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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Até já, “Please Like Me”


Hoje era suposto publicar uma review sobre o último álbum dos XX mas não tenho condições para o fazer. Não costumo ficar sem palavras mas aconteceu. Estou há algum tempo a tentar formar frases mas sem sucesso. Sinto-me emocionalmente drenado. Na segunda-feira assisti à quarta temporada completa de uma série que adoro e as lágrimas ainda não pararam. Sim, leram bem. Estou assim por causa de uma produção televisiva.

Riam-se, mas quando me apego a uma narrativa e às suas personagens, a sério, acolho-os no meu coração como se fossem de carne e osso e pertencessem à minha família. São raras as histórias que conseguem despoletar em nós um sentimento tão forte que, quando algo corre mal, a dor não é fictícia, é real. Tão real que nos deixa assim, desfeitos. Please Like Me é uma delas.

Sem que praticamente ninguém se apercebesse, esta série australiana tornou-se numa das melhores, mais honestas e surpreendentes produções televisivas da última década. No episódio piloto conhecemos Josh, um jovem de vinte e tal anos, inseguro, sarcástico e, até certo ponto, narcisista — felizmente bem diferente da Hannah de GIRLS — que é arrastado para fora do armário pela melhor amiga e, na altura, namorada, Claire. Simultaneamente, tem que lidar com a primeira tentativa de suicídio da sua mãe bipolar. Ainda assim, Josh vive um dia de cada vez, tentando que hoje seja menos shitty que ontem, tanto para ele como para os que o rodeiam.

Como resultado, a série — criada, produzida e protagonizada pelo comediante Josh Thomas — é um retrato bastante fiel da vida de um rapaz e o seu grupo de amigos, que se encontram naquela fase em que a linha entre adolescente dependente dos pais e adulto emancipado é bastante ténue. Pelo meio, tentam sobreviver. Cada dia, ou episódio, é uma batalha para manter o espírito positivo, ser feliz e encontrar um rumo.


Ao longo de quatro anos, Please Like Me, abordou uma variedade de tópicos que outras produções mais populares têm medo de tocar, e conseguiu fazê-lo com sensibilidade, franqueza, e claro, a componente cómica sempre presente. A série cobriu a homofobia e o racismo, depressão e assédio sexual no local de trabalho, doenças sexualmente transmissíveis e até cancro da mama. Sem querer revelar spoilers, houve um aborto que, de uma maneira absolutamente refrescante, não foi tratado com medo de ferir susceptibilidades, mas de forma autêntica, consciente e sem arrependimentos. Na segunda temporada, grande parte das cenas e três personagens principais — Hannah (Hannah Gadsby), Arnold (Keegan Joyce) e Rose, a mãe do Josh (a soberba Debra Lawrence) — foram passados numa instituição de saúde mental.

A quarta season é uma cruel chamada de atenção. De longe a mais sombria e difícil de digerir, mas também a melhor de todas. O Josh tenta fazer todas as pessoas felizes, incluindo ele, mas não consegue. Nada funciona e tudo acaba por se desmoronar. Se as três primeiras serviram de desenvolvimento para a depressão da mãe e as inseguranças dele nas suas relações (tanto de amizade como amorosas), então esta temporada é uma inevitável descida à terra. Terminadas relações, namorados desaparecem e amigos de uma vida acabam por se afastar. É brutalmente realista.

Com a continuação incerta, o último episódio desta temporada mais parecia o fim da série. Não vos posso explicar com todas as letras o que me afectou tanto nos últimos capítulos, sem revelar algo essencial. Mas, para bom entendedor, meia palavra basta. O desfecho não chocou por ter sido contado desde o início, mas a negação é uma ferramenta muito forte. Talvez me reveja em alguns aspectos da personagem principal e a sua relação com os outros, em especial com a mãe, mas mexeu mesmo comigo. Sim, dois dias depois, as lágrimas continuam a chegar. Senti uma necessidade enorme de partilhar convosco aquela que se tornou numa das minhas séries favoritas de sempre — tanto que vou acrescentar uma posição especial no top de 2016 visto que tinham dito que estreava este ano e na volta enganaram-me.

O elenco é fantástico e extremamente competente. A cumplicidade´entre eles é tanta que acreditamos piamente que se conhecem há séculos. Os timmings são perfeitos e a edição e produção musical simplesmente geniais. O enredo tanto nos aquece o coração como o desfaz numa questão de segundos. Espero, sinceramente, que não seja o fim. Não estou preparado para dizer adeus. Se for, despediu-se como se apresentou, e manteve-se fiel à sua essência crua e sincera.

6 comentários:

  1. Talvez também por estares a passar um mau bocado é que te sentes mais sensível, pelo menos é assim que eu me sinto quando algo desaba na minha vida. E choro, choro, choro (...) talvez dias e dias a fio!

    Quanto à série, nunca tinha ouvido falar mas deixou-me a curiosidade à flor da pele. Talvez faça o download para a ver :)

    Beijinho *

    http://cristiana-tavares.blogspot.com - BLOG NOVO

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  2. Nunca ouvi falar, no entanto, deixaste-me curiosa! (Como sempre!)

    A Vida de Lyne

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  3. Não conhecia esta série, mas parece interessante!

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  4. Infelizmente a quarta temporada foi a última. O Josh postou em suas redes sociais que ele e os outros produtores resolveram que essa seria a última temporada da série.

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    Respostas
    1. Quando escrevi o post ainda não tinha sido divulgado mas entretanto já soube da notícia. Uma pena :(

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