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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Estigma dos Educadores de Infância Masculinos


Em quatro Verões a trabalhar directamente com crianças, foi a primeira vez que me senti um pouco desconfortável. Tenho imenso jeito para lidar com os pequeninos, e divirto-me imenso com eles. O problema é que já sou um adulto e há certas coisas que podem dar mau aspecto.

Qualquer pessoa com acesso aos media sabe que o mundo está podre. Praticamente todos os meses, e ultimamente dias, ouvimos falar de casos de pedofilia e/ou violação por parte de homens a menores. Como é que posso estar à vontade a fazer o meu trabalho quando sei que existe esta nuvem negra sobre a minha cabeça? Não é justo que por uns paguem os outros, mas a vida é mesmo assim. 

Aproveito para esclarecer que nunca tive nenhuma situação desagradável no meu trabalho. Apenas não me conseguia sentir 100% confortável como as minhas colegas raparigas. Para quem já trabalhou ou tem crianças na família, sabe que algumas conseguem ser bastante afectuosas. Devido à sua altura reduzida muitos dos miúdos chegam-nos à zona da cintura. Ora, actos inocentes como receber um abraço perto daquela área corporal, torna-se quase impensável. E se alguns pais vissem e não gostassem? Hoje em dia tudo é visto com outros olhos. Como resultado às vezes acabava por passar um certo distanciamento com alguns pequeninos. Não me interpretem mal, não fiquem a achar que não lhes ligava nenhuma ou que era "mau". Nada disso. Só tentava evitar qualquer demonstração de afecto.

Num universo esmagadoramente feminino, os poucos educadores no activo têm que enfrentar o preconceito de género e a questão da suspeita de abusos sexuais. "Educadores masculinos? Ou são gays ou pedófilos". Infelizmente é impossível fugir a estereótipos nesta profissão. O pior é que a pedofilia feminina, apesar de mais silenciosa, também existe. Ainda há cerca de umas duas ou três semanas atrás saiu uma notícia de uma mãe que abusava da filha juntamente com três homens. O certo é que em termos de divulgação, e talvez pela ausência ou dificuldade em identificar sinais claros de abusos, raramente ouvimos falar destes casos "invertidos". 

À conversa com uma das minhas colegas que estudou para ser Educadora de Infância, as minhas suspeitas confirmaram-se. Ela contou-me que um colega de curso foi alvo de queixas de alguns pais por ser um "homem a cuidar de crianças". Sabem o que é mais triste? É que nem posso julgar esses progenitores. Com tudo o que se ouve por aí, se fosse com um filho meu, também não ia achar piada nenhuma. Podera que raramente encontremos um indivíduo do sexo masculino em serviços infantis. 

Pessoalmente considero importante a presença de ambos os sexos na educação pré-escolar. Não nos podemos esquecer que nessa idade as crianças estão a construir da sua própria identidade de género. A presença de homens nesta profissão possibilita tanto a meninos como a meninas modelos masculinos mais flexíveis, e consequentemente, menos estereotipados.

Já tiveram um educador masculino? Sentiam-se à vontade se os vossos filhos tivessem um?

17 comentários:

  1. Nada contra educadores masculinos, eu trabalhei o mês passado com crianças e adorei, aliás sinto que foi recíproco, além disso nunca me senti inferior, ou julgado apenas por ser rapaz. Talvez porque tenho uma forma muito própria de ver a vida.
    Quanto aos abraços, p.ex, basta baixar-mo-nos e assim as crianças abraçam-nos no pescoço. A situação deixa de ser embaraçosa e elas adoram esses miminhos! :)

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  2. Infelizmente, é uma desconfiança que tem razão de existir. As notícias com as quais somos bombardeados praticamente todos os dias, sejam de que ordem for, põem-nos num completo estado de alerta. Como não sou mãe, posso apenas imaginar o que vai na mente de um pai quando ouve algo deste género.
    A questão é quando estas notícias acabam por englobar todos os profissionais e colocá-los na mesma caixa, maçãs podres com as maçãs boas. Embora não seja uma expressão lá muito feliz, creio que é natural haver essa preocupação. Mas, como em todo o lado, felizmente, há bons profissionais, que se preocupam verdadeiramente com a criança, independentemente do género. Mas, como dizer que um não é apto a exercer a sua profissão e outro é se esses traços não estão chapados na cara?
    Pessoalmente, nunca tive um educador, masculino ou feminino, porque nunca andei num jardim de infância. No entanto, estive em amas e posso dizer que detestava as senhoras. Espero que quando o dia chegar saiba escolher bem quem irá tomar conta do meu rebento.

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  3. Eu fico muito triste mesmo com isso, com essa desconfiança toda, mas não acho que tem que ser apenas com os homens, há muitas mulheres de mente ruim sim, e muitos homens de gente boa sim. Sou muito "não vamos generalizar", porque acho isso mega errado. Bom, não há muito o que se fazer, só seguir em frente e bater de frente com a desconfiança porque se você não tem nada a esconder e esta fazendo o seu trabalho que assim seja, não é? Eu só acho uma pena o mundo estar tão corroído que temos que ter desconfiança até de quem atravessa ao nosso lado da rua porque pode ser um sujeito que vai te assaltar, nunca se sabe de nada nos dias atuais né? :(

    Um Mundo Em Duas 

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  4. Na verdade, vivemos num mundo contra os homens (embora estes ainda dominem) e fui sempre ensinada a não confiar em homens (piropos na rua acho que ninguém acha piada), a dar-me melhor com raparigas que com rapazes e isso ainda acontece porque faz parte da minha natureza. Educadores rapazes nunca tive, só tive professores de extra curriculares na primária e professores homens são quase inexistentes onde estudo.

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  5. Este é uma assunto muito delicado e complicado também. Na primária tive alguns professores estagiários, mas isso aconteceu apenas uma vez (os estagiários vinham sempre em grupos de 3 ou 4, nunca sozinhos), e as alunas/meninas ficaram muito agradadas (era muito comum dar-mos-lhes os braços e fazer muitas perguntas, porque eles eram diferentes do que costumávamos ter). Depois tive professores homens, mas nessa altura não havia tanto esse contacto, quer emocional, quer físico.
    À primeira vista, diria que não me faz qualquer diferença um homem ser educador de infância ou professor primário, porque somos todos iguais, não é verdade?! A igualdade de sexos funciona nas duas direcções. Mas a verdade é que, tendo em conta a sociedade e a educação que tivemos, e que nos moldou, realmente parece "menos natural" ver um homem a cuidar de crianças, e as notícias de homens que abusam de miúdos é demasiado abundante (demasiado porque, mesmo que fosse apenas uma, seria sempre demais do que o ideal). É certo que também à mulheres que o façam, mas estamos moldados para ver no homem um agressor, e não um ser de afecto. Acho que isso faz parte da nossa mentalidade, que ainda assim temos que tentar contrariar e reeducar.
    ****

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  6. Nunca tive um educador masculino, mas já tive muitos monitores masculinos. Da experiência que tenho, a sua maioria era mais brincalhão, mostrando-se mais disponível para entrar nas palhaçadas, e as crianças gostam disso.

    R: Eu adorei o "The Judge". Devias ver :)

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  7. Nunca tinha pensado nesta questão assim. No tempo todo que andei no infantário nunca tive um educador masculino. Homens só havia mesmo o jardineiro e os motoristas dos autocarros, mas não lidavam tanto connosco. Hoje em dia, e uma vez que tenho ido para o Porto todos os dias e vejo imensos miúdos de infantários em visitas de estudo, vejo imensos homens com essa profissão e até estranhei, mas só porque não é algo que estou habituada. Na questão de deixar os meus filhos com homens penso que não teria problema, pois, e tal como disseste, também há casos de pedófila em que os pedófilos são mulheres e também há casos assim dentro de várias famílias.

    Lena's Petals xx

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  8. Acho que nunca tinha pensado nisso, realmente... não deve ser fácil. Nem para vocês, nem para os pais. Mas, sinceramente, se fosse mãe acho que ia desconfiar tanto duns como doutros =P

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  9. Não sou educador de infância, mas já estagiei num infantário e foi desconfortável por essas razões que mencionaste, principalmente os abraços na tal região. Quer dizer... nós não temos culpa de sermos maiores que as crianças, nem elas têm culpa de serem pequenas. É normal haver esse contacto quando se abraça. Quando estagiei no infantário, para abraçar os miúdos tinha de me abaixar sempre, para me sentir mais confortável. Na hora de almoço é que era a chatice. Havia uma menina que adorava comer no meu colo. Óbvio que não ia dizer não à cachopa. Ela acabava sempre por comer sentada no meu colo. No início foi estranho, porque como ela era a única a ter esse mimo, as educadoras podiam pensar outras coisas -.- Mas caguei para o assunto.
    Se eu visse um filho meu no colo de um homem (educador) também iria pensar coisas. Sei lá, estes assuntos são sempre estranhos e desconfortáveis. Precisamos é de nos habituar a ver mais homens no ensino, principalmente no ensino básico.

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  10. Confesso que nunca tinha pensado sobre isto. É de facto muito injusto que uns tenham de pagar pelos actos de outros...

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  11. Gosto imenso que explores as preconceitos dos "sexos" em várias áreas! É incrivelmente estúpido um educador ter que pensar nos aspectos que referiste só por causa da opinião dos outros. Sei que no trabalho é isso que nos move. Infelizmente. O tempo gasto com crianças deve ser natural e espontâneo. Mas há pais que não o sabem. Nunca tive um educador homem. Nem sequer um professor primário. Há uns anos tive uma aula de desenho com um modelo nu que era educador de infância. Imagina a reacção de alguns colegas meus. "Anda ali com as crianças e depois vem para aqui despir-se". Não sabem separar as águas. Dá-me pena. Sim, precisamos da presença de ambos os sexos, desde sempre.

    Isa,
    http://isamirtilo.blogspot.pt/

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  12. Infelizmente, ainda há, sim, muito preconceito. É um absurdo... Adorei seu post!
    E claro que me sentiria a vontade se meus filhos tivessem educadores do sexo masculino!

    Xoxo,
    Mani Piñeiro

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  13. Acho que sim, acho que até prova do contrário me sentiria à vontade. Eu sei que há imensos casos de pedofilia mas não precisa de acontecer na escola, pode acontecer em qualquer lugar. Acho que é importante os pais estarem atentos aos sinais independentemente de quem seja que lida com as crianças.
    Houve casos de avós e tios, alias, vi um estudo que mostrar que a maior parte dos casos de violação é no seio familiar, isso sim, é muito assustador por isso, acho que se fosse mãe iria estar (tentar pelo menos) atenta a qualquer sinal que pudesse indicar tal coisa.
    Excelente post, as pessoas prestam pouca atenção a esta discriminação involuntária que acontece.

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  14. Não posso deixar de concordar, os homens também são importantes como educadores! Cada um terá o seu papel, mas ambos habilitados da mesma forma a envergarem por essa profissão. E tal como é referido, há por ai muita pedofilia por parte das mulheres, só que é mantida mais à parte, não há tanta gente a falar do assunto porque se pressupõe que o sexo feminino é, á partida, o mais carinhoso com as crianças.

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  15. Eu sempre tive educadoras femininas mas o meu irmão teve um educador masculino e aquele homem era um amor. Todos os pais gostavam dele e os miúdos também. Era acessível a todos, fácil de conversar, flexível e atento. Pessoalmente não tenho nada contra, se um dia um filho meu tiver um educador masculino vou tratá-lo com o respeito que merece. O mundo anda muito estereotipado. É como a questão das violações, as pessoas acham que só as mulheres é que são violadas mas estão tão erradas. Tantos e tantos homens que também o são, apenas é menos divulgado e a culpa é da sociedade porque fazem com que os homens sintam vergonha de falar disso, de acusar a violadora (ou o violador), porque se ele fala disso o que é que leva? Com os amigos a fazer piadas e sem ninguém o levar a sério porque «um homem não é violado! É forte e se tiver sexo é sempre porque quer». E com esta questão da pedofilia é exactamente o mesmo, como bem dizes, existe pedófilos femininos, apenas é menos divulgado. As pessoas estão tão cegas e estereotipadas que nem pensam por elas mesmas, não conseguem perceber que o mal não está no género, está no carácter e esse não é definido por teres um pénis ou uma vagina!

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  16. Gostei imenso do artigo, muito sincero e um pouco triste ao mesmo tempo.
    De facto na minha escola desde a infantil até ao 4º ano, só havia professoras. O único homem era o professor de música. Educadores de infância, não havia nenhum.
    Penso que nunca tinha pensado muito nisso, pois por vezes temos tendência a achar normal aquilo que vivemos e não nos damos ao trabalho de pensar "fora da caixa" :(
    Mas tanto há homens maus como mulheres. Não podemos generalizar, apesar de ser o que a sociedade está habituada por vezes a fazer...
    Quanto aos abraços, pensa que durante a primária (pois os miúdos já são mais altos), todos acabam por apoiar ou encostar a cabeça no peito das professoras, o que também poderia ser mal visto, mas que se calhar a sociedade nem se importa...

    parabéns pelo blog :)
    um beijinho*
    Dreams and Lemonade

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  17. Nunca tinha pensado sobre este assunto: como pode ser desconfortável estar numa profissão onde o sexo masculino é alvo de preconceito. Confesso, comecei a pensar e é realmente constrangedor saber que os olhos estão todos postos em nós e que com qualquer mal entendido a seta que está apontada pode disparar.

    Espero que consigas sentir-te melhor no trabalho e que não tenhas que carregar com os erros dos outros!

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