, nunca li aquele que é para muitas pessoas considerado o livro da sua infância. Talvez por ter ouvido falar tanto dele, criei uma espécie de aversão inconsciente a este tipo de clichés literários, tal como o famoso "A Lua de Joana", com que era bombardeado todos os anos em apresentações de Língua Portuguesa. Posto isto, a adaptação cinematográfica quebrou quaisquer ideias pré-concebidas e fez de mim um crente.

O filme conta a história de uma menina que vive com a sua mãe, uma mulher obcecada com o futuro da filha, e que definiu antecipadamente uma rotina diária repleta de actividades para que a criança seja aprovada numa escola conceituada. Certo dia, um acidente provocado pelo seu vizinho faz com que a hélice de um avião abra um buraco enorme na casa sua casa. Curiosa em saber como é que aquilo aconteceu, a menina resolve investigar. É então que conhece o vizinho, um antigo aviador que lhe conta a história de como conheceu, em pleno deserto, um principezinho que lhe disse viver num asteróide com a sua rosa. Pela primeira vez, a menina faz um amigo e percebe o verdadeiro significado da amizade.


Tive o privilégio de poder assistir à ante-estreia do filme no Domingo, dia 29 de Novembro, graças à minha namorada que, novamente, conseguiu bilhetes. O primeiro factor que salta à vista nesta produção é o facto de possuir dois tipos de animação distintos. Alternando entre o digital e stop motion, é a combinação perfeita para distinguir os dois tempos da narrativa, as memórias e o presente.


É certo que não estou familiarizado com a obra literária mas, de acordo com a minha expert em contos infantis, a adaptação não segue a história original à risca. Contudo, as referências importantes do livro como a vida adulta  as normas/regras a seguir e ausência de imaginação/criatividade nesta fase — estão lá, por meio da menina que é controlada ao minuto pela mãe.

A relação entre a menina que vive como adulta e o vizinho idoso que vive como criança, é capaz de derreter o coração da pessoa mais fria do mundo. É com o antigo aviador que a menina vai perceber que o mais importante na vida não é trabalhar 24/7 ou cumprir religiosamente horários, mas sim o amor, a amizade e valorizar as memórias que são como que um portal capaz de nos transportar até aos momentos mais felizes da nossa estadia pela Terra. Por muito cliché que isto seja, não podia estar mais certo.


Um pormenor interessante é o facto de nenhuma das personagens ter nome. Posso estar completamente errado, mas a minha interpretação é que serve para mostrar que todos nós podemos ser tanto a menina como o velhote. Ao fim ao cabo são personalidades que nos representam a certa altura da nossa vida. Outra questão interessante é a diferença de cores entre os diferentes espaços. O "mundo" adulto é monótono, em tons de cinza, como se estivesse sempre de chuva, enquanto a casa do aviador é uma explosão de cores e o cenário perfeito para a imaginação de uma criança florescer.

Não podia deixar de referir a banda sonora que está fantástica. Tocante e sensível, está adequada a cada momento do enredo, sem nunca se sobrepor à acção. É incrível como mesmo em músicas mais melancólicas, são completamente diferentes ao que estamos acostumados a ouvir em produções infantis. Se em "Song of the Sea" as influências irlandesas eram óbvias, o mesmo se aplica às francesas neste.

Veredicto final? Fiquei desolado. Dei por mim com o queixinho a tremer e a derramar um rio de lágrimas em três ocasiões diferentes. Saí do cinema como se me tivessem arrancado o coração a sangue frio. Até podia estar a exagerar, mas quando nos apercebemos que está uma sala inteira de adultos a chorar com um filme "para crianças", algo não está certo. "Para crianças"? Isto é aquilo a que chamo de animação para adultos (sem conotações ordinárias, por favor), isso sim. Aconselho-vos vivamente a assistirem ao "O Principezinho", agora disponível nos cinemas nacionais. Simplesmente incrível.

Realizado por Mark Osborne, a longa-metragem baseia-se no clássico mais vendido em francês e o terceiro mais traduzido do mundo, do ilustrador e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry, publicado em 1943. Na ante-estreia marcaram presença os actores que deram voz à versão dobrada em português, incluindo a dupla da novela "Poderosas" da SIC, Joana Ribeiro ("a menina") e Rui Mendes ("o aviador"), Francisco Monteiro e Pedro Leitão como "o Principezinho", Paulo ("a raposa"), e infelizmente não vi a Rita Blanco ("a mãe").

Classificação IMDb: 7.8/10
Classificação Ghostly Walker: 9/10


Já viram o filme? Ficaram curiosos?

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

MOVIE LOUNGE | "Ich Seh, Ich Seh" (2014)


Os gémeos Lukas e Elias (Lukas e Elias Schwarz) vivem numa casa de campo isolada onde esperam pelo retorno da sua mãe (Suzanne Wuest), que  se ausentou para realizar uma cirurgia plástica. Porém, ela volta diferente: omissa e agressiva. Os rapazes começam a aperceber-se na mudança de personalidade da mãe e de alguns hábitos estranhos o suficiente para os fazer crer que por baixo das ligaduras está uma desconhecida. Incapazes de a reconhecer, iniciam uma sádica sessão de tortura até que ela revele a sua verdadeira identidade.


"Goodnight Mommy" (título em inglês) foi um dos filmes que mais ansiei ver este ano devido ao excelente trailer. O resultado final não foi o que esperava, mas isso não significa que seja mau, muito pelo contrário. Com um enredo original e repleto de suspense, o espectador é inundado de uma constante sensação de que algo não bate certo; nem tudo é o que parece.


É importante esclarecer que não se trata propriamente de um filme de terror, e sim um fantástico suspense psicológico. Dentro desse género, é um dos melhores dos últimos anos. Sem se render a clichés como cenas escuras e melodias assustadoras, trata-se de uma obra minimalista. A acção passa-se praticamente toda num único cenário, a casa, com apenas três personagens (tirando uma ou outra que pouco acrescentam à história), e existem poucos diálogos. Um dos pontos altos desta produção austríaca é a fotografia cinematográfica limpa e capaz de tornar ambientes amplos e vazios mais assustadores que o normal.


Ainda assim, assisti-lo requer alguma paciência. A primeira metade da trama leva algum tempo na ambientação e desenrolar da acção. Durante grande parte do tempo, acompanhamos a rotina e brincadeiras dos gémeos, intercalados com momentos de tensão com a presença da mãe. No entanto, esta sequência de eventos é necessária pois ajuda o espectador a ir juntando pistas para resolver o mistério que envolve os protagonistas. Em contraste, a segunda metade do filme sofre uma mudança de estilo para algo mais intenso, mas sem estragar o clima até aqui construído.


Nesta longa metragem austríaca, a relação maternal é o palco de terror para as personagens que são vítimas dos seus próprios medos. Não é um filme de fácil compreensão, pois deixa muitas coisas subentendidas, mas é exactamente isso que o torna brilhante. Com momentos doentios de cortar a respiração, não tenho dúvidas que não vai agradar a todos. Ainda assim, seria um sacrilégio não testemunharem a soberba performance de Suzanne Wuest, e até mesmo dos irmãos gémeos que com apenas 9 anos mostraram ser mais competentes que muitos actores veteranos.

Classificação IMDb: 6.7/10
Classificação Ghostly Walker: 7/10

Já tinham ouvido falar deste filme? Ficaram curiosos?

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

MOVIE LOUNGE | "Mune, o Guardião da Lua" (2014)


Num mundo mítico, Mune, um fauno traquina, é escolhido para ser o Guardião da Lua. O seu trabalho consiste em transportá-la ao longo da noite e cuidar do mundo dos sonhos. Enquanto Mune é ingénuo e gentil, Sohone, o Guardião do Sol, é arrogante e impetuoso. Quando o fauno comete um terrível erro, Sohone pensa que sabe melhor e decide ir tentar resolver o problema, deixando o sol desprotegido. Resultado, o sol é roubado por uma criatura que vive nas profundezas do submundo. Com a ajuda da frágil Cire, uma criatura de cera, os dois guardiões vão ter que trabalhar juntos e embarcar numa extraordinária missão para manter o equilíbrio do planeta. 


Um dos pontos altos do filme é sem dúvida a questão astrológica ou melhor, cósmica do enredo. O mundo é muito diferente àquilo que estamos acostumados a ver em longas metragens de animação, é único. A história começa com a "lenda" de como surgiram os primeiros guardiões: inicialmente o mundo era frio, como tal o Guardião do Sol original puxou a estrela mais próxima com um arpão, de modo a aquecer o planeta. Por outro lado, a lua foi cravada de uma "pedra de sonhos" pelo primeiro guardião, de modo a existir uma luz que brilhasse à noite e iluminasse os sonhos. 


Uma vez a cada 350 anos, sol e lua encontram-se lado-a-lado para uma cerimónia de passagem de testemunho dos antigos guardiões para os novos escolhidos. A partir daqui começa a acção propriamente dita do filme, e solidifica-se o contraste de personalidades entre as duas figuras centrais. O sol é alto e corajoso, a lua é calma e doce. O sol é puxado por correntes pesadas e a lua com delicadas cordas de seda. Mune é inocente e Sohone é convencido.


A completar o trio de protagonistas temos uma das minhas personagens favoritas, a Glim ou Cire (na versão portuguesa). Se apanhar sol ela derrete e à noite congela. Devido à sua natureza frágil, o seu pai é demasiado protector e nunca a deixa sair de casa. No entanto, a filha é muito teimosa e com um espírito aventureiro, quer a todo o custo conhecer o mundo. Além do seu vasto conhecimento em cosmologia, vai servir como uma espécie de ferramenta na história para manter unidas os tão díspares Mune e Sohone. Não só eles terão que juntar forças para recuperar o sol, mas também para manter Cire a salvo de derretimento/congelamento durante a sua jornada. Este relacionamento entre o trio cria uma grande oportunidade para ambos os Guardiões crescerem como personagens, só é pena que o mesmo não possa ser dito sobre a rapariga de cera.


Quando vi o trailer pela primeira vez fiquei muito curioso com este filme. Infelizmente, o resultado final ficou muito aquém das minhas expectativas (demasiado) elevadas. Sim, o design do mundo é fantástico, assim como todas as árvores, flores, criaturas, mas sem uma história sólida a acompanhar, cai tudo por terra, literalmente. A dada altura parece que a acção fica estagnada, e o tédio toma as rédeas da situação. Confesso que dei por mim a fechar o olhos a meio da trama, o que só por si não  é um indicativo nada favorável. Não está mau, mas está muito longe de alcançar o seu potencial. 


Uma coisa é certa, os bichinhos que teciam as teias para segurar a lua  recuso-me a chamá-los de aranhas — e que pareciam uma versão actualizada dos furbys, são a coisa mais fofinha de sempre e extremamente cómicos. Quem me dera  que tivessem um spin-off. Também os diabretes serviram para injectar momentos de comédia na história, mas não foram devidamente explorados. Não querendo revelar spoilers, um deles adorava flores e se não se apaixonarem por ele, questiono seriamente a vossa humanidade.


Apesar de preferir ver longas de animação dobradas em português (algo que não se aplica a mais nenhum género cinematográfico) em criança, há alguns anos que só assisto às versões originais. De qualquer modo, não fiquei muito convencido com a escolha de vozes dos protagonistas. Dos três, penso que a Isabel Silva (Cire) fez o pior trabalho. Não tem nada a ver com a personalidade dela, mas notava-se que era a primeira vez que fazia um trabalho do género. Não cativou e tão pouco foi credível. Em contrapartida o Nuno Eiró foi uma revelação. Pelo que sei só tinha tido uma experiência com dobragens no passado, e para televisão, mas conseguiu transmitir na perfeição todos os defeitos e mudanças de humor do Guardião do Sol. Pedro Górgias não é nenhum novato nestas andanças e de uma maneira geral gostei da sua prestação como Mune. Dito isto, as melhores vozes foram dos actores sem nome. Sim, aqueles que só por não aparecerem nas televisões não têm direito ao mesmo nível de tratamento e reconhecimento que as chamadas "vedetas". Vejam o filme, vão perceber.


Não era suposto escrever um "Movie Lounge" esta semana, mas a minha namorada conseguiu dois convites através do trabalho dela, e ontem à noite tive o privilégio de assistir à antestreia deste filme francês. O "evento" ocorreu pelas 19h30 no Dolce Vita e contou com a presença das três vozes principais da versão portuguesa, além de outras personalidades da televisão nacional, como a Cláudia Vieira, Vanessa Oliveira, Marta Cruz e a Raquel Strada. Com realização de Alexandre Heboyan e Benoît Phillippon, "Mune, o Guardião da Lua" estreia em Portugal a 5 de Novembro.

Classificação IMDb: 7.2/10
Classificação Ghostly Walker: 6/10

Já tinham ouvido falar deste filme? Ficaram curiosos?

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

MOVIE LOUNGE | 'Mommy' (2014)


Ousado e melodramático, Xavier Dolan é responsável por provocar opiniões díspares com o público: amado por uns e desprezado por outros. Embora as suas temáticas deixem um pouco a desejar quando à originalidade, é na exploração das possibilidades técnicas como planos, perspectivas e enquadramentos que o jovem realizador brilha. Como devem ter percebido, pertenço ao primeiro grupo opinativo.

A acção de "Mommy" ocorre num Canadá fictício, onde vigora a recém aprovada Lei S-14, que permite à família abandonar os filhos problemáticos sob a tutela do governo. Diane (Anne Dorval) é uma viúva que tem a seu cargo o filho Steve (Antoine-Olivier Pilon), um rapaz inteligente e de bom coração, mas que devido a um distúrbio de hiperactividade e défice de atenção, tem sérios problemas de auto-controlo. Após uma temporada internado numa instituição mental, Steve tem alta e volta a casa. Assim que vi a apresentação de Diane ou Die, fui automaticamente transportado ao primeiro take de "J'ai Tué Ma Mère" (I Killed My Mother, em inglês) de 2009, e que analisei AQUI.


O formato de exibição da longa-metragem é, durante a maior parte do tempo, pouco usual. Gravado em quadrado vertical (1:1), confesso que no início do filme cheguei a pensar que estaria algo errado com a imagem. Mais uma vez, o desconforto visual é pragmático e tenciona comunicar ao espectador a asfixia sentida por Die, face ao comportamento violento do filho. Ou seja, trata-se de uma metáfora que visa aumentar a sensação de "aperto" vivido pelos personagens nas horas mais dramáticas da trama. Genial.

O jogo de planos abertos e fechados para transmitir os conflitos entre mãe e filho é absolutamente brilhante. Os concursos de gritos entre os dois, apoiados do linguajar altamente chunga, tanto se aproximam da comédia como chegam mesmo a roçar tendências incestuosas.


Quando conhecem Kayla (excepcional interpretação de Suzanne Clément), uma professora tímida a recuperar de um esgotamento nervoso que lhe causou gaguez, e que se mudou recentemente para o bairro, inicia-se oficialmente a construção narrativa. A partir daí, as três personagens e todos os seus dramas emocionais e tensões sexuais, ficam interligados, acabando por desvanecer apenas no final da história. A relação especial deste trio vai, de uma certa forma, equilibrar e até mesmo compensar, as fragilidades de cada um.

Um dos pontos altos de "Mommy" é a banda sonora. Entre a "White Flag" da Dido e a "Born to Die" da Lana Del Rey, passa ainda por Counting Crows, Simple Plan, Oasis, e a poderosa "Vivo Per Lei" de Andrea Bocelli interpretada por Antoine. Destaque para a "On Ne Change Pas" que origina uma cena absolutamente deliciosa em que os três personagens principais cantam e dançam ao som deste clássico da Céline Dion.


Xavier Dolan, considerado por muitos como um dos cineastas contemporâneos de maior talento, voltou a mostrar que nasceu para os melodramas. Com apenas 25 anos, já conta com seis longas-metragens no seu curriculum, um fenómeno no mínimo impressionante. Se "J'ai Tué Ma Mère" é excelente, "Mommy" é algo de transcendente. É certo que voltou a apostar nos seus temas favoritos: mães, filhos, sexualidade e locura, mas resulta. Quer seja pelos diálogos emotivos e irónicos, personagens efusivas, ou pelas experimentações de Dolan na montagem das imagens, o filme carrega um peso enorme do início ao fim. 

No Festival de Cinema de Cannes de 2014, o realizador canadiano não só foi o mais jovem da competição, como também foi uma das grandes sensações. Conquistou o Prémio do Júri e teve a maior ovação do público  aplaudido calorosamente de pé. Não consigo superar o facto de, mais uma vez, a Anne Dorval ter sido ignorada pelos Óscares. Tendo em conta que a Penélope Cruz recebeu uma nomeação em 2010 pela sua participação na desgraça de filme "Nine", e tanto a Dorval como a Suzanne Clément não foram sequer consideradas... não preciso dizer mais nada.

Nota IMDb: 8.1/10
Nota Ghostly Walker: 8/10

Conheciam o filme? Ficaram curiosos?

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