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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Pais super-protectores


Os meus pais sempre deram muita importância à minha segurança. Como nunca dei problemas em criança, o meu desempenho escolar era bom e o meu comportamento exemplar, não percebia a necessidade incessante de preocupação para comigo. 

Faltei a muitas festas de aniversário, passeios pelo parque e mais tarde, saídas nocturnas tinha 18 anos quando comecei a sair à noite. A primeira e única vez que dormi na casa de um amigo, já estava na Universidade e aconteceu porque tínhamos um trabalho gigantesco de grupo para fazer. Não tive sleepovers em minha casa e tão pouco ia brincar com os vizinhos na rua. "Um dia quando fores pai vai perceber", dizia-me a minha mãe. Agora que sou mais velho, compreendo os seus medos — afinal de contas o mundo está cada vez mais populado por criaturas terríveis capazes de cometer as maiores barbaridades. No entanto, especialmente desde que ganhei liberdade de sair quando me apetecer, consigo ver como essa maneira de pensar me moldou num adulto cheio de inseguranças. 

Atenção, não estou de modo algum a fazer um ataque aos pais que se zelam pelos seus filhos, até porque só estão a cumprir com a sua obrigação. Também não é uma questão de "mimo"  confesso que tenho uma ligeira aversão a pessoas mimadas —, mas sim de pais super-protectores. É um tema bastante complexo porque nem sempre é fácil encontrar um meio termo entre o nível de preocupação parental aconselhável e o excessiva.

A "super-protecção" acontece quando as crianças e adolescentes não têm sequer a hipótese de se aventurarem por conta própria. Seja para ir à escola, ao centro comercial ou numa saída com amigos, na qual os progenitores, por insegurança, impedem os filhos de realizarem actividades nas quais eles (pais) não estejam incluídos. Para uma vida saudável, é necessário que seja concedida aos filhos a chance de viverem algumas dessas experiências sem uma presença/olhar vigilante.

De acordo com um estudo publicado no Journal of Child and Families Studies, o comportamento deste tipo de pais aumenta o risco da criança se sentir incompetente, sofrer de depressão e ansiedade – consequências que muitas vezes podem surgir a longo prazo. Costumo conversar sobre este assunto com a minha mãe mas acabo por me sentir mal, porque fico com a sensação que ela pensa que a culpo de alguma coisa. Posso não ter crescido numa redoma de vidro, mas o certo é que lido com alguns destes problemas no meu dia-a-dia.

Problemas que este "fenómeno" traz para as crianças e futuros adultos:
1. Perda de autonomia - coisas como ir ao banco podem ser um bicho de sete cabeças (falo por mim, nunca fui e é sempre o meu pai que trata dessas burocracias)
2. Medo de enfrentar situações fora do habitual - quando tenho que ir a uma entrevista de trabalho imagino mil e uma situações (como falei AQUI) na qual algo me pode acontecer, desde ser enganado a acabar numa banheira sem um rim
3. Dificuldade de se relacionar com outras pessoas (especialmente estranhos)
4. Falta de iniciativa
5. Reclusão/Isolamento - distanciamento da realidade em mundos alternativos como o virtual

Por muito que tenha consciência das minhas capacidades, existe sempre uma voz lá ao fundo da minha cabeça que duvida de tudo e mais alguma coisa. Quantas vezes não vi anúncios de emprego na minha área mas que por aparentarem ser um pouco mais complicados que o habitual, ergue-se logo uma parede de tijolos que me impede de arriscar. Penso demasiado em tudo e como detesto dar a parte fraca, é preferível nem tentar. Como é óbvio sei melhor que ninguém que isto é ridículo, mas que acontece, acontece.

Já dizia a Britney Spears na música Overprotected, "I need to make mistakes just to learn who I am / And I don't wanna be so damn protected". Quem diria que a Miss American Dream podia ser uma fonte de sabedoria.


Têm pais super-protectores? Se sim, revêem-se em alguns destes "problemas"?

15 comentários:

  1. Tive a sorte de os meus pais me protegerem qb. Também só saí a sério quando fui para a faculdade, mas passeios e aventuras eram-me sempre permitidas desde que soubessem onde e com quem eu estava. E como me era dada essa liberdade, eu também nunca senti necessidade de mentir, portanto, tudo tranquilo - era como tu, nunca dei problemas. Confesso que esse fenómeno é algo que me faz confusão, precisamente pelas consequências que referes. E normalmente os grandes perigos até estão dentro da própria família e não nos estranhos...mas bem, vou parar de mandar postas, ainda levo com elas em cima quando for a minha vez :)

    Jiji

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  2. Eu tive problemas graves com os meus pais, mas noutro campo... em relação a este tipo de coisas, sempre me deram espaço suficiente para eu ser autónoma e tomar as minhas próprias decisões... claro que não tive imeeeensa liberdade, muitas vezes quis fazer coisas que não me deixaram, mas acho que nesse aspecto foram pais muito equilibrados

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  3. Felizmente era só a minha mãe mas como a teimosia é de família... ia fazendo alguma coisa mas compreendo perfeitamente

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  4. Eu devo mesmo ter crescido "on the street" como dizes porque eu sou o oposto. Faço tudo e às vezes sem sequer medir as consequências das coisas. É claro que também imagino 1001 cenários em como as coisas podem correr mal mas no geral sou pretty reckless (... never was a girl with a wicked mind) e happy go lucky. Sê como eu, é fun!

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  5. Sinto-me identificada em muitos pontos. Eu sempre que tinha que falar em algum assunto de sair sentia uma ansiedade tremenda (e ainda hoje sinto um bocado) porque já sabia que a minha mãe ia ficar logo de pé atrás, e sempre a pedir para eu mandar mensagens e ia ficar toda a noite preocupada. Nunca dei problemas aos meus pais e por isso muitas vezes sentia-me bastante revoltada por sentir que não confiavam em mim quando eu nunca tinha feito nada de mal. De facto é um assunto delicado. Também não culpo propriamente os meus pais, mas também não concordo que tenha sido a forma certa de fazer as coisas e hoje em dia debato-me com muitos desses problemas que apontaste. Nem 8 nem 80, mas sinceramente acho que se eu quisesse ter feito asneiras e ser rebelde não seria esta protecção que me iria impedir propriamente, e por muito difícil que seja é sempre importante haver um equilíbrio, até porque liberdade é sinónimo de liberdade e há coisas que só aprendemos se formos nós a "bater com a cabeça".

    Bem, desculpa o testamento, mas tocaste na ferida. xD

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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  6. Entendo bem o que você quer dizer. É certo os pais protegerem, mas tem muitos que não dão autonomia a seus filhos. Alguns, até impõem sua forma de ser e pensar nos filhos, e isso acarreta muitas frustrações, como você bem falou.

    Obrigado pela visita ao meu blog, estarei sempre por aqui agora.
    http://jj-jovemjornalista.blogspot.com.br/

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  7. oi, oi.

    super me identifiquei e tenho de acrescentar uma coisa: tudo fica pior quando tu é filho único, pois seus pais tendem ainda a ficar mais no pé. eu só fui ter a tal liberdade depois dos 18 e dormir na casa de um amigo só na faculdade. confesso que tudo foi estranho, mas aos poucos a gente vai acostumando.

    e tenho de concordar de que essa proteção toda com a gente não nos fazem melhor, do contrário, ficamos com mais medo do mundo.

    abç!
    Não me venha com desculpas

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  8. Eu acho que o meu caso é um bocadinho ao contrário. Sempre tive demasiada liberdade, e devido a isso, às vezes acho que luto apenas para mim. Nunca há a pergunta de 'Como vai a faculdade?', ou o 'Precisas de alguma coisa?'. Não sei o que é melhor, um meio termo talvez.

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  9. No meu caso os meus pais nao sao extremamente controladores, até tenho bastante liberdade!

    Abraço (:
    New Post!! Obra d´art

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  10. Nós definitivamente também sofremos desse mal. Eu (Ele) custa-me até a dar-me até um certo nível com as pessoas. Custa-me ter iniciativa e sinto muitas das coisas que referes... E comigo (Ela) não é muito diferente. Eu (Ela) nem conseguia andar de escorrega normalmente. Ia a esfolar os pés todos para não cair, como sugeria a minha mãe.

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  11. Sou chefe de tropa Escoteira aqui no Brasil e passo por uns problemas com pais super protetores. Eles além de tirar a liberdade do jovem, acabam fazendo com que os amigos não sintam tanta confiança no pupilo.
    Uma vez uma patrulha tinha combinado de tomar banho antes do jantar em um acampamento e a mãe de um jovem mandou ele tomar banho (?), ele foi, pq ordem de mãe é ordem de mãe, né!?
    Quando jovem foi para a barraca, todas suas coisas estavam fora... os jovens se 'vingaram' de uma forma fofa do colega que fugiu de seus combinados.
    E tudo culpa de quem?!
    | Sorteio do livro: "Como ter uma vida normal sendo louca" |
    | FB Page A Bela, não a Fera|

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  12. Os meus pais foram protetores, mas não excessivamente. Como exemplo, lembro-me que aos 14 anos deixaram-me, sem problema, ir celebrar o Halloween pelas ruas, mas soube mais tarde que me seguiram discretamente, ahah. Ao mesmo tempo que ficaram descansados (até porque era noite) divertiram-se com essa pequena brincadeira a dois.

    O mundo é difícil, sim, mas o "nosso lado" do mundo é um mar de rosas comparado com a maioria (e Portugal é um paraíso), por isso acho que não há motivo para não deixar as crianças viver.

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  13. Tal como tu, só comecei a sair à noite aos 18 anos, mas como vivo numa cidade razoavelmente segura, os meus pais nunca foram demasiado protetores. Conhecem os meus amigos, conhecem os pais e, por isso, dormir em casa de alguém, ficar a fazer trabalhos até mais tarde ou ir a um jantar de curso nunca foi um problema. Eles confiam em mim e confiam nas pessoas que tenho comigo. Sempre foi assim. E acho que é assim que quero ser com os meus filhos. Mas também tenho noção que saio uma vez por mês (nem isso a maioria das vezes) e não abuso. Caso contrário seriam bem mais protetores, de certeza.

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  14. Os meus pais também foram sempre bastante protetores e, honestamente, agradeço-lhes imenso por isso!
    Quando tive autonomia (tipo aos 18 só :p), olhei à minha volta e apercebi-me do quão distorcida era a vida de quem sempre teve toda a liberdade (e que curiosamente gozaram-me toda a adolescência por 'nunca sair de casa'). Parecia que não tinham objectivos, era como se já tivessem vivido tudo antes do tempo... Foi aí que se deu uma luz na minha cabeça, quando a isso juntei a quantidade de gente maluquinha que existe à face da terra.
    Por acaso não sinto muito os pontos que falaste. Penso muito, bastante mesmo em todas as situações pelas quais tenho de passar, mas não deixo de fazer nada por isso. Aprendi a controlar a minha 'falta de confiança', pois na verdade quando comecei a estar 'por minha conta', senti tudo o que disseste! Mas hoje em dia isso já não me afeta praticamente :)
    xx, Ana

    The Insomniac Owl Blog

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  15. Olá !
    Estava vagando por aqui e quando vi esse post tive que comentar, haha.
    Sou filha única e não posso dizer se minha mãe é super-protetora assim, mas no fim me encontro agora com todas as características que você citou acima, e isso está me prejudicando muito, pois estou com muita dificuldade de me relacionar com qualquer pessoa fora do mundo virtual e isso acaba me machucando um pouco.
    Mas enfim, espero sair disso, ser mais independente, mais sociável e sair mais.
    Adorei o post !
    Beijo

    - Lari

    Sorvete Literário

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Eventuais questões serão respondidas aqui, na respectiva publicação.

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