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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Próxima estação: Prisão

A cada dia que passa, o medo de ir parar à prisão aumenta. Não, não cometi nenhum crime, mas um dia destes perco a cabeça. Se existia alguma dúvida, foi completamente aniquilada com a minha última viagem de comboio: odeio pessoas.

Na semana passada, depois da correria habitual para chegar a tempo, deparo-me com uma multidão digna de um festival de Verão, à espera de transporte. Intrigado com o excesso de indivíduos fora do habitual, heis que aquela voz feminina vinda do além me informa que os dois comboios anteriores ao meu estavam atrasados, criando um efeito dominó. Após um longo período de espera ao sol, o comboio chega e instala-se o caos. 

Do ponto de vista sociológico, foi altamente interessante verificar a aflição das pessoas para conseguirem passar as malditas portas. Parecia que a vida delas dependia daquilo. Não vou ser hipócrita e dizer que não seria capaz do mesmo, mas há limites. Digamos que ver uma mulher de braço partido ao peito, a dar-me cotoveladas para passar à frente, foi algo no mínimo insólito. Se fosse outro tinha-lhe dado um puxão no gesso que a asa ficava logo no sítio.

Fotografias de baixa qualidade dado o teor da situação. Os círculos representam duas das três mulheres sentadas.

Depois de uns minutos absolutamente aterrorizadores em que nem via o chão, lá consigo entrar e fico parado nos degraus cimeiros da escada (já não dava para subir). A seguir a mim as pessoas começaram a estacionar-se em fila indiana nos degraus disponíveis e depois na parte da entrada. Até aqui, tudo "normal". O problema é que enquanto a minha fila estava apertada e em pé, à nossa frente (ou seja, na outra extremidade dos degraus) estavam três "senhoras" sentadas. Começa a urticária. 

Entram mais pessoas na estação seguinte e uma delas diz às três criaturas que se calhar era melhor levantarem-se para haver espaço para os outros. Não fazia sentido estarem sete pessoas em pé de um lado e três sentadas do outro, a ocupar espaço. Entrou por um ouvido e saiu pelo outro. A esta altura já estava a arder. Após um dia de trabalho, ir em pé, sob altas temperaturas e a transpirar, ainda tive que ir feito sardinha enlatada enquanto as outras iam sentadas? Estava de tal modo colado a uma velhota que mais parecíamos o Son Goku e o Vegeta prestes a fazer a fusão.

A viagem foi dolorosa. A senhora do meu outro lado chegou ao cúmulo de ter que se arquear e fazer uma espécie de "ponte" por cima de uma das múmias, para se conseguir segurar no corrimão do lado oposto. Vendo uma coisa destas, alguém quase tombado por cima de nós, parte-se do princípio que se calhar, algo está errado. Nah, nada, até faz sombra.

A minha arqui-inimiga, a camela da leitura.

Chegamos ao Pragal, primeira estação depois da ponte e onde saem imensos passageiros, e a barraqueira dentro de mim escapou. Estando nas escadas, não podia propriamente "fugir", portanto encostei-me o máximo que podia ao corrimão atrás de mim para libertar caminho. As pessoas passam até que chega a vez de um senhor assim para o gordinho. "Epá, isto assim é complicado", diz ele olhando para as outras três. Momento de vergonha alheia em três, dois, um: "Pois, as pessoas não se levantam. É que nem para os outros passarem são capazes de se levantar. Que palhaçada!".

Nunca, em toda a minha vida, tinha falado daquela forma e naqueles decibéis em público, mas foi mais forte do que eu. O senhor lá passa - quase que me arrastava no processo -, e depois subo as escadas. Quando olho para trás nem queria acreditar. Nenhuma daquelas coisas se levantou durante o meu acesso de fúria ou comentários de outros passageiros que concordavam comigo. Continuaram pávidas e serenas, esmerdando-se com a maior das descontrações em cima dos outros.

Sou contra qualquer tipo de violência, ainda para mais sobre mulheres, mas em situações destas questiono bastante os meus ideais. Na minha cabeça imaginei mil e um cenários em como lhe mandava (especialmente à que estava descansadinha a ler), acidentalmente claro, com a mochila à cabeça. "Oops, se te tivesses levantado não acontecia isto". Sem brincadeiras, como é que é possível existirem seres assim? Sem qualquer tipo de noção de vida em sociedade ou o mínimo de civismo? Só de estar a relatar a história quero aniquilá-las.

Das duas uma, qualquer dia dou cabo de alguém e vou parar à prisão ou então mando vir com a pessoa errada e vou directamente para o hospital.


Já passaram por situações do género? 

10 comentários:

  1. Aqui costumam ser bastante cordiais nesse aspecto mas há sempre a ovelha negra!
    Beijinhos,
    O meu reino da noite ~ facebook ~ Bloglovin'

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  2. Ahahahah o que eu me rio com os teus relatos! De facto há muita gente por aí que não tem um pingo de civismo nos transportes públicos... passei pelo mesmo algumas vezes no autocarro que me levava à escola. Acho que cheguei a bufar mais que um touro enraivecido!

    http://cidadadomundodesconhecido.blogspot.pt/

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  3. Foram por estas e outras razões que eu deixei de andar de transportes públicos. Se faço uso do autocarro é mesmo porque preciso e se vou para Lisboa de barco, só mesmo para não ir a nado, coisa que não faço lá muito bem. O ser humano é de uma espécie que nem dá para entender. Para além de estúpidas, existem pessoas que dão mesmo vontade de espancar até nos tirarem de cima delas, portanto compreendo bem esse teu medo de ir parar à prisão! Sofro do mesmo na maior parte das vezes!

    Mas enfim. É começar a andar com ácido sulfúrico na mala e dizer que é água benta, enquanto atiramos para cima desses seres demoníacos! x)

    A Vida de Lyne

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  4. Oh pá adoro estes teus relatos :p a barraqueira que há em mim barafusta sempre em silêncio em situações destas - mas cá no Porto há sempre alguém com lata suficiente para ameaçar de chapada quem faz idiotices destas, por isso a malta já nem abusa muito!

    Jiji

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  5. Como te entendo... Já vi cada cena nos transportes públicos que até dói! Juro que o meu odiozinho de estimação por pessoas começou quando tive de passar a andar de comboio diariamente! :p
    Também acho que qualquer dia perco a cabeça e vou parar à prisão também. É que não há pachorra!
    xx, Ana

    The Insomniac Owl Blog

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  6. Já, infelizmente. E a conclusão a que chego é a mesma que a tua: odeio pessoas =p há cada um com tamanha lata!!! Enfim =p

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  7. Felizmente ando nesse comboio mas sempre na direcção contrária às multidões, por isso nunca tive uma situação dessas. Mas compreendo-te perfeitamente, por vezes também me apetece andar a distribuir chapadas por aí.

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  8. Ahah, isto relata a minha vida sempre que entro em transportes durante a hora de ponta. Há sempre, sempre alguém que devia ir porta fora.

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  9. Eu já passei por situações do género, ou pelo menos, por situações em que mais apetecia passar para a acção. Para além de as pessoas entrarem nas carruagens do metro e pararem automaticamente em frente à porta, como se não houvesse mais espaço dentro da carruagem, como depois devem ter uma fobia qualquer a ficarem na plataforma, porque nem deixam as pessoas sairem primeiro. Escusado será dizer que em dias em que uma pessoa não está propriamente bem disposta, algumas destas personagens que nunca devem ter ouvido falar de civimos já levaram com uns empurrões meus porque, honestamente, uma pessoa espera para entra na carruagem nas zonas de lado das portas, não nos 10cm que separam a porta da carruagem e a plataforma. As pessoas nos transportes públicos são do pior que há. Se às vezes parece que o espaço é todo delas, outra vezes nem respeitam o espaço dos outros. Eu sei que sou pequena mas caramba... já estive para ser atropelada por pessoas várias vezes.

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