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segunda-feira, 24 de abril de 2017

GIRLS, Uma série com tomates


Há uma semana que tento digerir o final de GIRLS mas sem sucesso. Seria de esperar que ao acompanhar tantas séries já me tivesse habituado às despedidas, mas não. Durante seis anos a Lena Dunham, por muito controversa que possa ser, foi mais do que uma porta-voz para os jovens da minha faixa etária. Despida de preconceitos, expôs cada curva do seu corpo com a mesma sinceridade com que quebrava o olhar estereotipado sobre o mundo feminino na televisão norte-americana. Hannah pode não ser a protagonista mais fácil de aturar, mas foi sem dúvida uma companheira.


Quando a Dunham quis criar, escrever, produzir e protagonizar a série da HBO que, segundo a própria, seria uma "espécie de Sexo e a Cidade mais próximo da realidade", fiquei com a pulga atrás da orelha. O desafio era simples, mostrar de igual forma as batalhas que todas as mulheres enfrentam no dia-a-dia, independentemente dos padrões de beleza popularizados pelos media. Se existiam dúvidas quanto ao produto final, foram esquecidas com a estreia que reuniu a opinião favorável da crítica e do público, elogiando o retrato arrojado e sincero das jovens mulheres, as suas imperfeições e vulnerabilidades.

A comparação óbvia com uma série tão icónica como o Sex & The City é inevitável, visto que também mostra quatro amigas a viver em Nova Iorque, mas as semelhanças ficam-se por aí. GIRLS dá voz a uma geração diferente, focando-se em relações pouco saudáveis, empregos e preocupações distintas daquelas vividas por Carrie Bradshaw e companhia. Tudo isto, através de um toque de dramedy em doses perfeitas, capazes de nos levar das lágrimas às gargalhadas. 


Tal como muitos de nós, a série mostra um rol de millennials privilegiados, recém-formados e criados pela tecnologia que, embora aparentem estar preparados para tudo, não fazem ideia do que implica entrar na vida adulta. Se não se identificaram com esta última parte, parabéns. Gostava de ser como vocês. Ao fim ao cabo, o objectivo de Hannah (Lena Dunham), Marnie (Alison Williams), Jessa (Jemima Kirke) e Shoshanna (Zosia Mamet), ao longo de seis temporadas, é precisamente tentar encontrar um rumo para as suas carreiras e relações enquanto se descobrem a si próprias.


Face à conjuntura social mundial que estamos a enfrentar neste momento, vão surgindo cada vez mais séries com cabeça, tronco e membros. Por muito que o mundo da fantasia seja um escape ideal para os problemas da vida real, são séries como esta que nos fazem pensar, e de que maneira. Nos últimos anos, nenhuma foi capaz de abrir caminho à discussão fervorosa, incómoda e controversa, quer seja pelo tratamento de questões como a imagem, a auto-estima, o body shaming, o feminismo e a sexualidade. Por falar em sexo, este foi retratado de uma forma muito... interessante. Longe de ser politicamente correcto ou visualmente apelativo, na maioria das vezes mostrou ser embaraçoso, desconfortável e até difícil de ver. De facto, esta é uma das minhas componentes favoritas da série. O contraste dos corpos magros e musculados que Hollywood nos impinge com as barrigas com pneus, pernas com celulite e os efeitos hormonais da menstruação, elevam esta produção a um nível de realismo ímpar. 


CUIDADO, POSSÍVEIS SPOILERS ABAIXO
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A atribulada viagem de auto-descoberta do quarteto de protagonistas culmina num dos melhores episódios da série, Goodbye Tour, o penúltimo. Naquele que foi apontado pela maioria do público como o verdadeiro final da season, vemos imagens da Hannah a deixar Nova Iorque e a tomar as rédeas da sua vida enquanto futura mãe solteira que se prepara para ser professora universitária, intercaladas com a festa de noivado-relâmpago de Shoshanna. Acompanhada da assombrosa canção "Crowded Places", da BANKS, escrita de propósito para o episódio em questão, e que me deixou lavado em lágrimas pela letra e cena em geral, Hannah, Marnie, Jessa e Shoshanna dançam os problemas e diferenças fora antes de tudo mudar para sempre.


Latching, o capítulo final ever de GIRLS, surpreendeu por avançar cinco meses na acção e se focar na vida de Hannah enquanto recém-mamã, apoiada de Marnie, que acabou por preencher o papel de pai. Só de pensar que estas duas personagens terminaram como começaram, juntas, dá-me um aperto no peito. O facto de incluírem a Loreen, mãe de Hannah, deixou-me muito feliz, nem que seja por proporcionar um dos melhores diálogos da série. Por fim, alguém dá o reality-check que a jovem precisava sobre a sua constante self-pitty party (eu pensava que era mau mas ela... damn). "You know who else is in emotional pain?", pergunta Loreen. "Fucking everyone.". Nem vos consigo descrever o arrepio que senti durante esta cena. 


Muitos criticaram o facto de se tratar de um episódio "externo", em "aberto" e sem vínculos com o restante elenco, mas isso só demonstra que não compreenderam a verdadeira essência dos acontecimentos. Tal como a série em si, o último episódio foi chocante, solitário, cru e esperançoso. A meu ver, foi dos finais mais poderosos a que alguma vez assisti de uma produção televisiva. Por muitos defeitos que aquelas quatro raparigas tenham, seja a falta de independência de Hannah, os problemas de OCD da Shoshanna, a falta de amor próprio mascarado de desapego emocional de Jessa ou a falta de noção de Marnie, sinto que perdi quatro melhores amigas. Sim, conseguiam ser demasiado irritantes, mas só demonstra o quão real era o retrato de cada uma delas. Digam o que disserem, GIRLS tornou-se numa série de culto sobre a incerteza da entrada na idade adulta e estarão para sempre comigo.


Conhecem/viam GIRLS? Qual é a vossa personagem ou momento favoritos? Gostaram do final?

7 comentários:

  1. Concordo parcialmente com aquilo que tu disseste. Acho que a série retrata, tal como disseste, a 100% a realidade dos dias de hoje de 4 raparigas absolutamente normais (como qualquer um de nós) a tentarem sobreviver. A Lena tratou de forma genial a realidade, despida de preconceitos e sem qualquer tabu, que possivelmente foi aquilo que me prendeu a continuar a ver a série.

    Como já te disse, eu não consigo suportar a maior parte das personagens. A ingratidão e o egocentrismo são um defeito que tanto a Hannah, como a Marnie ou a Shoshanna têm e isso IRRITA-ME profundamente porque prefiro acreditar que não existem pessoas assim tão self-centered. A Jessa, por outro lado, mostrou-se a personagem mais ponderada com o desenrolar da trama e tornou-se a minha personagem favorita no final de contas.

    Quanto ao final da série, não achei que fosse excelente. Achei estranho porque acabou como qualquer outro episódio: em aberto. Achei que, se quisessem, conseguiriam pegar no episódio e continuar a série facilmente e isso incomoda-me ligeiramente. Ainda assim, achei incrível a Hannah finalmente crescer e assumir a responsabilidade que escolheu ter e a Marnie perceber que tem que dar um rumo diferente à sua vida. Concordo contigo quanto ao diálogo, aquela mãe é de outro mundo e finalmente mostrou à filha que o mundo não gira à volta do umbigo dela!

    Desculpa pelo alongamento, mas gosto de discutir estas coisas eheh!

    Marli, do My Own Anatomy ♥

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    1. Por norma também não gosto de finais abertos mas neste caso fez sentido. Além disso a Lena já disse que estava disposta a fazer um filme sobre a série daqui a uns aninhos. Esperemos que sim!

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  2. Adorei, tanto o penúltimo como o último episódio. Ver a Hannah aceitar-se enquanto mãe foi o colmatar do final de Girls, literalmente. Da passagem para rapariga para mulher. Mas o penúltimo episódio fez-me chorar baba e ranho e apertar o coração - e o Crowded places ficou a tocar em replay no meu spotify. Foi uma série absolutamente genial, mesmo. Entrou directamente para o meu top 3 com esta última season!




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  3. Você acredita que eu nunca assisti essa série?
    E eu vejo tantos elogios kkkk preciso me aventurar mais!

    Beijinhosss ;*
    Blog Resenhas da Pâm

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  4. Não sei porque, mas esta série sempre passou-me ao lado e fui adiado, já indicaram-me inúmeras vezes, mas não tive oportunidade de vê-la. A tua review irá ser o pontapé inicial para assisti-la, bastou-me ler "(...) quebrava o olhar estereotipado sobre o mundo feminino na televisão norte-americana" para sentir aquele click mental. É um assunto que abordei muitas vezes no curso em algumas cadeiras, bem como em trabalhos teóricos e pouco debatido socialmente da forma ideal (na minha opinião). Parabéns pela review, mais um excelente texto :)

    Bitaites de um Madeirense

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    Respostas
    1. Muito obrigado Paulo! Espero que gostes da série :)

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  5. nunca assisti a esta serie, embora o interesse foi esmorecendo por o meu odiozinho a lena - q é uma pessoa nojenta mas isso sao outros quinhentos ahaha - mas tenho mesmo que dar uma oportunidade a serie.

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