Pages

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

TGW Awards: Top 20 Movies of 2O16


Pensavam que me tinha esquecido? Prometido é devido e, três semanas depois, habemus "TOP 20 MOVIES OF 2016"! Recapitulando, contrariamente ao que aconteceu em 2015, desta vez a internet não foi minha amiga e não disponibilizou algumas produções cinematográficas-chave que precisava MESMO de ver. Por esse motivo, preferi adiar a lista com os melhores filmes do ano em prol de uma análise fidedigna. Posso-vos dizer que este ano as escolhas não se restringem ao território norte-americano. Estão representados a França, Espanha, Alemanha e Coreia do Sul. We're going global, baby

Comparativamente ao ano anterior, 2016 foi no mínimo... complexo, no que toca às longas-metragens. Passei quase 10 meses a referir que a oferta estava fraquíssima e heis que BAM! Mal se sente o aroma da award season no ar começam a aparecer filmes, altamente impressionantes, como se fossem cogumelos. Enfim. Por esse motivo, seleccionar os integrantes do top foi uma verdadeira tarefa morosa. Sim, porque se na edição anterior os eleitos eram óbvios, nesta eram muitos os candidatos que poderia referir. Por esse mesmo motivo, resolvi destacar outros 10 que estiveram quase lá.

Estamos a menos de um mês para os Óscares e sinto-me mais preparado do que nunca para defender os meus favoritos com unhas e dentes, especialmente no departamento das interpretações. Não se preocupem, deixarei as minhas previsões/opiniões para uma publicação exclusivamente dedicada ao tema, mas posso adiantar que a luta pelo troféu de "Melhor Actriz Feminina" me está a dar cabo do juízo.

Relembro que o TOP 20 que se segue baseia-se na lista de 102 filmes a que assisti lançados oficialmente em 2016. Ou seja, casos como "Lobster" que estreou nos Estados Unidos em 2015 e em Portugal só no ano seguinte, não contam para a estatística. Além dos 30 escolhidos, seleccionei outros seis nas "MENÇÕES HONROSAS" que são igualmente fantásticos mas por questões de ordem técnica (embora não seja um crítico profissional, gosto de pensar que sei ver o que vai para além do enredo), ficaram de fora. Quer isto dizer que por muito que eu tenha adorado o "Nerve", tenho que ser imparcial.


MENÇÕES HONROSAS: DOCTOR STRANGE | MIDNIGHT SPECIAL | SULLY | THE INVITATION | THE NEON DEMON | NERVE

#30. Always Shine
#29. Hell or High Water 
#28. Love & Friendship
#27. Florence Foster Jerkins
#26. 10 Cloverfield Lane
#25. Nocturnal Animals
#24. The Light Between the Oceans
#23. Christine
#22. Deadpool
#21. American Honey

.20.. The Edge of Seventeen
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Por entre tantos dramas depressivos, comédias vazias e filme de super-heróis, The Edge of Seventeen é uma lufada de ar fresco. Protagonizado pela actriz e agora cantora, Hailee Steinfield, a trama segue Nadine, uma jovem de 17 anos altamente irónica. Tão azeda como um limão, a vida da rapariga é abalada quando a melhor e única amiga começa a namorar com o irmão mais velho. Traída e abandonada, acaba por travar amizade com um professor (Woody Harrelson), que lhe dá mais atenção que a sua própria mãe. 

Na mesma linha dos icónicos Sixteen Candles e Breakfast Club, estamos perante uma comédia teen mas nada infantil. A narrativa é honesta, inteligente e com momentos absolutamente deliciosos. Acaba por ser uma visita à mente de uma adolescente que está a lidar com mil e uma emoções ao mesmo tempo. Crescer não é fácil e a Hailee captou essa essência na perfeição. Não sendo o maior fã dela, tenho que aplaudir a forma como conseguiu interpretar uma Nadine em modo asshole mas sem nunca perder a simpatia do espectador. 


.19.. The Jungle Book
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Na sua maioria, os remakes são considerados as ovelhas negras do cinema. Existem demasiados e são poucos os decentes. Quando se esperava o pior, a Disney voltou a surpreender e ofereceu uma visão acualizada do eterno clássico "O Livro da Selva". A narrativa é a mesma do original de 1967, inspirado nos contos de Kipling, mas existem algumas mudanças. A musicalidade passa para segundo plano e a única coisa não digital do filme é mesmo o Mogli, tudo o resto é CGI. Sim, o lógico seria que o resultado fosse um desastre mas não. O realizador John Favreau conseguiu a proeza de criar um mundo virtual altamente credível. Custa a crer que tenham filmado tudo em estúdio, porque até a floresta é falsa. Incrível! A partir do momento em que o espectador se esquece que está perante um produto fabricado, diria que o resultado foi um sucesso. É de salientar a prestação estrondosa do jovem Neel Sethi que, com apenas 12 anos, carregou a trama toda sobre os ombros, sem nunca perder a nossa atenção. 

.18.. Captain Fantastic
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

As imagens promocionais à la hipster podem espantar algumas pessoas, mas não deviam. Captain Fantastic gira em torno de Ben e os seus seis filhos. Vivem na floresta e é lá que aprendem a sobreviver por conta própria ao comer alimentos naturais e enaltecer obras literárias que lutam contra o "sistema". Perante uma tragédia inesperada, a família vê-se forçada a voltar ao mundo real e o que se segue é uma roadtrip repleta de altos e baixos. 

A história não se restringe ao pensamento natureza vs. sociedade capitalista, é mais complexa do que isso. Assim como outras produções já o fizeram, esta aborda como o ensinamento e amor dos pais pode ou não influenciar o crescimento dos seus filhos. Com algumas questões filosóficas pelo meio, foi incrível como uma criança de seis anos, que nunca foi à escola, sabia mais que os primos com o dobro da idade e uma educação dita "normal". A nível técnico a fotografia está lindíssima e o Viggo Mortensen está de parabéns por mais uma interpretação sincera e carismática. Foi com alguma surpresa e felicidade que recebi a notícia da sua nomeação ao Óscar de Melhor Actor. Ainda que sem chances de vitória, foi merecido.


.17.. Jackie
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Uma semana após o assassinato do Presidente John F. Kennedy, Jackie recebeu o historiador e analista político Theodor H. White para discutir o legado do seu marido. O culminar desse encontro resultou na entrevista publicada da edição especial da revista LIFE, que cobriu os terríveis dias do final do mês de Novembro de 1963. 

Um dos filmes que mais ansiava ver e ficou muito aquém das minhas expectativas. Atenção, não existe qualquer sombra de dúvida que estamos perante a melhor actuação da carreira de Natalie Portman. Aliás, se venceu o Óscar com Black Swan, então agora estaria no papo — não fosse a concorrência extremamente forte. É evidente que a actriz passou horas a estudar o sotaque, postura e até o piscar de olhos característico de Jackie. É incrível a forma como a Natalie se entregou de corpo e alma ao papel da primeira dama mais popular do mundo. Dito isto, a narrativa peca por uma lentidão capaz de fazer qualquer um adormecer. O guarda-roupa e produção estão de parabéns mas a banda sonora por vezes surge sem qualquer necessidade e a níveis demasiado altos, desviando as atenções do que realmente interessa.

.16. Julieta
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Baseado em três contos do livro "Fugitiva", da vencedora do Prémio Nobel, Alice Munro, Julieta marca o retorno de Pedro Almodóvar volta ao estilo que o consagrou, o drama puro centrado numa figura feminina forte. Neste vigésimo filme da carreira do cineasta, acompanhamos a vida de Julieta, uma alma atormentada pelo afastamento da única filha, Antía. Ao longo de três décadas acompanhamos o crescimento — desde a sua fase punk na década de 80 à elegância da actualidade — e sofrimento da protagonista, que não têm notícias da filha há 12 anos. Com pinceladas de mistério, o espectador vê-se tão ou mais envolvido que a personagem-título na procura de respostas.

O argumento é inteligente e a forma como intercala flashbacks com a acção a tempo-real, criam um suspense enorme, capaz de nos deixar à beira de um colapso de ansiedade. Afinal, o que raio aconteceu para as coisas chegarem àquele ponto? É também através deste exercício temporal que percebemos como a própria mulher muda de personalidade com as diversas fatalidades que ocorrem à sua volta. O "desaparecimento" de Antía resulta, então, como uma ponte para a redescoberta dos seus próprios objectivos pessoais. A fotografia e banda sonora são invejáveis mas o ponto alto desta obra é a interpretação fenomenal da dupla Adriana Ugarte e Emma Suárez que dão vida à versão "jovem" e "velha" de Julieta.


.15.. Fences
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Baseado na peça homónima de enorme sucesso, escrita por August Wilson (que assina o guião), e igualmente protagonizada por Denzel Washington nos teatros — papel que lhe valeu um Tony Award em 2010 — Fences fala sobre a vida de um lixeiro de Pittsburgh, os seus conflitos, princípios, convicções e relações turbulentas com os filhos e a esposa, Rose.

A acção é bastante simples e durante metade do filme somos convidados a sentar no quintal traseiro e assistir ao dia-a-dia de um casal afro-americano na década de 50. Sempre de bebida em punho e uma colecção de histórias do passado, com um certo toque de ficção, o protagonista tem uma espécie de luta constante com a mulher devido ao futuro do filho de ambos. Por entre muito amor, parece ter sido plantada uma semente podre que vai crescendo com o avançar do tempo. Os monólogos, por vezes demasiado longos, são uma das highlights do projecto, mas é Viola Davis quem rouba todas as atenções. Sem querer revelar nada, quando ocorre o clímax narrativo, ela dá uma aula de actuação assombrosa. Será um crime se não ganhar o Óscar de Melhor Actriz.

.14.. Hidden Figures
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Inspirado no livro homónimo de Margot Lee Shetterly, Hidden Figures, foca-se em três mulheres afro-americanas que, no departamento de cálculo e matemática, ajudaram o seu país na importante disputa com a Rússia no domínio das navegações espaciais. Simultaneamente, a matemática, a engenheira e a primeira supervisora/programadora da história da NASA, são constantemente alvo de comportamentos racistas e machistas. 

Existem histórias que merecem ser contadas e esta é uma delas. Ainda que um pouco superficial, o espectador é exposto a cenas de racismo capazes de nos virar o estômago. Aliás, a narrativa não poupa diálogos alusivos à mentalidade da década de 60, chegando a ouvir-se que as mulheres negras deviam "agradecer por terem um emprego". No entanto, o guião tem falhas como no momento em que a protagonista, Katherine, ao querer fazer frente ao machismo e sexismo, justifica a presença das mulheres na empresa com algo absurdo como "Estamos aqui. Não porque usamos saias mas sim óculos". Really? Caricato visto que as duas amigas vêem perfeitamente bem. De qualquer forma, a trama é enjoyable, possui momentos cómicos mas sem nunca comprometer a mensagem, e só é pena que a banda sonora baixe um pouco o valor geral da obra. Ah, e continuo sem compreender como é que a Octavia Spencer (que adoro) foi nomeada pelo seu papel tão... básico. 


.13.. L'avenir (Things To Come)
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Escrito e dirigido por Mia Hensen-Love, L'avenir é uma produção francesa sobre Nathalie, uma professora de filosofia que certo dia é informada pelo marido que ele conheceu outra e ia sair de casa. Estupefacta, a protagonista tenta re-encontrar-se entre as aulas, cuidar da mãe, gerir o trabalho numa editora de livros, e ainda encontrar alguém para ficar com um gato. Sim, é isso mesmo. Estamos perante um passeio pelo quotidiano de uma mulher comum que se vê forçada a refazer a vida. Sem qualquer sentimento de vítima ou cenas dramáticas, o guião prefere uma abordagem assente na liberdade depois dos 40 anos.

Isabelle Huppert está magnífica, e divide graciosamente o tempo de antena com Roman Kolinka, o antigo aluno "Fabien", que vê nela uma mentora. Não é uma história com grandes floreados ou acção, diga-se de passagem, mas é na sua simplicidade que se encontra a beleza do projecto. O filme ganhou o Urso de Prata de Melhor Director nos Festivais de Berlim e de Bucharest, e Issabelle foi distinguida com o prémio de Melhor Actriz no círculo da crítica em Nova York, Los Angeles e Boston.

.12.. Loving
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Loving conta a história real do casal Mildred e Richard, ele branco e ela negra. Em 1958, auge dos conflitos raciais nos Estados Unidos, os futuros pais decidem casar-se em segredo das autoridades do estado de Virgínia, onde moravam e a união era proibida por lei. A dupla acaba por se casar em Washington, mas quando volta a casa, é presa. Está então traçado o pano de fundo para uma longa luta do casal pelos seus direitos humanos, marcada pelo preconceito, intolerância e o amor enorme que sentem um pelo outro.

A mensagem deste filme é lindíssima e extremamente relevante. Também aqui o espectador é confrontado com um tipo de violência altamente degradante e que trata seres humanos como se fossem lixo devido ao seu tom de pele. O director, Jeff Nichols, fez um trabalho estrondoso ao conseguir capturar na perfeição o clima para que o público sentisse a dor dos protagonistas, sem nunca recorrer ao choro fácil. Embora verídica, a narrativa não peca em nenhum momento por isso. Há que parabenizar a incrível prestação de Ruth Negga — indicada ao Óscar de Melhor Actriz — e Joel Edgerton que, pela primeira vez, me conseguiu cativar, desaparecendo por completo na personagem.


.11.. Silence
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Descrito por Martin Scorsese como o seu passion project, no qual trabalhou durante mais de uma década, Silence baseia-se no livro do escritor japonês Shûsaku Endô, e é um mergulho pelas correntes fortes da fé, os seus desígnios e consequências. Em destaque estão dois missionários portugueses, o Padre Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Padre Francisco Garupe (Adam Driver) que viajam até ao Japão, no século XVII, à procura do seu mentor, o Padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), que desapareceu nas terras nipónicas enquanto tentava pregar o cristianismo no país. Numa época em que tal vertente religiosa era proibida e punível com a morte, o que sucede é uma verdadeira caça ao homem.

Silence é uma obra monstruosa, não no sentido nefasto para por ser um trabalho monumental. O filme coloca o espectador numa viagem até ao inferno, sem qualquer vislumbre de libertação. Mantendo sempre uma certa distância da acção, a narrativa leva-nos para fora da nossa zona de conforto, chegando mesmo a incomodar. É um espectáculo visual incrível, maioritariamente devido à fotografia que oferece cenários de cortar a respiração, apesar da sua aparência estéril. A meu ver, a nomeação do Garfield ao Óscar de Melhor Actor faria mais sentido com esta interpretação. A sua entrega emocional foi tamanha que até custava acreditar que estávamos perante o mesmo jovem que em tempos vestiu um fato de látex vermelho e deitou teias de aranha pelos pulsos. O único ponto negativo é a linguagem. Além dos sotaques absurdos dos Padres, não houve nenhum cuidado em tentar recriar um diálogo próximo do século em questão, comprometendo o resultado final.

.10.. Elle
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Elle conseguiu o improvável e surpreendeu-me. Não é um filme comum, não se rege pelos parâmetros do politicamente correcto como a maioria dos seus colegas. O resultado é uma experiência digna de uma trinca no fruto proibido. É uma produção que nos faz questionar a cada segundo, enquanto tentamos entender uma série de decisões aparentemente inexplicáveis e condenáveis. 

Com uma trama central fortíssima, as vertentes técnica e interpretativa estão algo de poderoso. O simbolismo do gato preto, com um olhar atento, contrasta com o terror sentido por Michéle, assim que percebe que um homem mascarado entrou na sua casa para a violar. A cena dura apenas um minuto — sendo revivida outras três vezes, na qual a mulher tenta compreender o que lhe aconteceu. Invés de denunciar o crime à polícia, ela decide investigar por conta própria, tentado juntar as peças do puzzle que lhe são transmitidas pelo próprio homem que a atacou. A segunda longa-metragem desta lista com Isabelle Huppert como protagonista (L'avenir), é muito mais que um jogo de gato e rato. Envolve desejos íntimos, violência e traição. Depois de surpreender tudo e todos e vencer o Globo de Ouro de Melhor Actriz, adorava que ela vencesse o Óscar!


.09.. Toni Erdmann
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Ines Conradi é uma respeitada consultora empresarial que, actualmente, trabalha para uma grande empresa em Budapeste, Roménia. O pai, Winfried, é um homem no mínimo peculiar: anda com um medidor de pressão ao peito, usa uma dentadura falsa e mascara-se para chamar à atenção. Com um dom de fazer piadas em momentos inoportunos, ele decide visitar a filha. Lá, ele adopta duas personalidades: enquanto Winfried, tenta evitar ao máximo envergonhar Ines em reuniões de negócios; mais tarde, quando é descartado pela filha, assume o alter-ego, Toni Erdmann, um life choach disposto a aproveitar ao máximo o que a capital romena tem para oferecer.

À primeira vista, e com base na sinopse, é possível considerarem este filme alemão uma valente fantochada, mas não cometam esse erro. Toni Erdmann é uma crítica à sociedade actual, em especial às relações familiares, cada vez mais distantes, sob uma comédia melodramática deliciosa. É uma história de reaproximação que tem como objectivo secundário explorar o mundo corporativo de uma perspectiva feminina — vítima de pressões constantes, inclusive assédios. Pelo meio Winfried surge como comic relief, num ambiente executivo e sério. A evolução da relação entre as duas personagens principais resulta num momento emocionante mas nada piegas.

.08.. The Eyes of My Mother
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

The Eyes of My Mother mostra-nos uma família rural onde a filha, Francisca, é ensinada pela mãe a ser forte e não se incomodar face a acontecimentos chocantes e mórbidos. Anos depois de uma infância repleta de isolamento e solidão, a jovem deixa o seu lado sombrio tomar as rédeas da sua vida.

A premissa que poderia servir como história de superação, revelou-se um verdadeiro espectáculo de horrores. Aliás, foi classificada como tal, "terror", se bem que não concorde inteiramente com isso. Filmado a preto e branco e falado parcialmente em português — a família protagonista é de origem lusitana — este é o primeiro projecto do estreante Nicolas Pesce. Kika Magalhães, que interpreta a versão adulta de Francisca, conquistou a crítica cinematográfica norte-americana, tendo sido considerada por muitos uma revelação do Festival de Cinema de Sundance. Num registo digno de uma Norma Bates, a actriz consegue assustar e cativar empatia, em doses equilibradas, sem nunca perder noção do que é realidade, ou seja, os mortos continuam mortos e algumas pessoas já nascem más.  Com momentos poéticos, representados pelos lamentos de Amália Rodrigues, que ecoa pela casa vazia, o fado serve como aviso para a mudança psicológica da jovem.


.07.. Manchester By The Sea
NOTA: 8/10 | TRAILER: AQUI

Quando Joe Chandler morre, o irmão mais novo, Lee, tem de regressar a casa para tomar conta do sobrinho adolescente que divide o seu tempo entre o desporto, música e duas namoradas. É assim que podemos resumir o enredo de Manchester By the Sea

Não sendo apreciador do trabalho dos irmãos Affleck, admito que este talvez seja a melhor actuação de Casey. Ainda que no mesmo registo taciturno do costume, consegue aproveitar o enorme tempo de tela para mostrar o visível sentimento traumático que acompanha a personagem. A mudança de pai feliz e dedicado para zombie sem vontade de viver, é surpreendente. O que aconteceu vai sendo revelado em pequenas fatias, através de flashbacks, e é mais dramático do que qualquer coisa que poderíamos ter imaginado até meio do filme. Simultaneamente, é tão real que é impossível não nos colocarmos nos sapatos do protagonista. Os diálogos não são poéticos, inclusive chegam a parecer fruto de improviso, mas conseguem ser muito humanos e inteligentes. Lucas Hedges, o sobrinho, é uma revelação e a Michelle Williams arrasa tudo e todos nas poucas cenas que tem. 

.06.. Hacksaw Ridge
NOTA: 9/10 | TRAILER: AQUI

Após uma década de controvérsias, Mel Gibson voltou para trás da câmara e apresentou-nos Hacksaw Ridge, baseada na incrível história de Desmond Doss, membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia que decide alistar-se após o ataque de Pearl Harbor. Recusando-se a usar ou sequer tocar em armas devido à sua religião, o jovem socorrista, que apelidaram de "cobarde", recebeu a Medalha de Honra por salvar a vida a 75 companheiros durante a Batalha de Okinawa.

Detesto o género cinematográfico de guerra, mas foi com enorme surpresa que me vi completamente envolvido na história de Doss. Assistir à sua trajectória desde que se alistou e foi agredido pelos próprios colegas por se recusar completar o treino até vê-lo em acção, no campo de batalha, chegou a ser comovente. Para dar credibilidade, Gibson colocou o CGI de parte e preferiu utilizar o duplos, trabalhados em conjunto com o director de fotografia, editor e coordenador de efeitos especiais. O resultado é um cenário altamente perturbador. Não existem paninhos quentes, a Segunda Guerra Mundial é exposta como o que realmente foi, um palco onde a violência e mutilação são constantes. Um pormenor interessante são os depoimentos de algumas figuras reais, entre elas, Desmond, no final do filme.


.05.. Arrival
NOTA: 9/10 | TRAILER: AQUI

Sendo eu um fã incondicional do género sci-fi, especialmente de temáticas alienígenas, não vos consigo explicar o quão ansioso estive para ver receber este Arrival. A trama pode parecer simples, no entanto, a sua genialidade está nos detalhes. O enredo acompanha Louise Banks, uma tradutora e linguista cujos serviços são procurados pelo exército norte-americano, aquando o aparecimento de 12 objectos não identificados em diversas regiões à volta do globo. Para que consigam obter resposta sobre o porquê da sua presença na Terra, ela desenvolve tácticas para decifrar uma linguagem desconhecida e estabelecer contacto.

A estrutura narrativa é sólida e as duas horas de filme são repletas de cenas inesquecíveis que passam a voar. Se o objectivo era levar o público ao reino das possibilidade de análise, então o director Denis Villeneuve foi bem sucedido. Em parte o poder desta produção deve-se ao material base, Story of Your Life, de Ted Chiang, um livro sobre teorias de viagem no tempo, que se mistura com breves reflexões sobre o passado, presente e futuro. Asseguro-vos que é extremamente complicado não perceber aquela twist óbvia que as longas-metragens tanto gostam de incluir. Confesso que, desta vez, estava às escuras. Só mesmo na recta final é que se fez um clique e percebi o que estava a acontecer. A fuga aos clichés do género ao estabelecer uma temporalidade cíclica é de tal modo soberba que esgotei o meu rol de elogios. Arrival é uma obra-prima e é uma vergonha que a interpretação multifacetada de Amy Adams tenha sido ignorada pela Academia.

.04.. Ah-ga-ssi (The Handmaiden)
NOTA: 9/10 | TRAILER: AQUI

Na década de 1930, durante a ocupação japonesa na Coreia, a jovem Sookee é contratada para trabalhar na mansão de uma herdeira rica e frágil, que vive com o austero e implacável tio. Mas nesta história nem tudo é o que parece e a criada é, na verdade, comparsa de um vigarista que pretende conquistar o coração da solitária Hideko. No entanto, as coisas começam a ganhar contornos inesperados quando a jovem empregada cai de amores pela patroa e descobre o que realmente se passa naquela casa.

Durante mais de metade do ano tive The Handmaiden como o "Melhor Filme de 2016". A produção extravagante, a fotografia — que utiliza tons pastel para as cenas de interior, representando a evidente morbidez de algumas personagens, e os tons coloridos no exterior em alusão à liberdade — assim como os cenários, são uma verdadeira epopeia gastronómica digna de um Rei. Existem dois sub-plots em Ah-ga-ssi, uma que percorre metade do filme e outro no final. Pelo meio temos cenas de estratagemas, romance e muito erotismo.


.03.. Lion
NOTA: 9/10 | TRAILER: AQUI

Existem histórias da vida real tão dramáticas e extraordinárias que parecem ter sido criadas propositadamente para servir de enredo a um filme. A vida de Saroo Brierley que, quando tinha apenas cinco anos e vivia com a mãe e irmãos na localidade precária de Khandwa, na Índia, adormeceu num comboio e acordou perdido, a caminho de Calcutá. Nessa cidade, tornou-se sem-abrigo e nem sequer conseguia comunicar com as pessoas, visto que não falava bengali, só hindi. Eventualmente o menino é enviado para um orfanato estatal e acaba por ser adoptado por um casal australiano. Quase 25 anos depois, já completamente integrado na sociedade aussie, Saroo inicia uma exaustiva busca pela família biológica.

Lion é uma adaptação da autobiografia de Bierley, cuja narrativa cinematográfica foi estruturada em duas metades de uma hora, sensivelmente. Desta forma, evitam-se os flashbacks emocionais em prol da acção "actual". A abordagem é interessante mas peca por um único motivo, a divisão torna clara o quão melhor a primeira parte é em relação à segunda. A fase inicial é arrebatadora, uma construção audiovisual impressionante, carregada nos ombros do pequeno actor Sunny Pawar que se revelou um fenómeno da interpretação ao conseguir expressar-se de forma tão natural e crua. A inevitável ausência deste pequeno gigante na segunda metade, representa uma enorme perda para o filme, independentemente da prestação do Dev Patel enquanto Saroo adulto, seja bastante tocante. Não é segredo nenhum que sou pessoa de lágrima fácil mas deixem-me que vos diga, perdi a conta às vezes que chorei. O final então... até solucei! Se ainda não viram, preparem-se e tenham um pacote de lenços à mão. Vão precisar, acreditem.

.02.. Moonlight
NOTA: 9/10 | TRAILER: AQUI

A narrativa de Moonlight está dividida em três partes que contam a vida de Chiron. Em criança, conhecido por "Little" é negligenciado pela mãe, uma viciada em crack e forja uma bonita amizade com Juan, um traficante de drogas, e a sua esposa, Teresa, que se torna numa segunda mãe. O capítulo seguinte salta para a adolescência. Vítima de bullying na escola pela maneira de ser e se vestir, só tem um único amigo, Kevin, com quem desenvolve um interesse sexual que é interrompido devido a um evento ocorrido no final deste acto. A parte final, avança até à idade adulta com um Chiron, agora conhecido por "Black", mudou-se de Miami para Atlanta e tornou-se num traficante. Quando Kevin tenta estabelecer contacto, o coração bate mais forte e o resto é história.

Lamento a sinopse longa, mas só revela a complexidade desta obra cinematográfica de alto calibre. Tecnicamente, o filme é genial. A forma como a fotografia é trabalhada por James Laxton, através do aumento do contraste das cores, evidencia o sofrimento presente nas expressões faciais do protagonista durante o tempo inteiro. O guião de Moonlight impressiona pela forma como as três metades da acção se completam. Aliás, também o trio de actores que dá vida ao protagonista, revela um trabalho fabuloso para não serem imitações uns dos outros, mas sim uma evolução, crescimento. Podemos ver os olhos tristes do pequeno Chiron reflectidos no actor da fase adulta. Existe uma consistência tão grande nas mudanças de elenco a cada salto temporal que chega a ser assustador. Destaque para Mahershala Ali que, apesar de pouquíssimo tempo em cena, roubo todas as atenções e tenho a certeza fará o mesmo com o Óscar de "Melhor Actor Secundário".

Por entre diálogos memoráveis, são os silêncios e o que não é dito que tem mais impacto. O olhar moralmente complicado da figura paterna quando a criança lhe questiona sobre o porquê dos outros meninos lhe chamarem faggot, ou no momento em que dois jovens se apercebem que o que se passa entre ele vai além do socialmente aceite. Como Sean Baker fez com Tangerine no ano anterior — ocupou a #15 posição nos Melhores Filmes de 2015 — o director Barry Jerkins dá voz aos oprimidos ao partilhar a história de uma criança destinada a ficar no background. Sem criticar qualquer entidade governamental, expõe a dura realidade da população afro-americana, marginalizada e sem qualquer chance de atingir o suposto american dream. É graças a esta pressão que no segundo acto vemos o início de uma mudança comportamental do protagonista. Sem dúvida uma das melhores longas metragens do ano.


.01.. La La Land
NOTA: 10/10 | TRAILER: AQUI

Parou tudo. Ricardo, o rapaz que detesta cantorias cinematográficos não só colocou um musical em primeiro lugar como ainda lhe deu uma cotação de 10/10?! That's right! 

A história centra-se em Sebastian, um pianista sem estabilidade financeira e Mia, uma empregada de balcão num café dos estúdios Warner. Ambos são sonhadores: ele não quer deixar o jazz morrer e ela colecciona audições mas sem nenhum papel como actriz. Nunca pensei vir a dizer isto mas o Ryan Gosling e a Emma Stone foram soberbos. Especialmente ela, presenteou-nos com a melhor performance da sua carreira e é por esse motivo que também estou a torcer por ela na corrida pela estatueta dourada. O seu solo na recta final, gravado num único take, é razão mais que suficiente para anunciar o nome dela no próximo dia 26 de Fevereiro.

La La Land é uma ode aos clássicos de Hollywood (vejam ESTE vídeo), como o icónico Singing in the Rain, e a actores como Grace Kelly e Debbie Reynolds, presentes numa série de detalhes incorporados numa Los Angeles moderna — brilhantemente capturada pela fotografia de Linus Sandgren. Com sequências fluídas inspiradas em cenas míticas, antigos cinemas já encerrados, como o Rialto (podem ver AQUI um mapa com todos os locais das filmagens), um guarda-roupa elegante, diálogos com pinceladas de humor, explosões de cor, pianos, saxofones, tudo! Não há palavras para descrever esta obra-prima do cinema moderno. Não é por acaso que ganhou 7 Globos de Ouro (número record conquistado por um único projecto), tem 14 nomeações aos Óscares (apenas Titanic e Eva tinham conseguido o mesmo valor) e podem ganhar 11 BAFTA's.

A química do par de actores é inegável e transpira para fora da tela. É certo que não têm vozes fenomenais e os entendidos vão ladrar que não estavam coordenados ao milímetro nos passos de dança, mas a entrega de ambos está sempre presente e torna-os ainda mais humanos. Por favor, eles aprenderam a dançar e a tocar piano num espaço de meses, estão à espera do quê? Take several seats. Sim, estou extremamente investido neste filme e não consigo prever quando é que o feitiço vai ser quebrado. Provavelmente quando conseguir ouvir a melodia da canção de abertura, "Another Day of Sun", ou a "City of Stars" sem chorar desalmadamente.

Damien Chazelle criou uma verdadeira carta de amor nostálgica e só os "tolos que não sonham" é que não se vão deixar levar. Durante duas horas, o público é convidado a esquecer os problemas pessoais e a mergulhar de cabeça neste universo sonhador. Por entre risos e cantigas, somos confrontados com o poder e consequências que algumas decisões podem ter para o futuro. Felizmente combati a vontade exacerbada de ver La La Land na internet e esperei pela estreia para experienciá-lo no cinema. Não há palavras para explicar o turbilhão de sentimentos que me assaltaram. Se não fosse tão tio patinhas, já tinha ido vê-lo novamente. Não estava nada à espera de ficar tão movido por esta história, mas identifiquei-me tanto que sinto uma necessidade tremenda de saltar lá para dentro e ficar para sempre naquele mundo. A sequência final é absolutamente cruel e deixou-me devastado, de lágrimas nos olhos e raiva por estar assim em público. No entanto, compreendo o porquê.

La La Land não só é o melhor musical dos últimos 50 anos como é um filme completo e inesquecível o suficiente para ocupar um lugar na lista das melhores produções desta geração. Yeah, I said it. Agora vou continuar a ouvir a banda sonora e atacar o segundo pacote de lenços enquanto lamentao a dura realidade de uma vida sem magia.


Já viram alguns destes filmes? Qual ou quais foram os vossos favoritos de 2016?

10 comentários:

  1. Eu sou um falhanço enorme na área cinematográfica e acho que consigo contar pelos dedos das mãos os filmes que vi no ano que passou! Estou curiosa com vários sobretudo o LaLaLand, toda a gente fala bem!

    ResponderEliminar
  2. Por incrível que pareça não vi nenhum desses filmes, mas adicionei o link do post aos favoritos porque achei alguns interessantes! Estou a seguir-te :)

    http://www.joaogalhardo.com/

    ResponderEliminar
  3. Não vi nenhum filme de que aqui falas mas a verdade é que sou mais uma pessoa de séries do que de filmes, deve ter-se contado pelos dedos das mãos os filmes que vi em 2016!

    ResponderEliminar
  4. Pronto Ricardo, finalmente alguém vendeu o La La Land a uma anti-musicais!

    ResponderEliminar
  5. Adoro que Elle esteja ali no número 10, tenho uma publicação a fazer sobre esse filme!
    Bem, ao ver a tua lista percebo que estou sempre um passo atrás - raramente vejo um filme mal ele saia ou pouco tempo depois de isso acontecer. Porém, gosto de ver os nomeados aos Óscares, pelo menos aqueles que mais interesse me despertam - está na altura de começar a investir mais nos deste ano, já que chegámos a fevereiro.
    Beijinho*

    ResponderEliminar
  6. Uma pessoa pode sempre contar contigo para se manter a par do mundo cinematográfico e musical! Confesso que em 2016 vi poucos filmes novos, optei por rever alguns que já conhecia e que me aquecem sempre o coração =p do que falaste, vi o Nocturnal Animals, mas não gostei. A dada altura desisti e passei o resto do filme a jogar Candy Crush. O La La Land quero muito ver =p

    ResponderEliminar
  7. Concordo contigo em muito, não gostei de outros, quero ver alguns e acabei por adicionar mais à minha lista! Obrigada pela partilha! :)

    ResponderEliminar
  8. Mais uma vez, estamos aqui em pólos quase opostos, embora me falem ainda alguns dessa lista.
    Muitos mixed feelings em relação ao La La Land... ainda não sei se adorei ou odiei, mas pelo menos teve impacto, o que já é positivo ao falarmos de um filme. Até agora o meu preferido deste ano foi "A Perfect Day", com o Benício del Toro. Sei que o lançamento oficial foi em 2015, por isso não contava vê-lo na lista, mas se não viste aconselho imenso :)

    ResponderEliminar
  9. wow, 10/10 pelo la la land?é q eu tal como tu tambem detesto cantorias (Sao poucas as excepçoes mesmo... dancer in the dar sendo um deles) e ja tou farta de ouvir falar nele. tenho que lhe dar hipotese (Vai ser dificil, odeio um dos actores ahaha), mas adorei a tua lista! tou sempre a procura de novos filmes para ver, assim como acabar de ver o top 250 do imdb.

    estou mortinha por ver o arrival e o silence <3

    https://rrriotdontdiet.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  10. Adorei Hacksaw Ridge e Hidden Figures mas confesso que esperava mais de La La Land. Ouvi maravilhas sobre o filme durante imenso e, talvez por isso, as minhas expetativas fossem demasiado elevadas.

    ResponderEliminar

Obrigado pela leitura e comentário!
Eventuais questões serão respondidas aqui, na respectiva publicação.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...