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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Prendas de Natal


Há décadas que o verdadeiro significado do Natal tem vindo a perder terreno para o consumismo. Esta quadra natalícia é uma verdadeira máquina de gerar dinheiro e por incrível que seja, ninguém se parece importar com isso.

As repercussões da fatídica crise de 2007-2009 foram várias e ainda se sentem, pelo menos por aqui. De um momento para o outro a árvore luminosa perdeu a companhia que até então dávamos como garantida, as prendas. Por muito que seja sempre agradável receber um presente, foi uma chamada à realidade. Há coisas mais importantes na vida.

Felizmente fui bem educado e nunca exigi o que quer que fosse dos meus pais, mas não significa que estivesse 100% consciente da situação financeira familiar. Se pensarmos que existem milhares de sem-abrigos, só em Portugal, e que nem um tecto ou comida garantida têm, seria uma verdadeira afronta ficar chateado por não receber um presente no dia 25 de Dezembro.

Dito isto, há algum tempo que me sentia mal por receber prendas de alguns familiares e não lhes dar nada em troca. Claro que ninguém leva a mal, mas não deixa de ser embaraçoso. Quer dizer, por quanto mais tempo serve a desculpa de "Ah são miúdos"? Até aos 30? Don't think so. 

Por esse motivo, pela primeira vez, não é apenas a minha namorada que vai receber um agrado. Continuo sem ter o ordenado que gostaria para lhes poder dar algo mais consistente e compensar os anos que me mimaram sem retorno,  mas sempre ouvi dizer que o que conta é a intenção. Não sei, mas apesar de trivial, é uma sensação estranhamente gratificante imaginar a cara deles enquanto desembrulham tudo. Oh my, estou a ficar oficialmente velho? I can't even.


Oferecem prendas de Natal à família?
Começaram com que idade?

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Já chega, não? | Hipocrisia Natalícia


Considerada a quadra festiva mais familiar do ano, é em Dezembro que todas as pessoas se lembram de ajudar quem precisa, e que os sem-abrigo não são um mito urbano. Nas últimas décadas o "Natal" tornou-se num espectáculo de aparências e consumismo, onde nem as instituições de caridade estão imunes à doença do século: a Hipocrisia Natalícia.

Este fenómeno social é facilmente verificado através das publicidades nas televisões portuguesas. Intercalados como dois lados da mesma moeda, ora temos os vinte mil anúncios de brinquedos e aparelhos tecnológicos, ora somos bombardeados com as mesmas imagens deprimentes de sem-abrigo, a preto e branco, trabalhadas com uma música triste, e frases como "preciso de ajuda", "não tenho casa". Pormenor interessante, o horário escolhido é quase sempre o do jantar  altura em que mais portugueses vêem televisão. Do ponto de vista de marketing, está genial. Durante o intervalo do telejornal, a pessoa vê uma selecção de possíveis prendas a oferecer e assim que se prepara para dar mais uma garfada na sua deliciosa refeição a forno, vê um homem jogado numas escadas a pedir comida. Se isto não é um jogo psicológico, não sei o que será.

Vítimas de uma espécie de lavagem cerebral, as pessoas acabam por se perder ingenuamente no "espírito natalício", numa tentativa desesperada de acumular boas acções. Há que apoiar estas causas, sem dúvida que sim, mas com discernimento. Existem muitos seres, e até mesmo organizações, mal intencionadas que se aproveitam do facto do povo lusitano ser extremamente generoso e muitas vezes dar o que não tem, para extorquir algum dinheiro aos menos atentos. Em vez de ligarem/enviarem mensagens para aqueles números de telefone que os programas de televisão promovem ou de comprarem artigos em que apenas uns meros cêntimos serão doados, seria mais proveitoso efectuarem uma transferência bancária directamente para a instituição que pretendem apoiar. Pessoalmente não confio o suficiente nestas empresas para lhes dar dinheiro, mas sempre contribuí com roupas (em bom estado) e brinquedos.

Se no Natal os portugueses parecem esquecer a crise  seja para gastar balúrdios em prendas ou ajudar , durante o resto do ano, encontram nesta mesma realidade a desculpa perfeita para justificar a sua falta de interesse pelos mais necessitados. Sim, por onde andam estas campanhas de solidariedade durante os outros 11 meses do ano? Os sem-abrigo só precisam de ajuda em Dezembro? E as instituições, não necessitam de apoios sempre, ou é só na noite de Consoada? Não me venham dizer que estão a contar com o subsídio de Natal, por favor. De qualquer maneira, existem outras formas de apoio além do financeiro. Quer-me parecer que tempo e dedicação (na prática) não custam dinheiro, e muitas vezes têm um impacto mais importante na vida destas pessoas que um valor monetário.

A hipocrisia não se fica só pelas acções sociais, também se estende ao núcleo de relações pessoais e virtuais. As pessoas passam mais tempo desesperadas às compras de mil e quinhentos presentes, em vez de apreciarem a época pelo que ela é, uma celebração da família. São muitas as Madres Teresas que se unem para expressar o seu desdém pelas prendas, "As prendas não interessam, adoro o Natal por causa da família." ...Faz dez publicações detalhadas de tudo o que comprou/recebeu, mas atenção, o importante é o precioso tempo passado com os seus ente-queridos!

Em tempos tive uma colega de turma que no primeiro dia de regresso às aulas depois das férias de Natal, a primeira que me perguntou foi quantas prendas tinha recebido. Sabendo perfeitamente que não costumam ser muitas (diga-se umas 3 ou 4, estando chocolates e meias incluídos), ainda queria que lhe dissesse o que tinha sido. Não lhe interessou saber se passei bem as férias, não, o importante era ela sentir-se superior ao ler o pergaminho de presentes que lhe ofereceram. Por momentos pensei que estivesse na quinta pedagógica, o cheiro a cabra andava no ar.

Não me interpretem mal, o Natal continua a ser a minha época favorita do ano, mas é impossível ignorar o que se passa à minha, quer dizer, à nossa volta. Claro que gosto de receber prendas, quem disser o contrário provavelmente está a mentir. No entanto, tenho a plena consciência da crise económica que ainda estamos a enfrentar, e embora nunca me tenha faltado nada, sei perfeitamente que o tempo não está para gastos supérfluos. Que tipo de pessoa seria eu ao ver os meus pais matarem-se a trabalhar para pagar as contas todas e depois amuar por não me darem presentes de Natal? Infelizmente existem pessoas assim. Enquanto tiver comida, bolinhos festivos e a minha família, só me posso dar por satisfeito.


São solidários apenas no Natal? Conhecem pessoas que só se interessam pelas prendas?

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