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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

MOVIE LOUNGE | 'Mommy' (2014)


Ousado e melodramático, Xavier Dolan é responsável por provocar opiniões díspares com o público: amado por uns e desprezado por outros. Embora as suas temáticas deixem um pouco a desejar quando à originalidade, é na exploração das possibilidades técnicas como planos, perspectivas e enquadramentos que o jovem realizador brilha. Como devem ter percebido, pertenço ao primeiro grupo opinativo.

A acção de "Mommy" ocorre num Canadá fictício, onde vigora a recém aprovada Lei S-14, que permite à família abandonar os filhos problemáticos sob a tutela do governo. Diane (Anne Dorval) é uma viúva que tem a seu cargo o filho Steve (Antoine-Olivier Pilon), um rapaz inteligente e de bom coração, mas que devido a um distúrbio de hiperactividade e défice de atenção, tem sérios problemas de auto-controlo. Após uma temporada internado numa instituição mental, Steve tem alta e volta a casa. Assim que vi a apresentação de Diane ou Die, fui automaticamente transportado ao primeiro take de "J'ai Tué Ma Mère" (I Killed My Mother, em inglês) de 2009, e que analisei AQUI.


O formato de exibição da longa-metragem é, durante a maior parte do tempo, pouco usual. Gravado em quadrado vertical (1:1), confesso que no início do filme cheguei a pensar que estaria algo errado com a imagem. Mais uma vez, o desconforto visual é pragmático e tenciona comunicar ao espectador a asfixia sentida por Die, face ao comportamento violento do filho. Ou seja, trata-se de uma metáfora que visa aumentar a sensação de "aperto" vivido pelos personagens nas horas mais dramáticas da trama. Genial.

O jogo de planos abertos e fechados para transmitir os conflitos entre mãe e filho é absolutamente brilhante. Os concursos de gritos entre os dois, apoiados do linguajar altamente chunga, tanto se aproximam da comédia como chegam mesmo a roçar tendências incestuosas.


Quando conhecem Kayla (excepcional interpretação de Suzanne Clément), uma professora tímida a recuperar de um esgotamento nervoso que lhe causou gaguez, e que se mudou recentemente para o bairro, inicia-se oficialmente a construção narrativa. A partir daí, as três personagens e todos os seus dramas emocionais e tensões sexuais, ficam interligados, acabando por desvanecer apenas no final da história. A relação especial deste trio vai, de uma certa forma, equilibrar e até mesmo compensar, as fragilidades de cada um.

Um dos pontos altos de "Mommy" é a banda sonora. Entre a "White Flag" da Dido e a "Born to Die" da Lana Del Rey, passa ainda por Counting Crows, Simple Plan, Oasis, e a poderosa "Vivo Per Lei" de Andrea Bocelli interpretada por Antoine. Destaque para a "On Ne Change Pas" que origina uma cena absolutamente deliciosa em que os três personagens principais cantam e dançam ao som deste clássico da Céline Dion.


Xavier Dolan, considerado por muitos como um dos cineastas contemporâneos de maior talento, voltou a mostrar que nasceu para os melodramas. Com apenas 25 anos, já conta com seis longas-metragens no seu curriculum, um fenómeno no mínimo impressionante. Se "J'ai Tué Ma Mère" é excelente, "Mommy" é algo de transcendente. É certo que voltou a apostar nos seus temas favoritos: mães, filhos, sexualidade e locura, mas resulta. Quer seja pelos diálogos emotivos e irónicos, personagens efusivas, ou pelas experimentações de Dolan na montagem das imagens, o filme carrega um peso enorme do início ao fim. 

No Festival de Cinema de Cannes de 2014, o realizador canadiano não só foi o mais jovem da competição, como também foi uma das grandes sensações. Conquistou o Prémio do Júri e teve a maior ovação do público  aplaudido calorosamente de pé. Não consigo superar o facto de, mais uma vez, a Anne Dorval ter sido ignorada pelos Óscares. Tendo em conta que a Penélope Cruz recebeu uma nomeação em 2010 pela sua participação na desgraça de filme "Nine", e tanto a Dorval como a Suzanne Clément não foram sequer consideradas... não preciso dizer mais nada.

Nota IMDb: 8.1/10
Nota Ghostly Walker: 8/10

Conheciam o filme? Ficaram curiosos?

10 comentários:

  1. Caraca eu não conhecia esse filme, sério, mas me apaixonei demais pelo trailer e preciso assistir!
    Beijos, Um Mundo Em Duas 

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  2. Já ando para ver este filme (e os outros todos do Xavier, oops) a imenso imenso tempo, mas acho que a tua review finalmente me vai obrigar a vê-lo!! Sou uma sucker por estilos de filmagem originais, por isso o Mommy sempre me chamou muito a atenção. Alguma vez viste o "We Need To Talk About Kevin"? Também é "asfixiante", com a Tilda Swinton e o Ezra Miller... se não viste, penso que iras gostar!! Cheers! :)
    http://leavethisplacebehind.blogspot.pt/

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    1. Sim, vi-o quando saiu em 2011 e concordo, é uma história "asfixiante". Só é pena ter algumas semelhanças, incluindo o tema central, com o filme "Beautiful Boy" do ano anterior.

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  3. Já tinha ouvido falar deste filme mas ainda não o tinha visto. Mais um para a minha lista ahah! x

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  4. Só de ler "ocorre num Canadá fictício, onde vigora a recém aprovada Lei S-14, que permite à família abandonar os filhos problemáticos sob a tutela do governo" já fiquei todo curioso para assistir e já imaginei ser daqueles filmes que te faz chorar muito, mas ao ver o trailer mudei um pouco pois me passou a sensação de ser divertido ao mesmo tempo. Ah e fico muito feliz quando um longa-metragem ganha o reconhecimento merecido, obrigado pela indicação abraços.

    ANDYZANDO

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  5. Obrigada por isto, tinha o filme na lista de filmes a ver mas perdi-a, tive que começar de novo e este não estava lá.
    Vou já vê-lo :)

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  6. Eu gosto dos filmes do Xavier Dolan e tenho-o acompanhado. Este coemcei a vê-lo há uns meses mas o filme não estava em condições...agora já o procurei e não consigo encontra-lo. Queria revê-lo.

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    1. Pois, agora com os bloqueios todos a sites torna-se é cada vez mais difícil encontrar o que quer que seja.

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    2. E nos últimos dias tenho notado ainda mais...

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Obrigado pela leitura e comentário!
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