Pages

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O dia em que quase fui assaltado


Por muito que nos custe admitir, está na natureza do ser humano julgar os outros. Não, não consigo acreditar em alguém que me diga que nunca o fez pelo menos uma vez na vida. Até pode não ser com maldade, mas quem é que nunca deu por si a fazer um scan mental a determinado indivíduo? Admito que sofro bastante deste problema. Em contrapartida, raramente me engano.

Consciente de que isto de fazer juízos de valor antecipadamente não é lá muito bonito, há alturas em que tento fazer um exercício interno para contrariar esta componente inata do meu cérebro. Tudo estava a correr bem até à semana passada, altura em que fui recordado que, às vezes, aquilo que parece é e não nos devemos crucificar por isso.

Na manhã de 17 estava a fazer o meu caminho habitual do metro até ao trabalho quando sou abordado por uma senhora que me pergunta se lhe podia tirar uma fotografia e ao marido que, segundo ela, estava "ali" no parque. Apesar de já o ter feito no passado a estrangeiros, por norma sou o tipo que utiliza a máxima "desculpe, estou com pressa". Numa fracção de segundos contrariei os meus instintos e pensei, "vá lá, Ricardo, não sejas um asshole".

Ao caminhar com a mulher os meus alertas psíquicos começaram todos a disparar. Não querendo ferir susceptibilidades de cépticos mas percebi logo o que estava acontecer quando me vem a frase à mente "estás a levar-me para a morte e eu a ver". Sim, dramático até mais não, mas podia ter acontecido!

Ao ver que o dito "parque" estava vazio, paro abruptamente e pergunto-lhe "então onde é que está o marido?" ao qual ela responde "ah... eh... ele já vem aí". Se antes era uma suspeita agora tinha a certeza, tinha que sair dali rapidamente. O meu "Bem, estou atrasado para o trabalho, tenho que me ir embora" foi recebido com um agarrar de braço por parte da mulher que ao ver o meu "puxão" de resposta diz "não tenha medo que não lhe faço mal". Cinco segundos depois parece que lhe deu qualquer coisa e era outra pessoa. A voz e olhar mudam para algo quase assustador e diz-me de dentes cerrados, "é só para saber que o meu marido está ali atrás do arbusto com uma pistola (...)". Nem a deixei acabar. Alto e bom som interrompia com "Pois, logo vi. Já sabia." Isto tudo enquanto viro costas (sempre com o canto do olho a ver se alguém vinha atrás de mim), e ela continuava, agora a gritar, "é melhor não sair daqui!!!" e eu, sem olhar para trás, aceno-lhe um adeus acompanhado de um "'tá beeeem!". Cheguei ao trabalho e a adrenalina foi substituída por tremores nas pernas, tal foi o susto, mas felizmente estava são e salvo.

Tenho noção que o relato, especialmente a minha "despedida" pareçam hilariantes, mas garanto-vos que rir era tudo aquilo que não me apetecia fazer naquele momento. Agora que penso nisso, nem me reconheci com aquele à vontade todo e firmeza com que lidei com a situação, mas fico feliz por saber que that guy's in here, somewhere.

Os red flags estavam todos lá desde o início e eu preferi ignorá-los para "não julgar ninguém". Quando alguém nos pede para os fotografar, é ali, naquele instante. Não precisamos ir ter com este ou aquele em outro sítio. A forma como ela olhava para todo o lado como se estivesse com medo, não era cuidado com os carros que passavam na estrada, mas sim paranóia. A forma como ela estava vestida não era de alguém que tinha "vindo da Alemanha de férias e que tinha casado". Estava tão distraído a ouvir música e surpreso pela interacção que tudo isso me escapou.

Nunca vou saber se o intuito era assaltarem-me, raptarem-me ou algo pior, mas prefiro morrer na ignorância. O certo é que se existiam algumas dúvidas sobre o meu sexto sentido apurado, foram aniquiladas com a certeza de que o devo seguir sem hesitar.

8 comentários:

  1. Pelo menos reagiste rápido e conseguiste sair dali!

    Sou um bocadinho como tu, tenho consciência que qualquer juizo de valor rápido que faça pode estar errado e que geralmente esse mecanismo só serve para acentuar preconceitos, mas a verdade é que é o nosso mecanismo de sobrevivência e tem funcionado durante milhares de anos, por isso geralmente também sou a pessoa que se arrisca a fazer má figura mas que confia quase sempre na intuição.

    ResponderEliminar
  2. Meu Deus! Isso é horrível! Podia ter acabado da pior forma mas felizmente conseguiste fugir! Estas pessoas estão cada vez piores! Parece uma cena saída de um filme mas o que me deixa mais triste é que cada vez acontece mais! É o mundo onde vivemos!

    Beijinhos
    That Girl | FACEBOOK PAGE | INSTAGRAM | TWITTER

    ResponderEliminar
  3. É verdade, às vezes os nossos instintos estão certos, infelizmente.

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  4. Tal como tu, sei que não se deve julgar as pessoas mas admito que também o faço. Se bem que, por vezes, são as pessoas que menos suspeitas nos suscitam que são as mais perigosas. Mas mais vale confiar no instinto e não correr riscos desnecessários!

    Sara
    http://keep-choosing-joy.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  5. Ainda bem que acabou tudo pelo melhor Ricardo! É incrível como vamos buscar reflexos neste tipo de situação ficamos parvos com o nosso comportamento.
    Eu cá acho que eles iriam assaltar te, tirar tudo o que tinhas. Mas convenhamos que tipo de ladrão anda com medo e que planeia um esquema tão absurdo? Nem uma criança de três anos caia nisto =P

    ResponderEliminar
  6. Só de ler, estou aqui com tremores, a imaginar se tivesse sido comigo!!! Oh, Ricardo, ainda bem que foste rápido a captar os sinais e a reagir! Tal como tu, prefiro morrer sem saber o que é que te poderia ter acontecido. O pior é que nem toda a gente tem a coragem e a força que tu tiveste, de sair dali e de mandar a mulherzinha passear!
    Olha, felizmente, estás bem! ^^
    Beijinhos,

    LYNE

    ResponderEliminar
  7. Que horror! Eu nunca ignoro os meus sinais de alarme porque, feliz ou infelizmente, estão sempre certos.
    Escapaste de boa!
    xx, Ana

    The Insomniac Owl Blog

    ResponderEliminar

Obrigado pela leitura e comentário!
Eventuais questões serão respondidas aqui, na respectiva publicação.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...