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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Album Review | BEYONCÉ * LEMONADE


No seu sexto álbum a solo, Beyoncé Knowles Carter vai directa ao assunto: foi traída pelo marido. Descrito pela infame Tidal como "um projecto conceptual baseado na viagem de auto-descoberta e cura de cada mulher", Lemonade, é o trabalho mais honesto e pessoal na carreira da artista norte-americana.

Repleta de cenas quase cinematográficas, a composição lírica permite-nos imaginar o que as personagens da trama estão a viver: a Beyoncé, qual Ágata, a cheirar o perfume de outra mulher no Jay-Z, andando pela casa a meio da noite, antes de deixar um bilhete e desaparecer com a Blue Ivy.

Por si só, as canções poderiam ser interpretadas como dramas pessoais de uma estrela, prontos a ser explorados pelos tablóides. Através da componente visual, as letras ganham outra dimensão, servindo como testemunho de situações e emoções vividas por inúmeras mulheres à volta do globo.

Com uma narrativa melhor que muitas produções do cinema contemporâneo, o mini-filme Lemonade está algo do outro mundo. Meticuloso e impecavelmente concebido, merecia um prémio só por existir. Imagens fortes revelam as camadas de dor que as afro-americanas sentem: dor pelos homens que deveriam protegê-las, a dor de amar as crianças mas desconfiar dos homens, e o amor pelos Estados Unidos, uma terra que não as compreende. Acompanhado pela poesia visceral de Warson Shire, não considero o final feliz. Penso que a Beyoncé reconhece esses níveis de mágoa e fá-los funcionar a seu favor. Ou seja, fez limonada com os limões.

Só quando chegamos à segunda metade do álbum é que percebemos que Lemonade vai perdendo o sabor amargo. À primeira vista ficamos com a sensação que a Beyoncé está a utilizar o disco para anunciar o divórcio com o Jay-traidor-Z. Na "Don't Hurt Yourself", ela não repreende, "This is your final warning (...) If you try this shit again, you lose your wife"  arrasta publicamente o famoso e poderoso marido pela lama, sem se importar com a opinião de terceiros. Numa das minhas faixas favoritas, "Sorry", acerta no jackpot ao transformar, inevitavelmente, a outra mulher dele num meme, "Better call Becky with the good hair". 

Yoncé não é a primeira pop star disposta a experimentar e aumentar os limites do seu estilo musical  fruto da mistura de jazz e country nasceu a viciante "Daddy Lessons", por exemplo. É exactamente isso que a Rihanna e o Kanye West tentaram fazer em Anti e The Life of Pablo, respectivamente. A diferença entre eles é que, como referi nas suas críticas, os álbuns estão igualmente brilhantes e all over the place. Percebe-se que os artistas tiveram problemas ao encaixar mil e uma ideias distintas num só projecto. Lemonade, por outro lado, segue uma linha coerente, criado por alguém completamente em controlo e focado na mensagem que quer transmitir: limonada é uma bebida que se serve fria.

Se estiverem à espera de uma "Single Ladies", "Irreplaceable" ou baladas como "Halo" ou "If I Were a Boy", vão ficar decepcionados. Aliás, a única balada no conjunto de 12 faixas, "Sandcastles", surge um pouco deslocada do resto, e por comparação, pouco memorável.

Com parcerias de Kendrick Lamar na poderosa "Freedom", Jack White na enrraivecida "Don't Hurt Yourself", James Blake na injustamente curta "Forward" e The Weeknd na "Partition" pt. 2, aka "6 Inch", o trabalho conta ainda com um conjunto de samples dos Yeah Yeah Yeahs, Father John Misty, Led Zeppelin e Animal Collective. 

Lemonade é um sucesso de raiz. O conceito é algo fora do comum, se pensarmos que foi concebido, inteiramente, como uma ode à infidelidade, mas sem nunca meter um pé no terreno do final de relações, especialidade de cantoras como Adele e Taylor Swift.

A partir de agora, sempre que me perguntarem o porquê dela ser a minha cantora preferida e a melhor performer actual, basta enviar-lhes o link do vídeo a baixo.


Opiniões sobre o novo álbum da Beyoncé? Quais são as vossas canções favoritas?

8 comentários:

  1. ELA É UM GÉNIO! Com todo o caps lock que merece. Arrasou completamente! E este albúm meu deeeeeeus tão bom!! Nem sei o que diga, honestamente.

    Marli, do My Own Anatomy ✫

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  2. "merecia um prémio só por existir" Isto resume tudo muito bem!

    Só é pena como tantos fãs e tablóides conseguem tornar isto numa coisa tão feia. Mas, enfim, é com isso que ela vende também.

    Mas no que toca ao "filme" e ao álbum, não podia ter gostado mais.

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  3. Ainda não ouvi nenhuma, mas estou super curiosa

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  4. Fã como sou entendi perfeitamente a mensagem. O álbum fala não dela mas do mundo em geral. Dito pelo próprio pai da minha Queen.
    "Eu acho que a beleza da criatividade dela, e eu acho que é isso que a faz tão especial, de forma que todos se possam se identificar. Todos nós já fomos desapontados antes e tivemos que passar pelo processo de raiva e, sabe, tristeza e então aceitação e perdão. Eu acho que é por isso, de novo, que o álbum toca tantas pessoas. Porque é universal e todos podem se relacionar com ele”, disse o pai de Beyoncé.
    O objectivo é o crescimento dela como sua própria compositora e fazer com que todas as mulheres se identifiquem com cada verso escrito por ela. O que nunca foi dito: "fui traída, sintam o mesmo."
    Desculpa o enorme comentário, mas apenas o faço porque sei o quanto as pessoas acreditam nestas histórias e perdem o foco na masterpiece. Uma metáfora que pouco entendem. A rejeição do primeiro álbum de estúdio dela foi a fase mais revoltante dela e que hoje continua assente: "fui servida com limões, mas fiz uma limonada."

    http://diaryofalittlebee.blogspot.pt/

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    Respostas
    1. Também li essa "notícia", mas o Mathew limitou-se a dar a sua opinião pessoal sobre o trabalho da filha, não significa que seja a "verdade". Até porque a Tina já deu a entender que sim, a Beyoncé foi mesmo traída. De qualquer forma, e lendo o texto todo depois da primeira frase, a análise não se foca exclusivamente na questão da infidelidade.

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    2. Nunca foi a Tina que falou sobre o assunto. A Tina apenas deu uma entrevista sobre o divorcio com o Mathew e as traições dele. Relativamente à Bey nem mesmo a Kelly atreve-se a falar da vida pessoal dela.
      Eu explico-te: em 2007 quando ela lançou Resentment, na segunda edição do BDAY, fala de uma possível traição. Depois nas entrevistas a Bey explicou que falava da sua irmã. Então só em 2010 é que ela cantou pela primeira vez esta música live, e novamente na On the Run em 2015. E só aqui surgiram estes boatos.
      Não foi uma opinião pessoal, porque ele é pai dela e está sempre do lado dela quando ela está a criar um projecto novo. Apesar de não ser mais o empresário dela, continua lá e sabe melhor do que qualquer site de media a mensagem. O que foi dito por ele, foi estudado por outros sites de música que ficaram com a mesma opinião. O problema é que as outras pessoas focam-se só nas coisas más. Aqui em Portugal a noticia do álbum não passou por jornais, mas revistas cor-de-rosa vão falar: mas advinha não é do álbum é destes rumores.
      Ainda neste ultimo concerto provou o quanto tudo isso é fake com o discurso dela, tal como na On The Run surgiram boates de divorcio e eles estavam numas férias luxuosas e no palco provaram o quanto a media não sabe lidar com o sucesso deles.
      O importante é que a tour está esgotada o itunes esgotado e questão de markting ou não, ela não se importa com isto porque é uma profissional. :)

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    3. Sim, nada disso é novidade para mim. Como disse no texto, é a minha cantora favorita portanto estou bastante familiarizado com o historial. Está aos olhos de qualquer um que eles são mestres de marketing. Só não percebi o porquê disto tudo numa simples review (bastante positiva) de um álbum de música haha. Acabaste por dar o ênfase, que criticas, à parte "cor-de-rosa" da questão em vez de falar do que realmente interessa, das canções :)

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  5. Isto. Está. Tão. Brutal.

    Vi o filme hoje de manhã e damn, chills all over. Ela é mesmo uma artista, completa, fantástica. Cada música com a sua vibe, e uma viagem perfeita. Bru-tal!

    Jiji

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