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segunda-feira, 6 de março de 2017

1 Acidente, 1 Noite em claro


Na passada quarta-feira à noite o meu pai teve um acidente de carro. Passava pouco mais das 21 horas quando, a caminho de casa, um homem ultrapassa bruscamente o meu pai, que ao não conseguir travar a tempo, lhe bate de lado, rodopia umas quantas vezes, vai parar à faixa contrária e choca de frente com um terceiro veículo. Felizmente saíram todos ilesos, excepto o senhor do sentido oposto que partiu o pé. O mesmo não pode ser dito dos carros. Isto é, excepto do sacana que causou tudo. Não só ficou sem qualquer ferimento como se manteve dentro do carro depois do caos, sem pedir socorro sequer. Sim, leram bem. Agora já sabem o porquê de me ter ausentado temporariamente da blogosfera. Embora o pior não tenha acontecido, não deixa de ter sido uma experiência traumática. O perigo não são as estradas mas quem as atravessa.

O meu pai foi levado para o Hospital do Barreiro (era o mais perto do local do acidente) e deixem-me que vos diga, a fama que o estabelecimento tem é merecida. Cheguei com a minha mãe às urgências por volta das 22:15 e só saímos de lá às 5:35. Durante aquele tempo todo não veio ninguém ter connosco para nos dizer o que quer que fosse. Alguém para nos informar do seu estado físico tá quieto, mas um cão de guarda a impedir a passagem já eles tinham. Resumindo, a minha mãe lá conseguiu entrar e foi à procura dele. Apesar de estar todo negro na zona do peito, pescoço e braço, parecia estar OK, dentro do possível. Estava a aguardar uns exames para saber o veredicto final e ainda não tinha jantado. O certo é que o tempo foi passando, e eu cada vez mais convencido que ele iria ficar a pernoitar em observação e nós feitos parvos a olhar para o boneco. Dito e feito. 

Após umas longas e desconfortáveis 7h, num espaço pequeno, extremamente frio e nada higiénico (nem vos vou descrever as casas-de-banho se não vomito), saltou-me a tampa e forcei a minha mãe a ir procurar respostas. A anta que estava na recepção lá fez o esforço de abrir o "excel" no computador e diz-lhe que à 1 da manhã o médico decidiu que era melhor ele passar ali a noite. Nem podia acreditar. Fiquei possesso. Tinha que acordar às 7 da manhã para ir para o trabalho e aqueles seres não nos dizem nada até às 5?! Todos os dias deparo-me com cenários semelhantes ou piores nas notícias mas vivê-los é outra coisa. O grau de incompetência é impressionante. Se fossemos pessoas barraqueiras e tivéssemos armado um escândalo, de certeza que o resultado tinha sido outro. 

Cansados e furiosos lá fomos para casa. Para tentar aproveitar o tempo que me restava ao máximo, troquei de roupa e dormi vestido. Deprimente. Uma hora depois acordo e confusão é pouco para descrever o que sentia. Mais valia nem ter posto a cabeça na almofada. Já no trabalho, estava a ser meio-dia e meio quando a minha mãe me avisa que tinham finalmente chegado a casa. Aparentemente ele podia ter tido alta logo às 9h mas o sistema estava em baixo. Omg. No meio disto tudo sabem a melhor? Não lhe deram nada para comer. Na noite anterior ele vinha a caminho de casa, antes de jantar, e só foi alimentado na própria casa, 17 horas depois. É que nem há palavras. Durante a noite depositam os doentes das urgências todos juntos, independentemente de terem algo contagioso ou não, em macas no corredor, não os alimentam e nada dizem às famílias. Mas que porcaria de sistema é este? A sério, isto ultrapassa-me.

Ao menos esta experiência serviu para perceber o quão privilegiado sou por poder frequentar estabelecimentos hospitalares privados como a CUF. Nunca tinha estado numa situação destas e a diferença de ambiente, atendimento e condições é gritante. Claro que existem hospitais públicos decentes, mas com toda a certeza o do Barreiro não é um deles. Compreendo que, possivelmente, os funcionários trabalham demasiadas horas para o salário que recebem (posso estar enganado), mas depois quem sofre são os doentes. Não querendo soar como a classe mais velhota mas, é o país que temos.

9 comentários:

  1. É lamentável. Também me sinto privilegiada por poder frequentar serviços como a CUF mas os serviços de saúde públicos são cada vez mais trágicos. No meio disto tudo, algo de bom a concluir: o teu pai está bem e só lhe valeu para o susto. Só isso já é motivo para sorrir :)

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  2. Felizmente, nunca passei por uma situação dessas e felizmente também tenho condições para recorrer ao setor privado, mas são circunstâncias e condições que muita gente tem de passar, infelizmente! As rápidas melhoras para o teu pai!

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  3. Tendo seguro de saúde tbm recorro à CUF, tanto em rapidez de atendimento como de qualidade das instalações a simpatia do pessoal é espectacular. Enquanto no hospital de Santarém (o mais perto que tenho) bem podia morrer à espera.

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  4. E o pior é que não se passa apenas nesse hospital. Recentemente tive um avô hospitalizado que também foi parar às urgências. Foi desesperante. Horas sem saber nada, a insistir repetidamente. Sem saber se ele ficava ou não, se estava bem ou não (se estava em perigo de vida). E apanhei troca de turnos de médicos, o que é a cereja no topo do bolo. É horrível e ninguém merece este tipo de serviço "público". Mas, por mais que me revolte, não consigo culpar os funcionários. No dia em que os hospitais tiverem todas as condições do mundo, pessoas suficientes (as urgências, em particular, têm muuuita falta de médicos e enfermeiros) e essas pessoas andarem a receber adequadamente (somos dos países que mais mal paga aos seus enfermeiros) e ainda assim o serviço for mau, então aponto-lhes o dedo. Como a situação não se aproxima sequer disto, então não posso. Não posso porque há, de facto, falta de recursos (humanos e materiais). E a falta de comunicação da parte deles também se deve a isso - demasiados doentes para pouca gente. Culpo quem nos tira os impostos e não os vai colocar onde deviam - nos serviços públicos. É a esses que, para já, aponto o dedo. Mas percebo a revolta, porque as urgências são completamente angustiantes.

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  5. Eu não sei o que é pior: se quem causou o acidente, se as pessoas do hospital, a sério... Felizmente, nada grave aconteceu, tirando a parte de deixarem o teu pai sem comer, de resto fico feliz por ter saído ileso... As melhoras para ele e para vocês que também sofreram com isso!

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  6. Infelizmente é o país que temos. Ainda bem que não aconteceu nada ao teu pai.

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  7. Espero que esteja tudo bem com ele... E, sim, é uma miséria o nosso sistema de hospitais. É mesmo triste, triste. Tomara poder ir para o privado também! =|

    Um beijinho dourado,
    O Biquíni Dourado
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  8. Deve ter sido uma situação desesperante, mas ainda bem que, pelo menos, o teu pai saiu disso tudo fisicamente bem! Com fome, imagino, mas bem. Quanto ao país que temos, acredita que há bem pior (e não estou a falar de países de terceiro mundo... aqui em França, por causa da falta de médicos, há muuuuita gente que não consegue ser atendido, a não ser nas urgências do hospital - que são uma desgraça. Além disso, os médicos estão sobrecarregados e recusam pacientes, mesmo que seja urgente e conseguir ter um médico de família é um luxo e uma sorte).

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  9. Quando parti o pulso aconteceu-me o mesmo. Estive imensas horas no hospital sem assistência, o médico que me disse para aguardar e que ia ver o que me tinha acontecido tinha-se ido embora, tive imensas horas sem comer.. Tudo isto nas várias vezes que meti os pés no Hospital de Barcelos - considerado dos melhores do país. Quando fui de Erasmus para a Praga tive de me deslocar até a um dos hospitais de lá e posso dizer com toda a certeza que, em relação ao sns português, o checo dá-lhe 100 a 0. Fico feliz pelo teu pai estar bem, dentro dos possíveis, claro. As melhoras para ele!

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