Por muito que nos custe admitir, está na natureza do ser humano julgar os outros. Não, não consigo acreditar em alguém que me diga que nunca o fez pelo menos uma vez na vida. Até pode não ser com maldade, mas quem é que nunca deu por si a fazer um scan mental a determinado indivíduo? Admito que sofro bastante deste problema. Em contrapartida, raramente me engano.
Consciente de que isto de fazer juízos de valor antecipadamente não é lá muito bonito, há alturas em que tento fazer um exercício interno para contrariar esta componente inata do meu cérebro. Tudo estava a correr bem até à semana passada, altura em que fui recordado que, às vezes, aquilo que parece é e não nos devemos crucificar por isso.
Na manhã de 17 estava a fazer o meu caminho habitual do metro até ao trabalho quando sou abordado por uma senhora que me pergunta se lhe podia tirar uma fotografia e ao marido que, segundo ela, estava "ali" no parque. Apesar de já o ter feito no passado a estrangeiros, por norma sou o tipo que utiliza a máxima "desculpe, estou com pressa". Numa fracção de segundos contrariei os meus instintos e pensei, "vá lá, Ricardo, não sejas um asshole".
Ao caminhar com a mulher os meus alertas psíquicos começaram todos a disparar. Não querendo ferir susceptibilidades de cépticos mas percebi logo o que estava acontecer quando me vem a frase à mente "estás a levar-me para a morte e eu a ver". Sim, dramático até mais não, mas podia ter acontecido!
Ao ver que o dito "parque" estava vazio, paro abruptamente e pergunto-lhe "então onde é que está o marido?" ao qual ela responde "ah... eh... ele já vem aí". Se antes era uma suspeita agora tinha a certeza, tinha que sair dali rapidamente. O meu "Bem, estou atrasado para o trabalho, tenho que me ir embora" foi recebido com um agarrar de braço por parte da mulher que ao ver o meu "puxão" de resposta diz "não tenha medo que não lhe faço mal". Cinco segundos depois parece que lhe deu qualquer coisa e era outra pessoa. A voz e olhar mudam para algo quase assustador e diz-me de dentes cerrados, "é só para saber que o meu marido está ali atrás do arbusto com uma pistola (...)". Nem a deixei acabar. Alto e bom som interrompia com "Pois, logo vi. Já sabia." Isto tudo enquanto viro costas (sempre com o canto do olho a ver se alguém vinha atrás de mim), e ela continuava, agora a gritar, "é melhor não sair daqui!!!" e eu, sem olhar para trás, aceno-lhe um adeus acompanhado de um "'tá beeeem!". Cheguei ao trabalho e a adrenalina foi substituída por tremores nas pernas, tal foi o susto, mas felizmente estava são e salvo.
Tenho noção que o relato, especialmente a minha "despedida" pareçam hilariantes, mas garanto-vos que rir era tudo aquilo que não me apetecia fazer naquele momento. Agora que penso nisso, nem me reconheci com aquele à vontade todo e firmeza com que lidei com a situação, mas fico feliz por saber que that guy's in here, somewhere.
Os red flags estavam todos lá desde o início e eu preferi ignorá-los para "não julgar ninguém". Quando alguém nos pede para os fotografar, é ali, naquele instante. Não precisamos ir ter com este ou aquele em outro sítio. A forma como ela olhava para todo o lado como se estivesse com medo, não era cuidado com os carros que passavam na estrada, mas sim paranóia. A forma como ela estava vestida não era de alguém que tinha "vindo da Alemanha de férias e que tinha casado". Estava tão distraído a ouvir música e surpreso pela interacção que tudo isso me escapou.
Nunca vou saber se o intuito era assaltarem-me, raptarem-me ou algo pior, mas prefiro morrer na ignorância. O certo é que se existiam algumas dúvidas sobre o meu sexto sentido apurado, foram aniquiladas com a certeza de que o devo seguir sem hesitar.
Na manhã de 17 estava a fazer o meu caminho habitual do metro até ao trabalho quando sou abordado por uma senhora que me pergunta se lhe podia tirar uma fotografia e ao marido que, segundo ela, estava "ali" no parque. Apesar de já o ter feito no passado a estrangeiros, por norma sou o tipo que utiliza a máxima "desculpe, estou com pressa". Numa fracção de segundos contrariei os meus instintos e pensei, "vá lá, Ricardo, não sejas um asshole".
Ao caminhar com a mulher os meus alertas psíquicos começaram todos a disparar. Não querendo ferir susceptibilidades de cépticos mas percebi logo o que estava acontecer quando me vem a frase à mente "estás a levar-me para a morte e eu a ver". Sim, dramático até mais não, mas podia ter acontecido!
Ao ver que o dito "parque" estava vazio, paro abruptamente e pergunto-lhe "então onde é que está o marido?" ao qual ela responde "ah... eh... ele já vem aí". Se antes era uma suspeita agora tinha a certeza, tinha que sair dali rapidamente. O meu "Bem, estou atrasado para o trabalho, tenho que me ir embora" foi recebido com um agarrar de braço por parte da mulher que ao ver o meu "puxão" de resposta diz "não tenha medo que não lhe faço mal". Cinco segundos depois parece que lhe deu qualquer coisa e era outra pessoa. A voz e olhar mudam para algo quase assustador e diz-me de dentes cerrados, "é só para saber que o meu marido está ali atrás do arbusto com uma pistola (...)". Nem a deixei acabar. Alto e bom som interrompia com "Pois, logo vi. Já sabia." Isto tudo enquanto viro costas (sempre com o canto do olho a ver se alguém vinha atrás de mim), e ela continuava, agora a gritar, "é melhor não sair daqui!!!" e eu, sem olhar para trás, aceno-lhe um adeus acompanhado de um "'tá beeeem!". Cheguei ao trabalho e a adrenalina foi substituída por tremores nas pernas, tal foi o susto, mas felizmente estava são e salvo.
Tenho noção que o relato, especialmente a minha "despedida" pareçam hilariantes, mas garanto-vos que rir era tudo aquilo que não me apetecia fazer naquele momento. Agora que penso nisso, nem me reconheci com aquele à vontade todo e firmeza com que lidei com a situação, mas fico feliz por saber que that guy's in here, somewhere.
Os red flags estavam todos lá desde o início e eu preferi ignorá-los para "não julgar ninguém". Quando alguém nos pede para os fotografar, é ali, naquele instante. Não precisamos ir ter com este ou aquele em outro sítio. A forma como ela olhava para todo o lado como se estivesse com medo, não era cuidado com os carros que passavam na estrada, mas sim paranóia. A forma como ela estava vestida não era de alguém que tinha "vindo da Alemanha de férias e que tinha casado". Estava tão distraído a ouvir música e surpreso pela interacção que tudo isso me escapou.
Nunca vou saber se o intuito era assaltarem-me, raptarem-me ou algo pior, mas prefiro morrer na ignorância. O certo é que se existiam algumas dúvidas sobre o meu sexto sentido apurado, foram aniquiladas com a certeza de que o devo seguir sem hesitar.


















