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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Já chega, não? | Hipocrisia Natalícia


Considerada a quadra festiva mais familiar do ano, é em Dezembro que todas as pessoas se lembram de ajudar quem precisa, e que os sem-abrigo não são um mito urbano. Nas últimas décadas o "Natal" tornou-se num espectáculo de aparências e consumismo, onde nem as instituições de caridade estão imunes à doença do século: a Hipocrisia Natalícia.

Este fenómeno social é facilmente verificado através das publicidades nas televisões portuguesas. Intercalados como dois lados da mesma moeda, ora temos os vinte mil anúncios de brinquedos e aparelhos tecnológicos, ora somos bombardeados com as mesmas imagens deprimentes de sem-abrigo, a preto e branco, trabalhadas com uma música triste, e frases como "preciso de ajuda", "não tenho casa". Pormenor interessante, o horário escolhido é quase sempre o do jantar  altura em que mais portugueses vêem televisão. Do ponto de vista de marketing, está genial. Durante o intervalo do telejornal, a pessoa vê uma selecção de possíveis prendas a oferecer e assim que se prepara para dar mais uma garfada na sua deliciosa refeição a forno, vê um homem jogado numas escadas a pedir comida. Se isto não é um jogo psicológico, não sei o que será.

Vítimas de uma espécie de lavagem cerebral, as pessoas acabam por se perder ingenuamente no "espírito natalício", numa tentativa desesperada de acumular boas acções. Há que apoiar estas causas, sem dúvida que sim, mas com discernimento. Existem muitos seres, e até mesmo organizações, mal intencionadas que se aproveitam do facto do povo lusitano ser extremamente generoso e muitas vezes dar o que não tem, para extorquir algum dinheiro aos menos atentos. Em vez de ligarem/enviarem mensagens para aqueles números de telefone que os programas de televisão promovem ou de comprarem artigos em que apenas uns meros cêntimos serão doados, seria mais proveitoso efectuarem uma transferência bancária directamente para a instituição que pretendem apoiar. Pessoalmente não confio o suficiente nestas empresas para lhes dar dinheiro, mas sempre contribuí com roupas (em bom estado) e brinquedos.

Se no Natal os portugueses parecem esquecer a crise  seja para gastar balúrdios em prendas ou ajudar , durante o resto do ano, encontram nesta mesma realidade a desculpa perfeita para justificar a sua falta de interesse pelos mais necessitados. Sim, por onde andam estas campanhas de solidariedade durante os outros 11 meses do ano? Os sem-abrigo só precisam de ajuda em Dezembro? E as instituições, não necessitam de apoios sempre, ou é só na noite de Consoada? Não me venham dizer que estão a contar com o subsídio de Natal, por favor. De qualquer maneira, existem outras formas de apoio além do financeiro. Quer-me parecer que tempo e dedicação (na prática) não custam dinheiro, e muitas vezes têm um impacto mais importante na vida destas pessoas que um valor monetário.

A hipocrisia não se fica só pelas acções sociais, também se estende ao núcleo de relações pessoais e virtuais. As pessoas passam mais tempo desesperadas às compras de mil e quinhentos presentes, em vez de apreciarem a época pelo que ela é, uma celebração da família. São muitas as Madres Teresas que se unem para expressar o seu desdém pelas prendas, "As prendas não interessam, adoro o Natal por causa da família." ...Faz dez publicações detalhadas de tudo o que comprou/recebeu, mas atenção, o importante é o precioso tempo passado com os seus ente-queridos!

Em tempos tive uma colega de turma que no primeiro dia de regresso às aulas depois das férias de Natal, a primeira que me perguntou foi quantas prendas tinha recebido. Sabendo perfeitamente que não costumam ser muitas (diga-se umas 3 ou 4, estando chocolates e meias incluídos), ainda queria que lhe dissesse o que tinha sido. Não lhe interessou saber se passei bem as férias, não, o importante era ela sentir-se superior ao ler o pergaminho de presentes que lhe ofereceram. Por momentos pensei que estivesse na quinta pedagógica, o cheiro a cabra andava no ar.

Não me interpretem mal, o Natal continua a ser a minha época favorita do ano, mas é impossível ignorar o que se passa à minha, quer dizer, à nossa volta. Claro que gosto de receber prendas, quem disser o contrário provavelmente está a mentir. No entanto, tenho a plena consciência da crise económica que ainda estamos a enfrentar, e embora nunca me tenha faltado nada, sei perfeitamente que o tempo não está para gastos supérfluos. Que tipo de pessoa seria eu ao ver os meus pais matarem-se a trabalhar para pagar as contas todas e depois amuar por não me darem presentes de Natal? Infelizmente existem pessoas assim. Enquanto tiver comida, bolinhos festivos e a minha família, só me posso dar por satisfeito.


São solidários apenas no Natal? Conhecem pessoas que só se interessam pelas prendas?

20 comentários:

  1. Percebo completamente a revolta. Aborrece-me essencialmente que se promova mais o espírito da caridade - que tende a ser momentâneo e a revelar-se através da “esmola” (seja esta um contributo em comida ou em dinheiro) – do que da solidariedade, que por princípio é independente de uma oferta “material”. Solidariedade é «juntarmo-nos» às causas de terceiros e, mesmo sem um contributo monetário, defendermos que merecem uma vida melhor. E para isso não precisamos de estar ricos. A questão é que a maioria das pessoas não pensa na situação dos outros, não se revolta, não toma uma posição, não conclui “isto não devia ser assim”. Pensa apenas “coitadinhos”. E isso é horrível – e é por isso que só se lembram nesta altura do ano. Devia ser algo constante, que não se revelasse apenas em ofertas materiais, mas também em tomar uma posição.
    Quanto à parte pessoal, admito que gosto da alteração que se tem dado à minha volta nos últimos anos, em que a troca desenfreada de prendas abrandou. Todos gostamos de receber prendas, é certo, mas estávamos a chegar a um ponto de exagero (que, pelo menos nas situações que conheço, diminuiu).

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  2. Com certeza, você foi bem claro e objetivo e tem todo o direito de falar sobre o que pensa, do que seja o tema abordado. Eu particularmente penso o mesmo, mas prefiro deixar em off, já que a maioria das pessoas são assim. Ótima reflexão, bjs

    http://comum-dois.blogspot.com.br/

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  3. compreendo te perfeitamente, até mais na segunda parte do texto. Já tive várias "discussões" com a minha familia sobre o assunto porque eles insistem em dar demasiadas prendas na noite de natal (e a minha família é muito numerosa) e vejo os a fazer alguns sacrifícios para o conseguirem. Fico a olhar para todo aquele papel de embrulho espalhado pelo chão e penso no desperdício e exagero que aquilo foi
    otimas reflexões
    beijinhos

    http://umacolherdearroz.blogspot.pt/

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  4. Não deixas de ter razão, mas a palavra hipocrisia deve ser, entre todas as palavras da nossa língua, a que mais me faz comichão. Chega mesmo a enervar-me, talvez porque tenho visto tanta gente a usar o conceito que lhe está associado. Dois exemplos que me lembro agora: Se somos vegetarianos chamam-nos de hipócritas porque compramos roupa feita em países sem leis de trabalho justas; se defendemos a vinda dos refugiados (que não é mais que defender os direitos humanos!) somos hipócritas porque não lutamos de igual forma pelos sem-abrigo. Detesto com todas as minhas forças esse linha de pensamento porque acho que cada pessoa saberá que causas a movem mais, e cada um faz o que pode e o que quer, quando quer. Desde que o bem seja feito, mesmo que não salve o mundo inteiro, é de louvar. Mesmo que só nos lembremos de ajudar no Natal, não acho que seja hipocrisia - é o melhor das pessoas que se manifesta nesta época do ano, não o contrário.

    Perdida em Combate

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    Respostas
    1. * "talvez porque tenho visto tanta gente a usar erroneamente o conceito que lhe está associado." Faltou-me aí uma palavra =)

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    2. Embora concorde com o teu ponto de vista, não me vou pronunciar em relação aos exemplos que deste para não fugir ao foco da publicação. Tal como referi, é claro que se devem ajudar estas instituições, não é isso que está em questão. Apenas considero caricato que só em Dezembro é que se lembram. Se podem fazê-lo no fim do ano, porque não o fazem na Páscoa, por exemplo? "Cada pessoa saberá que causas a movem mais", evidente que sim, mas neste caso específico, sendo para a mesma "instituição", à partida, a causa em si e os beneficiários serão sempre os mesmos.

      "Estamos em crise", é o que mais se houve neste país nos últimos anos. No Natal as pessoas fazem o esforço de ajudar carenciados, colocando a crise de lado e dando até o que não têm (atitude de louvar). No entanto, no dia 26 já voltou tudo ao mesmo, utilizando a crise como desculpa para não ajudarem. É com este pensamento que não concordo, só isso. Por muito que a palavra te possa fazer comichão (o que compreendo dada a leviandade com que muitas vezes é utilizada), efectivamente trata-se de hipocrisia.

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  5. Sem dúvida que ajudar quem precisa apenas na altura do Natal não é o mais correto. É como se estivéssemos a fazê-lo por influencia dos outros ou da panóplia de campanhas existentes nesta época, o que não é de todo correto. As ajudas devem partir da nossa vontade e a qualquer altura. R: Obrigada :)

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  6. As pessoas continuam a olhar para mim como se eu fosse um ET cada vez que digo que não costumo receber presentes no Natal.
    Além disso não entendem como posso adorar tanto o natal se não há presentes envolvidos --' Enfim, o Natal está associado a muitos conceitos errados.

    LA BELLE RAPUNZEL

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  7. Faço minhas as tuas palavras! De facto esta época do ano tem vindo a ser mais um época consumista que uma época familiar.
    Essa competição do "quem tem as melhores prendas" está a assumir proporções que, para mim, são escandalosas! De que vale ter imensos €€€ para presentes se se tiver uma família que não é unida?
    O melhor presente que se pode ter no Natal é ver as pessoas que mais amas felizes e passar bons momentos com elas :)

    Cidadã do mundo desconhecido
    http://cidadadomundodesconhecido.blogspot.com/

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  8. Sim, tens razão, é uma hipocrisia. Mas, por um lado, compreendo as instituições, é nesta altura que as pessoas se sentem mais motivadas a ajudar, portanto elas aproveitam... o que é pena, deviam haver ajudas todo os dias, todo o ano. E, se calhar, se assim fosse, não haveria tanta gente a precisar de ajudar.
    Quanto às prendas... pfff... nem vamos por aí. O pior acho que é mesmo em relação às crianças. Eu sei que se diz que o Natal é das crianças, mas há limites... recebem todos tanta tralha que não aprendem a dar valor a nada

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  9. Não podia concordar mais com tudo o que escreveste... A verdade é que o Natal é também a minha altura preferida do ano contudo é cada vez mais evidente a hipocrisia que se vive durante este tempo... E infelizmente acho uma pena que se viva o Natal unicamente pelos presentes e não por tudo aquilo a que está ou deveria estar realmente e genuinamente associado!! Mas infelizmente sei de muita gente que os presentes são a parte principal do Natal e isso entristece-me muito.
    Grande beijinho,
    Madalena

    www.maadalenaaa.blogspot.com

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  10. O teu penúltimo parágrafo foi simplesmente brilhante! :p
    Tens toda a razão. Mas acho que isto é uma espécie de 'efeito bola de neve'. Não acho que todas as instituições são mal intencionadas em fazer grande propaganda na altura de Natal... Mas como a sociedade já está formatada ao que se faz na data, as associações podem aproveitar isso para ter mais visibilidade... Isso ou eu ainda vejo o mundo muito cor de rosa. Não me admirava se fosse a segunda opção.
    Óptimo texto como sempre!
    xoxo, Ana

    The Insomniac Owl Blog
    Giveaway - Vale 25€ Kiko

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  11. Sou solidária sempre! E sim, conheço muitas pessoas interessadas apenas nas prendas!

    xoxo, http://eighteenshadesofglitter.blogspot.pt/

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  12. Uau, o texto está muito bem escrito! E concordo plenamente, eu também gosto imenso do natal - as decorações, luzinhas, doces, presentes - mas de facto nesta altura há muita hipocrisia por aí...apesar das instituições quererem provavelmente aproveitar esta altura para ganharem mais visibilidade, continuo a achar que existe muita gente mal intencionada por aí, que se aproveitam. Para além que deviamos ajudar o ano inteiro, e não apenas nesta altura...neh?
    Enfim!
    Beijinhos e parabéns pelo post :)

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  13. Partilho exatamente da mesma opiniao do que tu!! Detesto pessoas que so se importam pelas prendas!
    Escreves super bem! :D

    Abraço (:
    NEW POST! Christmas Songs!

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  14. Este post devia ser daqueles posts que chega a toda a gente, daqueles posts que toda a gente devia ler e tirar uma conclusão daqui. Muito bem elaborado e sem mais nada a acrescentar!

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  15. Concordo plenamente contigo! A minha opinião é que quanto mais recentes as gerações mais materialista são. Digo isto porque tenho irmãs mais novas e noto a diferença entre a atitude delas para com esta época do ano e a minha e dos meus primos, por exemplo. Infelizmente é o mundo em que vivemos e para o mudarmos tínhamos que começar a pensar em ajudar os outro não só no Natal, mas também nos outros dias, tal como tu dizes. Aliás, tal como tu, também costumo dar roupa e outras coisas em bom estado a pessoas que sei que precisam mais do que eu e em qualquer altura do ano.
    Receber prendas é bom, não nego, mas o Natal é essencialmente a convivência (e a comida, claro!!).

    Messy Hair, Don’t Care | Blog

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  16. O meu irmão só se interessa pelas prendas e pelo dinheiro. Eu sou solidária todo o ano, sempre que deixo de usar alguma roupa dou-a a quem necessita. Não gosto de dar dinheiro porque nunca sei realmente onde aquilo vai parar e julgo que para um sem-abrigo sabe-lhe melhor um edredon quentinho para se abrigar que 5 ou 10€ que podem nem sequer chegar até ele. Mas como estava a dizer, ainda esta semana a minha mãe comentou comigo que a minha avó quer dividir o dinheiro de uma super porquinha mialheira que conseguiu recentemente encher até não caber mais moeda nenhuma por mim e pelo meu irmão, ele ouviu esta conversa e ao passo que eu disse logo que não ia aceitar isso porque sei o quanto custou à minha avó angariar todo aquele dinheiro o meu irmão até lhe brilharam os olhos e ainda me disse «não queres não...» como que a insinuar que eu quero o dinheiro. Irritou-me e irrita-me sempre estas atitudes dele. Também lhe rematei logo «para mim o importante é a avó, são as pessoas, não sou como tu» ao que ele se calou. A falta de noção dele tira-me do sério, vive para pedinchar prendas o ano inteiro, dinheiro igualmente, nunca lhe chega, e pede sempre merdas super caras como ténis de marca de 100€ que usa um ou dois meses e depois mete de lado seja porque já não servem, não estão na moda ou quer outros mais recentes e igualmente caros -.- detesto o consumismo no ano inteiro mas aliado à hipocrisia nesta época natalícia... Nem aguento!

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  17. Ainda esta semana li uma notícia em que uma aluna se fez passar por doente oncológica em fase terminal e abandonada pelos pais para extorquir tudo o que pode de uma professora que ficou emocionada com a história. Felizmente nem todos os casos são assim, mas hoje em dia fica muito difícil confiar nas pessoas e ficamos sem saber para o que estamos a contribuir. Sendo assim, eu pelo menos, sempre que posso, opto antes por dar roupa ou comida. O melhor é envolver-mo-nos mesmo na causa que pretendemos ajudar (e sim, deve ser todo o ano) em vez de dar-mos uns trocos só para manter a nossa consciência limpa. "Por momentos pensei que estivesse na quinta pedagógica, o cheiro a cabra andava no ar." - o que eu me ri com isto!
    Concordo contigo em relação às prendas, e não percebo pessoas que passam dificuldades e depois endividam-se por presentes de Natal. O melhor mesmo continua a ser ver a família feliz, saudável e reunida, e nos presentes o melhor é mesmo escolhê-los com carinho e comprar coisas com mais valor sentimental do que monetário.

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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  18. E não é à toa que não aprecio o Natal de todo! Só se lembram que os sem-abrigo, e as pessoas doentes existem nesta altura, mas que eu saiba elas continuam a ter problemas nos outros meses todos do ano. Ah, e depois parece que o Natal só faz sentido se receberem presentes, porque se não é o pior Natal de sempre, a vida não presta e é tudo uma desgraça. Também já tive colegas desses, tótós! Só observo ><

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