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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Já chega, não? ⤫ After-work phone calls


Comecei a trabalhar em regime de full-time no início do ano e já me deparei com situações que, até então, considerava inconcebíveis. Não é segredo para ninguém que vivemos numa sociedade laboral que se aproveita dos jovens. Candidatam-se para uma posição mas acabam por ser autênticos burros de carga, a fazer um pouco de tudo com a desculpa perfeita de "ganhar experiência". Quanto a vocês não sei, mas para mim chama-se exploração.

Em apenas seis meses, já perdi a conta à quantidade de vezes que o meu patrão me telefonou fora do horário de expediente. É incrível como algumas pessoas não têm qualquer noção do que é minimamente aceitável, considerando-se no direito de incomodar um funcionário às 20h ou 22h da noite. Nem os fins-de-semana escapam, claro.

Pensando que se tratava de algo grave, atendi a primeira vez. Pior decisão de sempre. Desde então, tenho sido alvo de uma maré de chamadas, sendo que 90% são completamente descabidas e nem se justificam. Abrir um documento do excel e olhar para uma tabela, simples e pormenorizada, é uma tarefa tão morosa que é mais fácil chatear o funcionário num domingo às nove da manhã. Isto porque, obviamente, sou obrigado a saber de cor todos os contactos e informações com que lido diariamente. Absurdo.

Uma coisa é uma situação excepcional ou um contratempo, fair enough. Como trabalho na área de tradução/legendagem de programas de televisão, conheço perfeitamente a pressão de uma deadline para exibição. Contudo, sou um ser humano, não uma máquina. Um computador pode ser desligado para descansar, a minha cabeça, infelizmente, não funciona assim. É ridículo ser forçado a colocar o meu telemóvel em modo de voo para não ser incomodado. Pareço um refém.

A meu ver, deveria ser criada uma lei em Portugal como aconteceu algures em França, para impedir situações do género. A disparidade entre a quantidade de tarefas vs. ordenado já é por si só uma anedota. O horário laboral, por norma, de oito horas, é desgastante o suficiente, logo, se a entidade patronal pretende prolongá-lo através de e-mails, mensagens e chamadas telefónicas, deveria pagar por esse serviço.

Com este tipo de acções, pudera que tantas pessoas sofram de depressão e ansiedade. É impossível desligarem-se por completo e relaxarem. Sim, existem pessoas que conseguem a proeza de deixar os problemas à porta, quando picam o ponto ao final do dia. Eu não. Consciente das minhas responsabilidades e das consequências de uma tarefa mal executada, fico stressado e a remoer assuntos que na verdade só me incomodam a mim por ser profissional.

Enquanto os chefes, patrões ou simplesmente tiranos, não perceberem que se continuarem a desgastar psicologicamente os seus funcionários, o aproveitamento vai, inevitavelmente, sofrer, é impossível viver em harmonia.


Conseguem deixar os problemas de trabalho à porta?
Recebem telefonemas dos vossos chefes fora de horas?

10 comentários:

  1. Realmente é uma situação bastante desagradável... O problema é que se reclamas, ainda és mal agradecido porque tens um emprego e há imensas pessoas que queriam estar no teu lugar :/

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  2. Realmente, é uma situação lamentável e vergonhosa! Isso é mesmo exploração! Os trabalhadores têm direito a descansar ao fim de 8 horas de trabalho, e não merecem mesmo ser incomodados com telefonemas desnecessários do patrão. Sei que é mau, mas o melhor que tens a fazer é mesmo pôr o telemóvel em silêncio e ignorar as chamadas.
    Infelizmente, sei bem o que isso é, de explorarem os jovens. Conheço uma pessoa que trabalha há mais de um mês como enfermeiro num lar de idosos, e ainda não recebeu um euro que seja do salário dele, com a desculpa de estar à experiência.
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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  3. Em França também nos telefonam fora das horas, mas tens o direito de dizer que não queres atender, que foi o que eu fiz =p

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  4. Até agora só tenho a minha experiência de estágio mas nunca recebi chamadas fora do expediente. E-mails, sim, mas que eu respondia ou atendia apenas no meu horário de trabalho, sem grandes stresses.
    Mas com o meu pai, por exemplo, isso acontecia muito. Houve uma vez que estávamos a jantar há meia hora e ainda não tínhamos conseguido dizer-lhe "olá" sequer, era chamada atrás de chamada. Isto, para as famílias, acaba por ser difícil também porque a pessoa quer desligar-se do emprego e ligar-se à família, mas não consegue. A solução do meu pai foi arranjar dois telemóveis. Sim, agora há o dual sim, mas ele prefere, à mesma, dois telemóveis. Um pessoal e um para o trabalho. Quando termina o seu horário, desliga o telemóvel e mantém, apenas, pessoal. O problema ficou resolvido instantaneamente ;)

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  5. Cada vez mais me irrita esta situação de exploração e o que me incomoda mais é a burrice dos patrões que acham que só estão ali para ganhar dinheiro, não sabem delegar e não conseguem perceber que funcionários satisfeitos dão mais de si e fazem um trabalho com mais qualidade. É triste, muito triste ao que se assiste hoje em dia!

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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  6. Além de desgastar, deixa completamente desmotivados. Infelizmente, algumas das empresas portuguesas ainda não aprenderam que funcionários motivados e empenhados têm maior produtividade. Mas enfim. Exploram e fazem de tudo para cortar com as despesas.

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  7. Não posso dizer que me identifico uma vez que ainda sou estudante. Mas conhecendo-me como conheço sei perfeitamente que, tal como tu, não irei conseguir desligar-me por completo, deixando "os problemas às porta". Problemas de ser uma pessoa que se preocupa demasiado com tudo

    Espero que consigas resolver o problema dos telefonemas fora de horas o mais depressa possível

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  8. Este texto faz-me lembrar de umas quantas situações, mais ou menos caricatas, mesmo enquanto eu andava na universidade a fazer a minha licenciatura. Até aqui atender a chamada de alguns dos nossos professores foi sempre uma péssima ideia. Se fossem casos de extrema importância ou urgência, nem havia necessidade de se falar no assunto. Em casos em que o trabalho tenha a priori prazos a cumprir, ainda se entende que se tenha a necessidade de uma ajudinha extra fora do expediente, mas realmente não à desculpas para se abusar dos funcionários e da liberdade que se tem para tais situações. Realmente uma lei como essa francesa não fazia falta a ninguém. Se um qualquer emprego em si já nos deixa exaustos (mental e fisicamente), não imagino o quão estas situações não pioram o nosso estado de espírito. E também ainda não percebi como é que os patrões/chefes (whatever) ainda não entenderam que falta de motivação leva a piores desempenhos. Se bem que esta atitude explica muito da qualidade do serviço ao cliente que se tem nalguns sítios.

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  9. Olá Ricardo, antes de mais muitos parabéns pelo blog. Não o conhecia, mas gostei especialmente deste post.
    Realmente compreendo a situação, já passei por algo assim, ao ponto de necessitar de estabelecer regras claras comigo própria.
    Nem sempre resultou, mas tentei. A verdade é que me deu ferramentas e aprendizagens para empregos seguintes. Alterei um pouco a minha forma de estar e distanciei-me o possível para no fim do dia, "ser só um trabalho" e poder aproveitar o meu tempo de descanso.
    Como conselho só posso dizer que te mantenhas fiel a ti próprio, sejas profissional sempre como já és mas que isso não significa que os deixes entrar e ter expressão na tua vida.

    beijinhos

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  10. Felizmente não tenho esse azar - faço 1001 coisas que não me competem, acho honestamente que sou um tanto ou quanto explorada, mas só 9h por dia (porque tenho sempre que ficar mais tempo ou o trabalho nunca mais é feito...). Mas, porta fora, acabou. O meu chefe nisso é bastante cuidadoso: horário de saída ou férias para ele são sinónimo de deixar o trabalhador em paz, e ainda bem. No entanto, a paz é inversamente proporcional à responsabilidade que se tem: vejo pelo meu pai, que tem bem mais responsabilidades do que eu, e só não é chateado a partir da hora do jantar porque desliga o telemóvel...

    Jiji

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