Pages

segunda-feira, 21 de março de 2016

Auto dos Transportes do Inferno | Acto II

Um mês depois, a barca está de volta. Agora que estou, oficialmente, numa relação inestável com os transportes públicos, não existem dias mortos. Tanto posso estar a apreciar a paisagem pela janela do comboio e ser interrompido por um velho a mijar a parede da estação, como posso entrar num torneio invisível de cabeçadas de sono com o vizinho da frente. 

Neste quadrado amoroso com o belo do autocarro, comboio e metro, o pior continua a ser lidar com indivíduos porcos e sem qualquer vergonha na cara. Porque o primeiro não conseguiu cobrir nem metade das situações a que sou forçado a presenciar, apresento-vos o segundo acto do Auto dos Transportes do Inferno.

#1. Adeptos de futebol em dias de jogo
A linha de metro que tenho que apanhar diariamente fica na rota de um estádio de futebol. Bastou um mês para começar a odiar com todas as minhas forças os dias de jogo. Do ponto de vista sociológico, é fascinante. Por entre o mar de cachecóis, geralmente vermelhos, ouvem-se gritos animalescos dignos de uma cabra, e cânticos que mais parecem saídos de um culto satânico. Tudo isto enquanto erguem os punhos no ar, olhos esbugalhados e bocarra aberta até se ver o chumbo nos dentes. Oh gente saloia.

#2. Cada um por si
No último ano de licenciatura senti-me mal no metro. Lá consegui sair da carruagem e arrastar-me pelas escadas rolantes e passar as cancelas. Via tudo turvo, fui contra pessoas do nada, tudo preto. Tive um blackout em plena estação do Campo Grande e ninguém, nenhuma alma caridosa foi capaz de me ajudar ou ver se estava bem. Por sorte aterrei mesmo à porta da segurança que me foi buscar um copo de água com açúcar. Se dependesse das pessoas que por ali passavam, podia ter continuado ali estendido como uma animal morto à beira da estrada. É triste pensar que vivemos numa sociedade em que só olhamos para o nosso próprio umbigo. Se visse alguém colapsar à minha frente, por muito que esteja sempre com pressa, não iria ficar indiferente.

#3. Tossem/Espirram
Ninguém está imune ao ocasional espirro ou ataque de tosse de cão, mas há maneiras de o fazer em público. Não me lembro da última vez que vi alguém nos transportes públicos a tapar a boca enquanto tosse. Não estou a gozar, ninguém o faz! É chocante, eu sei. Ainda no outro dia vi uma pobre rapariga ser benzida pelos perdigotos de um rapaz que ia no banco à sua frente. A coitada bem tentava desviar-se sem dar nas vistas, mas ele continuava investido. Dois dias depois, em pleno comboio, uma senhora com idade para saber limpar bem o rabinho, no bloco de lugares ao lado do meu, inicia um longo processo de 7 espirros consecutivos para o corredor, NA MINHA DIRECÇÃO, sem sequer colocar a mão à frente. Por pouco peguei num foice e comecei a gritar "Javarda!".

#4. Não pedem licença
Uma das regras básicas da educação é saber dizer "por favor" e "obrigado" quando queremos algo. Infelizmente, com o avançar dos anos, a população portuguesa parece estar a desenvolver um forte caso de amnésia. Como de manhã o comboio parte do meu terminal, costumo ser sempre o primeiro a sentar-se. Quantas vezes, não levo coices de pessoas que entram depois de mim, e para se ocuparem o lugar à minha frente pisam-me, empurram-me ou quase derrubam a minha mochila, sem sequer soltar um com licença ou desculpe.

#5. Sinfonias rectais
Será preciso sequer desenvolver este ponto? Digamos que é uma ocorrência mais frequente do que gostaria. O meu olfacto de cão polícia também não ajuda, mas se as pessoas conseguissem manter as portas do inferno fechadas até estarem sozinhas, o mundo eram um sítio mais bonito. Não há nada mais desagradável que estar a desfrutar de música e um bom livro e sermos atingidos por uma nuvem de gás capaz de rivalizar com Chernobyl.

#6. Tarados
Nunca vou perceber em que momento da vida de um homem, ou mulher, se dá um clique e tornam-se tarados. Uma vacina para esta maleita? Fica a sugestão. Verdade seja dita, há indivíduos do sexo masculino que conseguem ser verdadeiros porcos. Engane-se quem pensar que só atacam em becos isolados e de noite. Em plena luz do dia e com pessoas em volta, já vi um homem incomodar uma rapariga a ponto de ponderar mudar-me para o lugar ao lado dela. "És tão bonita. Tens namorado? Não devias estar sozinha. Anda cá". E que tal tomares um banho, lavares esses dentes e calares a matraca antes que alguém o faça por ti? Queria ver se fosse com uma filha ou irmã dele.

#7. Esca**etas
Há quem não consiga ouvir outra pessoa vomitar que o faz logo de seguida, comigo são as esca**etas. Recuso-me sequer a escrever tal palavra. Praticamente todas as semanas sou alvo daquele que é dos sons mais grotescos da humanidade. Velhos, novos, homens e mulheres, era colhê-los a todos com um tractor e mergulhá-los numa piscina de muco. Que animais.

#8. Linha = Caixote de lixo
Chamem-me certinho, mas nunca deitei lixo para a rua. Desde miúdo que se como qualquer coisa e não tenho um caixote de lixo por perto, guardo o papel no bolso. Uma vista de olhos rápida para as linhas de metro/comboio e somos presenteados com uma orgia de beatas, papéis e embrulhos de comida. A falta de civismo é, realmente, incrível. Gostava de visitar a casa de cada uma dessas pessoas e encher-lhes a sala com uma quantidade de porcaria equivalente àquela que já deitaram para a via pública.

#9. Sessões fotográficas
Verifiquem os vossos telemóveis, de certeza que já me apanharam no fundo de alguma fotografia com uma expressão semelhante à do grumpy cat. A epidemia das selfies veio para ficar e não me incomodaria, se não fizessem questão de as tirarem ao pé de mim. Na rua posso afastar-me, enquanto vos julgo, mas num numa carruagem, não. Casais apaixonados, miúdas ridículas, o que não falta são fotógrafos amadores. Newsflash, na Fertagus é proibido tirar fotografias, há um sinal e tudo. Provoquem-me que faço queixinhas.

#10. Saem na primeira paragem
Quando saiu do comboio, vou a correr, literalmente, para conseguir um lugar no autocarro. Depois de um dia de trabalho e dores de costas terríveis, fazer a sexta e última viagem do dia em pé, não é opção. A dois minutos a pé da estação, está a primeira paragem de autocarro. Não é que há sempre uma ou outra alminha que se dá ao trabalho de ficar um quarto de hora na fila e depois sai logo na primeira paragem?! O tempo que ficou à espera tinha ido e voltado 7x. Juro que isto me ultrapassa. Fico genuinamente enraivecido e com pensamentos homicidas. 


Já presenciaram situações destas? Qual delas vos tira mais do sério? 

14 comentários:

  1. Apesar de já não andar de transportes é tudo bem verdade o que aqui disses-te! É uma nojeira pegada.

    ResponderEliminar
  2. #1 e #7. COMO TE ENTENDO! Jasus. Mas o resto...oh pá, começo a desconfiar que a malta no Porto é mais limpa e educada que aí em Lisboa ahahah

    Jiji

    ResponderEliminar
  3. ai odeio isso tudo! ando de transportes e a pé sempre -- aliás, nem tenho carro -- e tento ser a pessoa mais civilizada mas a verdade é que ha pessoas que nao sabem mesmo respeitar os outros :/
    beijinho

    ResponderEliminar
  4. Os tarados, esses grandes idiotas. Uma vez um rapaz (sim, devia ter 25 e eu tinha 19) sentou-se ao meu lado no metro e diz-me:
    "Olá, sou o João. (pausa) Já vi que estás sozinha. (pausa) Não tes namorado, pois não? Se tivesses devias ter um anel nesse lindo dedo". Juro. Com todas as letras. Eu sorri, cheia de medo, levantei-me, saí na primeira paragem que encontrei e fui ter com o segurança (fazer uma pergunta parva, não interessa). Foi assustador. Isso e velhotes que se sentam ao nosso lado quando somos a única alminha na carruagem. Podia escolher outro lugar, mas nããão.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Detesto situações dessas. Não consigo compreender o que vai na cabeça desse tipo de pessoas. Haja desespero!

      Eliminar
  5. oi, oi.

    dependo de transporte público aqui no Brasil e, ó, não tá muito diferente daqui. a realidade é bem parecida. eu uso o ônibus só à noite quanto eu vou à faculdade. agora imagina aí pegar um ônibus lotado de estudantes falando alto, gritando, ouvindo música... é horrível! pior do que é isso são aquelas pessoas que sentam no segundo banco, deixando a janela sem ninguém, mas também não fazem questão de dar o lugar pra gente. povo mal educado!

    abç!
    Não me venha com desculpas

    ResponderEliminar
  6. Ahahah revi-me tanto em duas, na da tosse e do pedir licença. Vou de autocarro todos os dias para a escola e apanho sempre alguma alminha que me faz algo desse género. A sorte é que ainda tenho uma pequeníssima áurea angelical e acabo por "deixar passar pacificamente" tudo isto. Mas às vezes dá mesmo vontade de lhe "ir ao focinho", como dizem cá no Norte ahahah

    Cidadã do mundo desconhecido
    http://cidadadomundodesconhecido.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  7. Eu só ando de autocarro, e talvez por isso a quatro é que me chateia mais. Quando o autocarro está cheio e fico naquela parte intermédia onde está a porta (e não me consigo mexer). Em vez de tentarem compreender e darem tempo às pessoas para que a porta se abra (ou só pedir licença, vá) e as pessoas saiam momentaneamente para também as deixar sair, resolvem empurrar e reclamar com os adolescentes "chatos e mal educados".

    ResponderEliminar
  8. Ai, como eu odeio transportes públicos!! E não é pelas viagens (por vezes) bem longas, porque até agradeço a pausa, mas sim pelas pessoas. As pessoas são super mal educadas, não pedem "desculpa" ou "por favor" (e, infelizmente, não é só nos transportes, é no geral). Há aqueles que têm que ficar nos bancos da frente (autocarros) porque enjoam e, para isso, chutam o pessoal para os outros bancos. Há aqueles que, mesmo que o espaço esteja deserto, fazem questão de se sentar ao teu lado e quase em cima de ti. Há aqueles que estão sempre a mudar de lugar e aqueles que falam aos gritos para a pessoa do banco ao lado e, quando dás por ti, estão 4 ou 5 pessoas em conversa encadeada, sempre a berrar. É de ficar maluco!
    ****

    ResponderEliminar
  9. Ahhh, tenho uma experiência traumática que ilustra bem o ponto 2, o "cada um por si". Não foi no metro, mas no verão passado estava numa praia em Peniche com a minha prima e umas colegas dela e fui à água enquanto elas ficaram na toalha. Quando entrei havia alguma ondulação -nada de exagerado- mas entretanto vi uma onda enorme a chegar. Em vez de ficar quietinha e mergulhar pensei que conseguia sair a tempo e levei com ela. Levantei-me e levei com a seguinte. E ainda me levantei e levei com a terceira. Enquanto eu estava a ter esta experiência de quase-morte estavam várias pessoas a olhar a água e para as ondas. Quantas me tentaram ajudar? Zero. Perdi um bocadinho a fé na humanidade e jurei nunca mais ir a uma praia com ondas, ahah.

    Quanto aos transportes, tenho tido boas experiências. O autocarro entre a terra onde moro e Lisboa é uma paz, até dá para dormir :)

    Perdida em Combate

    ResponderEliminar
  10. Eu entendo isto tão bem. Mas por um lado até gosto. Dá-me gozo observar as várias atitudes das pessoas, mesmo que algumas me irritem prá caramba. Agora no novo país vou com certeza voltar aos transportes públicos e vou ver se há atos novos, ahahaha R: Obrigada :)

    ResponderEliminar
  11. ahah é que é tal e qual! Sem tirar nem pôr! Ainda por cima eu que ando de transportes todos os meus santos dias! É uma autêntica sinfonia por vezes !
    with love, KATE ❤

    ResponderEliminar
  12. Descreveste realmente situações muito frequentes. Estou contigo na situação da escarreta. É tãão nojento!! Mas também já vi uma rapariga a vomitar em pleno autocarro. Podia comentar taaanto, dizer tantas coisas, mas seria somente repetir, porque temos a mesma opinião!
    _Ela.

    ResponderEliminar
  13. O primeiro tópico deu-me imensa vontade de rir mas não podias estar mais certo. Dias de futebol é um "big no" para andar de metro. Awww isso é péssimo. Por acaso sei de uma situação completamente contrária. Conheço uma rapariga que caiu numa estação de comboios (na plataforma) e, por acaso, imensa gente dispôs-se a ajudá-la; até uma enfermeira esteve com ela o tempo todo até chegar a ambulância. Quando as pessoas começam a espirar e a tossir, eu por acaso tento sempre literalmente ir para bem longe delas. É que nem nos transportes públicos, nem na rua, nem em lado nenhum as pessoas metem a mão à frente da boca. Isso de tarados em transportes públicos é melhor nem falar muito - eu tenho uma certa aversão a velhos por certas cenas que já vivenciei, por isso nem que haja lugares vazios ao pé de algum, eu fico sempre de pé. É que mais vale sempre prevenir do que remediar. O último tópico também deu para rir. Eu às vezes faço isso mas a viagem ainda leva uns 10 minutos se for depressa. Mas também só apanho o autocarro se ele estiver para sair porque, por norma, chego lá mais depressa do que os malditos intervalos de treta que fazem entre cada viagem.

    ResponderEliminar

Obrigado pela leitura e comentário!
Eventuais questões serão respondidas aqui, na respectiva publicação.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...