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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Novo Acordo Ortográfico? Não obrigado.


Entrou ontem em vigor a aplicação oficial do novo Acordo Ortográfico. Após um período de transição de seis anos, parece que já não há volta a dar. Começou o extermínio à língua de Camões.

Há anos que tentam implementar este tipo de medidas. Em 1986, as Academias de Brasil e de Portugal elaboraram um projecto que resultou na assinatura oficial de um Acordo, o qual foi alvo de polémica por ser demasiado drástico, e portanto, rejeitado, em 1990. 

O novo Acordo Ortográfico tem como objectivo a criação de uma ortografia unificada a ser usada por todos os países de língua oficial portuguesa. Tal como vem referido no pdf do Ministério da Educação, «Não vamos alterar a forma de falar, nem vamos passar a falar "brasileiro". Por exemplo, o Santo Padroeiro de Lisboa continuará a ser António, em Portugal, e Antônio no Brasil. O acordo também não retira consoantes pronunciadas, ou seja, em Portugal vai continuar a ser facto e não fato.» Pois, talvez devessem ter escrito esta pequena introdução no final da apresentação. Como vamos ver mais à frente, nem sempre isto está tão preto no branco.

Não me considero um Velho do Restelo em relação à mudança (no sentido geral da palavra). Tenho a perfeita consciência que conforme os anos vão passando, também nós temos que evoluir. O que realmente me irrita são mudanças desnecessárias que não vão trazer qualquer tipo de benefícios. Nas palavras homógrafas, o que justifica a supressão dos acentos? Tal omissão leva a erros de leitura, entoação e compreensão total da mensagem. "Ela pára para pensar a fim de decidir o que comprar" - eliminando o acento, é suposto ler como? Os acentos existem por alguma razão. Uma coisa é "pôr" outra é "por".

E nem sei por onde começar no que toca à questão da supressão das consoantes mudas. Guiné-Bissau pode continuar com o hífen, mas Egipto já tem que perder o "p". Já que pretendem "facilitar" de tal forma a grafia para os alunos, o que se segue, "Istória"? Até mesmo na generalização de minúsculas para designar dias da semana, meses, estações do ano, qual é a necessidade? Dá assim tanto trabalho escrever Domingo em vez de domingo?

Língua Portuguesa sempre foi uma das minhas disciplinas favoritas nos tempos de escola. Revolta-me saber que alunos aplicados como eu, estão a ver os seus conhecimentos jogados fora em troca de um facilitismo para aqueles que simplesmente não sabem escrever. No meu tempo reprovava-se, agora muda-se a grafia das palavras para que os alunos não dêem tantos erros. Aprendam a escrever, ora! 

Além do mais, se esta anedota, desculpem, andota, de Acordo foi criado para unificar a ortografia dos países de língua portuguesa, então porque é que continuam a existir diferenças na escrita de palavras em Português Europeu e Brasileiro? Se eles escrevem "concepção" e "recepção" porque é que nós temos que passar a escrever "conceção" e "receção"? Nada disto faz o mínimo sentido. Estou completamente contra o A.O. e sinto-me mal por saber que se arranjar trabalho na minha área, Comunicação, serei forçado a escrever como um analfabeto.

Para quem precisar de um conversor para a nova ortografia, podem usar o da Porto Editora ou o Lince. Se tal como eu nunca necessitaram utilizar o novo Acordo Ortográfico e não sabem ao certo o que vai mudar, fiz um resumo do essencial a baixo.

Principais mudanças:

1. Alfabeto
O alfabeto português agora inclui as letras "K", "W" e "Y", passando a ter 26 letras no total.

2. Maiúsculas e Minúsculas
  • Meses, dias da semana e estações do ano: (ex. janeiro, domingo, outono);
  • Pontos cardeais (mas nas abreviaturas não), excepto quando utilizados absolutamente: norte / vou para o Norte;
  • Títulos dos livros (salvo nomes próprios): A Culpa é das Estrelas = A culpa é das estrelas / Vida e Feitos de Júlio César = Vida e feitos de Júlio César;
  • Formas de tratamento e/ou cortesia: Doutor Pedro = doutor Pedro / Engenheiro Pedro = engenheiro Pedro / Santo António = santo António. (mas nem o Santo escapa? Então e quando nos referirmos a Deus, só minúsculas?);
  • Domínios do saber, cursos, disciplinas: inglês = Inglês;
  • Ruas, edifícios, monumentos: Avenida da Liberdade = avenida da liberdade; Torre dos Clérigos = torre dos clérigos.

3. Consoantes mudas
  • O que não se pronuncia não se escreve.
  • "cc" - colecionador, direcional, lecionar. Mas: faccioso, ficcional, perfeccionismo.
  • "" - ação, coleção, correção, direção, fração, proteção, seleção. Mas: convicção, fricção.
  • "ct" - ato, ator, atual, afeto, arquitetura, coletivo, direto, exatamente, letivo, objetivo, projeto. Mas: bactéria, compacto, convicto, intelectual, pacto, contactar.
  • "pc" - anticoncecional, depecionante, excecional, rececionista. Mas: egípcio, núpcias.
  • "" - adoção, conceção, receção. Mas: corrupção, interrupção, opção.
  • "pt" - Egito, adotar, batismo, ótimo. Mas: adepto, apto, eucalipto, rapto.

4. Acentos. Suprime-se nos casos:
  • Terminação em "-êem" passam a escrever-se sem o acento circunflexo. Ou seja, creem, veem, leem, descreem, reveem, deem.
  • Ditongo "oi", excepto quando se encontra na última sílaba da palavra:
    • "asteroide", "joia" "jiboia"
    • "herói" vs. "heroico".
  • Do acento grave em palavras homógrafas: para (parar) e para (preposição); pela (pelar) e pela (substantivo).

5. Hífen
  • Suprime-se nos casos:
    • autoavaliação, autoestima, autoestrada, extraurbano, geoestratégico;
    • Prefixo terminado por vogal e o elemento seguinte começado por vogal diferente = "autoestrada", "contraintuitivo" ou "extraescolar".
    • Compostos formados com "co-", a palavra funde-se, mesmo que o segundo elemento comece por "o" = "coorganizador", "coopositor".
    • Compostos formados com "re-", mesmo que o segundo elemento comece por e, fundem-se: "reequilíbrio", "reescrito".
    • Verbo haver: "hei de", "hás de" em vez de "hei-de" ou "hás-de".
  • Utiliza-se nos casos:
    • Prefixo terminado por vogal e elemento seguinte começado pela mesma vogal. Ex: "contra-ataque", "auto-observação" ou "micro-ondas".
    • Em compostos com os advérbios "bem" e "mal" quando o elemento que se lhes segue começa por vogal ou h = "bem-amado", "mal-amado", "bem-estar", "mal-estar", "bem-humorado", "mal-humorado".
    • Ao contrário de "bem", "mal" pode aglutinar-se com palavras começadas por consoante. Por exemplo, escreve-se "bem-falante", mas "malfalante" não leva hífen. O mesmo acontece com "bem-mandado" e "malmandado".

Já utilizavam o novo Acordo Ortográfico? Estão a favor ou contra?

11 comentários:

  1. Algumas mudanças são realmente desnecessárias, credo!

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  2. Ainda bem que fiz o exame de português antes desta palhaçada. E se já estivesse em vigor na altura, atrevia-me de boa vontade a perder "pontinhos". Enquanto não mudarem tudo para pior não descansam. Faz-lhes comichão.

    Isa,
    http://isamirtilo.blogspot.pt/

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    1. Pensei no mesmo, ainda bem que já fiz os exames todos que tinha a fazer haha.

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  3. Também me incomoda esta história do novo acordo ortográfico, há alterações mesmo desnecessárias! Mas que remédio temos nós? Estou mesmo a ver como é que me vai correr o exame de Português para o ano se não me pôr a pau. Confesso que não estou 100% ciente de todas as alterações, por isso acabo por misturar um pouco dos dois acordos quando escrevo. Enfim, que palhaçada!

    http://diariodeumafricana.blogspot.pt

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    1. Pois, o problema agora vai mesmo ser para os alunos que vão a exame. É que na maioria das escolas era opcional utilizar o Acordo, logo muitos não o faziam. Agora os alunos serão mesmo penalizados se não cumprirem com as novas regras. Ridículo.

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  4. Olá Ricardo :) Respondendo às tuas questões... Sim, já usava o acordo em algumas situações e, por acaso, sou a favor. A língua precisa de mudar/evoluir. Eu acho que este alarido todo prende-se pelo facto dos portugueses acharem que vamos começar a escrever como os brasileiros. Nada a ver! É apenas uma evolução, caso contrário ainda estaríamos a escrever como Camões. A adaptação às mudanças vai custar, mas com o tempo tudo se resolverá. Aliás, o A.O. já tem vindo a ser implementado nas escolas e nas televisões há algum tempo, portanto, o povo já está familiarizado. Agora apenas se tornou oficial! Tanto burburinho para nada.

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    Respostas
    1. Tal como referi, também sou a favor da mudança, mas quando é para melhor. Não entendo o porquê da questão das minúsculas por exemplo, qual é a necessidade?
      Sim, já estava previsto acontecer, mas como nunca tive um único professor a leccionar/exigir o novo Acordo, nunca me tinha deparado com esta realidade. Agora é quase como voltar à escola, especialmente com aquelas regras todas das vogais, consoantes e afins.

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    2. Acho que isso das minúsculas foi feito com o objetivo de uniformizar tudo, porque, por exemplo, o título de um livro podia ser escrito de várias maneiras e podia levar à confusão. Eu por acaso sempre fui picuinhas com isso e nunca entendi se, de facto, havia uma regra... Agora já há, apesar de na prática não fazer muita diferença xD
      Tiveste azar :/ Os meus professores da faculdade sempre exigiram os trabalhos com o novo A.O. Aliás, nos meus estágios, fui obrigado a lecionar com o Acordo. Portanto, os miúdos que entraram para a escola já estão preparados. No fundo, são os sortudos. Mas compreendo que nem todos os portugueses tenham aderido. Tenho é pena dos que vão fazer exames agora mesmo. Não sei se lhes vão dar a benesse, mas podiam fazê-lo. Coitados!

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  5. Algumas mudanças não me causam muita confusão, mas a parte dos acentos e dos hífenes dão comigo em louco.

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  6. Eu era mais ou menos como tu, no entanto, este ano estou com tendência em comprar sandálias ahahah

    Já me habituei ao acordo. Sinceramente não acho que seja um bicho de sete cabeças. Tal como a sociedade, a língua também deve acompanhar tendências e mutações. Há algumas alterações que, à partida, não fazem sentido mas isso é como tudo na vida! :P

    Um abraço
    InstagramFacebook Oficial PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  7. Obrigada pela lista das mudanças no final do post. Ainda não me tinha informado do que realmente tinha mudado. Não me queixo muito da supressão das consoantes mudas. Até faz sentido. Mas agora os acentos....epá! E a cena das maiúsculas é um pouco escusado.

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Obrigado pela leitura e comentário!
Eventuais questões serão respondidas aqui, na respectiva publicação.

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