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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

MOVIE LOUNGE ⤫ THE NEON DEMON (2O16)


Estreou há pouco mais de três meses e, The Neon Demon, já se afirmou como um dos mais controversos e polarizantes filmes de 2016. O realizador Nicolas Winding Refn (Drive, Lost RiverOnly God Forgives) concebeu um espectáculo visualmente apelativo, inspirado em lendas, no oculto, no género slasher e cinema europeu. Não sendo fácil de engolir  literalmente  tornou-se numa das produções cinematográficas mais fascinantes dos últimos tempos.


The Neon Demon conta a história de uma jovem de 16 anos, Jesse, que chega a L.A. com o sonho de se tornar modelo. Portadora de uma (suposta) beleza absolutamente arrebatadora, assina contrato com uma grande agência. Admirada por uns e detestada por outros pela sua perfeição, certo é que a sua carreira de modelo cresce a uma velocidade alucinante. Nem tudo é um mar de rosas e no meio do plástico demoníaco, este ser natural e puro acaba por ser comido pelas mulheres que se sentem ameaçadas pela sua simples existência.

À primeira vista o enredo é capaz de originar um bocejo ao ler "jovem aspirante a modelo tenta vencer em L.A.", mas não se deixem enganar. O argumento é polémico, satírico e corajoso, abordando a luta constante pela perfeição estética com unhas e dentes. Não nego a quantidade de clichés, superficialidades e amoralidades aqui presentes, mas é exactamente esse o propósito desta obra.


Seguindo o mesmo modelo apresentado por Refn em trabalhos anteriores, a componente visual é tão ou mais importante que acção propriamente dita. Ver The Neon Demon é o equivalente a desfolhar as páginas de uma Vogue escrita por psicopatas sob ácidos. Cada frame está meticulosamente trabalhada, desde o jogo de luzes e sombras, aos splashes de cores psicadélicas. Digam o que disserem, a criatividade está no seu expoente máximo.

A fotografia de Natasha Braiar, os figurinos de Erin Benach e a música de Cliff Martinez dão o ênfase necessário a esta atmosfera predatória do mundo da moda. Não é por acaso que a cena da passerelle, numa espécie de realidade alternativa, representa o momento em que a nossa protagonista evolui, por assim dizer, de santa a demónio. Um verdadeiro concurso narcisistico que termina com Jesse a beijar o seu próprio reflexo e aceitar que é the hottest shit in town.


A protagonista desta fábula trágica é uma contradição andante. Jesse é simultaneamente uma virgem inocente e um demónio narcisista. É santa e pecadora, pura e objecto de desejo sexual. Neste campo, a Elle Fanning fez um bom trabalho ao projectar a vulnerabilidade e awkwardness necessárias na interacção com outras personagens. Face a dualidade psicológica da jovem modelo, Refn não pretende que a audiência a julgue. Muito pelo contrário, quer que seja celebrada no seu esplendor contraditório.

Arrisco-me a dizer que a Jena Malone oferece uma das, se não mesmo a melhor prestação da sua carreira enquanto Ruby, uma maquilhadora sedenta de afecto e diabolicamente depravada. Não só aceita os clichés do argumento como os celebra, levando-os ao extremo. Sem revelar spoilersAQUELA cena da morgue foi fruto da entrega total de Malone a este projecto.


Há que aplaudir o modo como Refn torna a câmara no verdadeiro monstro do filme e não as modelos. Apesar da sua premissa aparentemente anti-feminista, os homens do filme não passam de adereços descartáveis e irrelevantes. Ainda assim, seria injusto ignorar a prestação de Alessandro Nivola, o designer de moda que encontra em Jesse uma musa, e que apesar de pouco tempo de antena, conseguiu cativar a atenção do público.


É importante perceber que não estamos perante um drama narrativo, mas sim numa viagem estética. Atenção, não significa que falte substância. Está é personificada de modo visual, colocando de lado metáforas e dando prioridade ao sentido literal das coisas. Talvez seja esse o motivo pelo qual o filme está sujeito a várias interpretações. Há quem diga que leva ao exagero e ao chocante a temática da obsessão pela beleza e poderes de uma indústria que busca a todo o custo a perfeição.

Com um passo um tanto ao quanto lento, confesso que as cenas finais me surpreenderam. Desconfiava que algo de muito estranho estava a acontecer nos bastidores ficcionais da história mas nunca me passou pela cabeça que fosse aquilo


Quem estiver disposto a colocar ideias pré-concebidas de lado e aceitar o choque e provocação criadas por Refn neste universo semi-alternativo, pode descobrir momentos absolutamente geniais no seu íntimo. A polaridade opinativa entre o tédio e a devoção que o filme provoca nos espectadores só comprova o quão interessante é esta obra.

The Neon Demon não é mais que uma história simples pintada de forma irreverente, por intermédio de vaidades e sede de poder tão presentes na nosso quotidiano. Não é um conto moral. Aceita que o mundo é pútrido e comemora-o como tal.

Classificação IMDb: 6.5/10
Classificação Ghostly Walker: 7/10


Já viram o Neon Demon? Pertencem ao grupo que gostou ou detestou?

5 comentários:

  1. Nunca tinha ouvido falar deste filme até agora, e perdoa-me se estou errada, mas pela tua review associei ao filme "Black Swan", pois parece uma busca pelos parâmetros de perfeição. Fiquei bastante curiosa!

    Beijinhos, Brenda
    The Lonely Tree

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    Respostas
    1. Compreendo o teu raciocínio mas não é bem a mesma coisa. O tipo de "perfeição" que os dois filmes abordam é diferentes. Enquanto no "Black Swan" a protagonista quer desesperadamente ser a melhor bailaria, neste é abordada a componente da vaidade, da beleza e superficialidade :)

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  2. Epá, esta tua review está qualquer coisa de genial! Quando for grande, quero escrever como tu!! :p
    Deixaste-me com a pulga atrás da orelha! Ando à caça de bons filmes para preencher as horas vagas (e como já comentei por aqui, o teu blogue é uma das referências que mais utilizo), contudo, este aqui parece-me ser bastante interessante!
    Se chegar a vê-lo, depois dou-te a conhecer a minha opinião! :D

    A Vida de Lyne

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    Respostas
    1. Yay, muito obrigado! Fico feliz que tenhas gostado da review. Só espero é não te ter deixado com as expectativas demasiado altas porque o filme não é propriamente extraordinário. A nível técnico sim, está algo de fascinante :)

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    2. Arrisco-me a dizer que confio no teu faro para estas coisas! Até agora, nunca me desiludi!! ^^

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