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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Hoarder in the making


Os animais hibernam, as folhas das árvores renovam-se e eu... faço uma limpeza geral ao quarto. Não me refiro a varrer o chão e limpar o pó, mas a revirar todas as gavetas e o terrível armário que esconde mais segredos que os três pastorinhos.

Contrariamente à opinião da minha mãe, não me considero uma pessoa desarrumada. Fui aquele aluno extremamente organizado que chegava a irritar. Infelizmente o mesmo não pode ser dito sobre o meu habitat natural. Não falta a cadeira típica que acumula pilhas de roupa e a secretária que serve como base para tudo e mais alguma coisa, mas nada de chocante. Ainda assim, o problema é aquilo que não está à vista.

Há coisa de duas semanas fui à procura de uns livros de Espanhol, algures num baú no armário, e acabei por embarcar numa aventura digna de um Indiana Jones - Hoarder Edition. Para quem não está familiarizado com o termo popularizado pelo canal TLC, a "acumulação compulsiva" é um sintoma de um transtorno de ansiedade obsessivo compulsivo. Define-se por três características principais:
1. A colecção excessiva de bens ou objectos que parecem inúteis para a maioria das outras pessoas;
2. A incapacidade de se livrar de qualquer um dos objectos ou bens recolhidos;
3. Estado de aflição ou perigo permanente.
Tal como a maioria dos comportamentos obsessivos, a acumulação compulsiva começa lentamente, como o simples facto de guardar uma revista por pensar que alguma informação possa ser útil no futuro. Já o fiz inúmeras vezes.

É importante compreender a diferença entre acumulador e coleccionador. À partida, coleccionar é um hobby inocente e que muitos de nós praticamos. O indivíduo adquire objectos que tenham entre si aspectos em comum, sejam cromos, livros ou discos de música. Quando esse acto é levado ao extremo, alargando-se a outros bens sem qualquer valor, ocupando muito espaço e causando dor à pessoa por se desfazer deles, poderá originar um acumulador compulsivo.

Calma, não pertenço ao clube doentio de pessoas que mal consegue entrar em certas divisões da casa devido à quantidade de porcaria que vão juntando, nem de perto. Ainda assim, tenho imensa dificuldade em livrar-me de objectos. Desde criança sempre guardei tudo.

Em busca dos livros, acabei por desenterrar sacos, dezenas e dezenas de sacos que fui guardando ao longo dos anos. Grandes, pequenos, minúsculos, de papel, de plástico, até de Natal (com direito a papéis de embrulho). Exemplares para todos os gostos. Perguntam vocês, "porquê sacos?" Simples, "ah podem dar jeito" ou "são giros". Sem me aperceber, visto que os "escondia" no armário, acumulei uma quantidade excessiva.

Como estava com uma chamada de vídeo com a minha namorada, foi ela quem me chamou à atenção para a situação que, para mim, não existia. Entre o sentimentalismo e medo de precisar deles no futuro, fiquei genuinamente incomodado por ter que me desfazer dos sacos. Parecia que me estava a livrar de uma parte de mim. Por muito que me sinta patético, o que verdadeiramente me assusta, é a ligação doentia que criei com algo tão inútil e sem qualquer valor monetário (discutível hoje em dia) como sacos de compras. 

Não existe uma maneira "correcta" de lidar com este distúrbio, mas é necessária muita compaixão e compreensão para ajudarem um acumulador a melhorar a sua qualidade de vida. Embora esteja ciente que o meu caso não é propriamente sério, estava a começar a revelar os indícios desta obsessão compulsiva. Desde a dificuldade e resistência a falar ou pensar sobre o assunto, ao facto de não o considerar um problema. Afinal de contas, para mim não passava de uma "colecção" como tantas outras. Resultado, enchi quatro sacos grandes com o equivalente a uma cidade de saquinhos. 


Conhecem alguém com este distúrbio? Já passaram por isto?

15 comentários:

  1. Hum, estes temas são muito interessantes.
    Eu sou o contrário, de cada vez que faço uma "limpeza geral", deito muita coisa fora. Já cheguei ao ponto de querer deitar "tralha" fora e os meus pais não me deixarem, por serem as coisinhas de bebé, da escola primária, disto ou daquilo. E pronto, lá tenho de conviver com coisas que já não quero. Mas pode ser que um dia dê valor a estas coisinhas, que por enquanto têm enchido o sótão cada vez mais.
    Mas se, no teu caso, a coisa se mantém apenas nos sacos, penso que não é assim tão mau :) Há muita gente que gosta de gostar sacos, até há quem goste de os dobrar bem pequeninos para caberem mais. Tenho pessoas na família que o fazem.
    Pode ser que agora quando vires o armário mais arrumadinho, o mantenhas assim, quem sabe :)

    um beijinho*
    Dreams and Lemonade

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  2. Eu acho que tenho o problema contrário... como mudei de casa imeeensas vezes ao longo da minha vida, aprendi a não guardar nada que não seja necessário. E o hábito ficou. Odeio guardar coisas inúteis. E depois o que me costuma acontecer é que de vez em quando é preciso um papel ou uma revista ou um saco e... onde está? No lixo =P

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  3. Ò como te entendo! Esta coisa de nos livrarmos do que achamos que nos faz bem mas que na verdade é igual a nada, é mais complicada do que parece. Nós a olharmos estas coisas, no teu caso são sacos, no meu são roupas oferecidas pela minha avó - vai nos fazer recordar algo que outrora foi bom e só o facto de termos que pensar que temos que as deitar fora, parece que essa memória, vai junto.
    Isto só mesmo com muita paciência!
    O que estou a pensar fazer é criar um álbum de memórias com recordações de coisas que para alguns são supérfluas, mas para mim têm grande valor sentimental - neste caso, fotografava o objecto e colava no álbum.(podem gozar, eu deixo).

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  4. os meus pais devem ser bocado LOL de vez em quando lá tenho que dar uma revisao à casa e deitar coisas fora porque senao a tralha vai-se acumulando

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  5. Também penso sempre "isto pode dar jeito", por isso é que tenho caixas e caixinhas cheias de papéis, recortes e sou daquelas pessoas que guarda os talões todos (aliás, agora junto-os numa espécie de agenda-diário-scrapbook). Por outro lado, quando a minha veia bipolar aparece, passa-me qualquer coisa pela cabeça, resolvo fazer uma mega arrumação e lá me desfaço de muita coisa.

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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  6. Eu costumo guardar tudo e mais alguma coisa por esse "medo" de um dia precisar x) Mas costumo fazer uma limpeza trimestralmente e lá vai a acumulação toda fora! No entanto tenho coisas muuuuuito antigas ainda guardadas das coisas não me consigo mesmo desfazer!

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  7. Epa, mas olha que no contexto actual os sacos dão jeito. Agora mais a sério: nunca tive esse problema, mas tenho uma pessoa na família que tem - o que até ao momento se traduziu em cerca de duas divisões na casa onde mal se entra (e o resto da casa é um problema). Raras vezes lá entro. Não tenho grande apego a objectos considerados "inúteis", na verdade livro-me facilmente dessas coisas. Só roupa é que tenho mais dificuldade, mas creio que é mais compreensível - ainda que considere que continuo a manter coisas a mais. Mas quanto à desarrumação, eu perpetuo a máxima da minha mãe: todos temos direito ao nosso cantinho da desarrumação ;)

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  8. Adorei o texto! Eu sou daqueles que só procura ter o essencial. Já joguei bastante coisas fora.
    Bom restante de semana!

    http://jj-jovemjornalista.blogspot.com.br/

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  9. Boa noite! Não chego a um ponto de ser considerado distúrbio e felizmente já estou muito melhor, antes tinha capas e capas cheias de folhas e meias folhas sem nada escrito porque "algum dia vou precisar e é sempre bom ter folhas de rascunho" ou então com desenhos que ia fazendo à balda e guardava... Também já andava com essa mania dos sacos, mas parei porque realmente ocupa a espaço demais e nem fazia o mínimo sentido porque acabava a nunca usá-los.
    Beijinho :)

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  10. Ainda agora tive uma conversa com a minha mãe sobre isto "Fui aquele aluno extremamente organizado que chegava a irritar. Infelizmente o mesmo não pode ser dito sobre o meu habitat natural." xD
    Eu por acaso sempre fui aquele tipo de pessoa que tudo o que possa deitar para o lixo, deita. No entanto actualmente tento ser mais selectiva porque sei que me vou arrepender daqui a uns anos de ter mandado algumas coisas para o lixo.
    Já o meu irmão, acha necessário guardar TUDO. Ele ainda tem os livros e cadernos do infantário/primária. E eu até ao 9º ano deitava tudo para o lixo (testes, fichas, cadernos) no final do ano lectivo.

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  11. A mim acontece-me exatamente o mesmo! Guardo sacos de compras, etiquetas de roupa, talões dessa mesma roupa, e depois guardo aquelas "pequenas" recordações que se resumem a embruhos, caixas, bocados de papel, copos de bebidas de Starbucks, Costa e Spirito, etc...! Qualquer dia tenho de arrumar aquilo tudo, mas sinto o mesmo que tu! Sinto que vou perder uma parte de mim!! :))

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  12. Eu estou constantemente a arrumar o quarto devido a isso: sinto que guardo muitas coisas ao longo dos meses e que, de maneira consciente, sei que nunca lhes darei uso. E por estar no curso de Artes e ter uma disciplina em que reaproveitamos alguns materiais, já dei comigo a guardar coisas que nem eu reutilizaria para algum trabalho. E terias de ver o choque de quando eu encho sacos e sacos de coisas desnecessárias. Enfim, combatendo essas necessidades desnecessárias!

    avidadelyne.blogspot.pt

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  13. Só me apercebi da existência desse distúrbio quando uma vez, meio sem querer, vi esse programa do TLC. Fiquei em choque! Sempre tive tanta facilidade em desfazer-me das coisas que não imagino como se pode ser assim!
    Já a minha irmã é o oposto. Guarda tudo o que vê, chega a ser problemático de facto!
    xx, Ana

    The Insomniac Owl Blog

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  14. A minha mãe é uma acumuladora, e só piorou desde a morte da minha tia. Mas esta controlado porque de vez em quando eu e o meu padrasto vamos deitando coisinhas fora, e ela lá vai deixando.
    Mas é realmente problemático, quando se passa dos limites ....

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  15. Por cá também somos de guardar tudo. Por isso é que para irmos viver juntos em Maio, temos que planear tudo ao pormenor desde Janeiro, para termos tempo de nos irmos desfazendo das coisas aos poucos... ou para dar tempo para acumular mais, depende do ponto de vista... ahahahah

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