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quinta-feira, 9 de abril de 2015

MOVIE LOUNGE | "The Imitation Game" (2014)


Atenção! O texto que se segue contém spoilers.

Sei que esta review chegou um pouco tarde, mas já dizia o outro "mais vale tarde que nunca". Tinha este filme na minha watchlist do IMDb desde que estreou em Novembro de 2014. Talvez devido à hype em volta dele ou por ter o Benedict Cumberbatch e a Keira Knightley nos papéis principais, acabou por ficar esquecido. Fiz mal. O filme é fantástico e o desempenho do Cumberbatch foi sem dúvida merecedor da nomeação ao Óscar de Melhor Actor.

Há uma fala logo nas primeiras cenas que diz "Are you paying attention"? (estão a tomar atenção?). Durante as quase duas horas de filme foi exactamente isso que eu fiz. Foi-me impossível desviar o olhar do ecran devido a um argumento brilhantemente adaptado e uma performance igualmente fascinante de todo o elenco. É excitante, emocional e chegou mesmo a partir-me o coração em alguns momentos.


"The Imitation Game" conta a história de Alan Turing, um criptoanalista e matemático britânico que durante a Segunda Guerra Mundial ajudou os Aliados a decifrar o código de comunicações secretas dos Nazis. O título do filme refere-se, literalmente, a um artigo escrito por Turing, no qual ele calculava as possibilidades de as máquinas poderem aprender a imitar a maneira de pensar dos seres humanos. Actualmente é considerado o pai da computação moderna, e este filme mostra-nos porquê.


Um dos meus diálogos favoritos abordou exactamente o tema deste artigo:
Polícia: As máquinas podem pensar como os humanos?
Turing: A maioria das pessoas diz que não.
Polícia: Mas o senhor não é como a maioria das pessoas.
Turing: Bem, o problema é que está a fazer uma pergunta estúpida. Claro que as máquinas não podem pensar como as pessoas o fazem. Uma máquina é diferente de uma pessoa, logo pensam de maneira diferente. A pergunta interessante é, só porque algo pensa diferente de si, significa que isso não está a pensar? Nós permitimos que os humanos tenham tais divergências uns dos outros. Você gosta de morangos, eu detesto patinar no gelo, você chora com filmes tristes, eu sou alérgico ao pólen. Qual é a finalidade de gostos diferentes, preferências, se não que os nossos cérebros funcionam de maneira diferente e que pensamos de maneira diferente? E se podemos dizer isso uns dos outros, então porque não dizer a mesma coisa de cérebros construídos com cobre e fios de aço?
De um certo modo este "jogo da imitação" refere-se ao próprio Turing que teve que aprender a cooperar com outras pessoas (a sua equipa), e se tornou tolerável ao imitar os seus comportamentos. Enquanto que nos dias de hoje ele seria considerado um autista, nos anos 40, ao trabalhar com outros matemáticos no puzzle do Enigma Nazi, era simplesmente uma pessoa esquisita com dificuldades em fazer amigos que não sabia contar piadas e que tinha um ego maior que o túnel do Marquês.


A grande responsável pela mudança de comportamento de Alan foi Joan Clarke (Keira Knightley), uma jovem igualmente inteligente que vai integrar a sua equipa e acaba por se tornar no seu aliado mais próximo. A relação entre estas duas personagens é fascinante. Eles formavam uma espécie de "casal estranho", Turing um génio secretamente homossexual, e Joan uma rapariga simples cujos pais queriam que ela encontrasse um bom marido. Além da amizade e compreensão intelectual, em comum tinham o facto de viverem numa sociedade igualmente homofóbica e sexista.


A acção da história alterna entre o passado, presente e futuro, focando-se em três fases distintos da sua vida: os anos de colégio onde o seu talento emerge; os anos de guerra onde se torna um herói; e o pós-guerra dos anos 50 cujo foco é a sua homossexualidade.


Alex Lawther abre o caminho para Benedict Cumberbatch com uma emocionante performance como o jovem Alan, que lhe rendeu um London Critic Circle Film Award na categoria de "Young British Performer of the Year", enquanto o Cumberbatch assume o papel de Turing aos 27 anos e presenteia-nos com o seu melhor trabalho até à data. Desempenhou na perfeição um homem frio mas vulnerável, rude mas que se preocupava com os outros. Conseguiu capturar o meu interesse durante o filme inteiro e brincar com as minhas emoções.


As principais críticas a esta longa metragem incidiram na falta detalhes sobre a vida de Alan Turing e no facto de não se focarem o suficiente na sua homossexualidade e nos eventos depois da guerra. Compreendo o que querem dizer mas não concordo totalmente. A sua homossexualidade é uma das partes mais importantes da trama, tanto que influenciou por completo o desfecho da história. A acção foi construída de modo a focar-se no que realmente interessa, um homem e a sua mente. Mostra-nos como um génio foi destruído pela sociedade homofóbica por não se enquadrar nos parâmetros de vida aceitáveis daquela altura. Ao fim ao cabo "por vezes é das pessoas que menos esperamos que acontecem as coisas que ninguém consegue imaginar".


A carreira de Turing terminou abruptamente em 1953, depois de ter sido processado por atentado ao pudor, acusação que resultou numa condenação por homossexualidade (à data ilegal no Reino Unido). Um ano depois de ter iniciar um tratamento hormonal que provoca castração química, ordenado pelo governo (que preferiu à prisão), Alan Turing acabou por se suicidar a 7 de Junho de 1954. Tinha 41 anos. "Entre 1885 e 1967, aproximadamente 49.000 homossexuais foram condenados por atentado ao pudor, pelas leis britânicas". 

As cenas finais do filme são terrivelmente dolorosas. Custou-me imenso ver um dos homens mais inteligentes do mundo a deteriorar-se devido a uma punição por ter uma orientação sexual diferente, acabando mesmo por se suicidar. O que realmente me chocou foi aperceber-me que se passaram 61 anos e a homossexualidade não só ainda não é aceite como ainda é punida em vários países. É assustador.


Antes dos créditos são nos dados factos reais e estatísticos sobre a época histórica em que o enredo se passa. "Em 2013, a Rainha Elizabete II, concedeu a Turing o perdão real póstumo, honrando as suas realizações sem precedentes. Muitos historiadores acreditam que descodificar o código Enigma não só foi um factor decisivo para a derrota dos alemães, como encurtou a guerra em mais de dois anos, salvando cerca de 14 milhões de vidas. O trabalho de Alan Turing inspirou gerações de investigação, a que os cientistas chamaram de «Máquinas de Turing». Hoje, chamamos-lhe computadores."


Realizado pelo norueguês Morten Tyldum, o drama biográfico sobre a vida de Alan Turing, conta com os actores Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Mathew Goode e Mark Strong, entre outros. "The Imitation Game" esteve ainda nomeado para 8 Óscares, incluindo as categorias principais de "Melhor Filme do Ano", "Melhor Actor Principal" (Cumberbatch) e "Melhor Actriz Secundária" (Knightely), mas apenas conseguiu vencer uma estatueta dourada para "Melhor Argumento Adaptado" (Graham Moore). 


Classificação do Ghostly Walker: 8/10
Classificação do IMDb: 8,1/10

Se ainda não viram este filme, aconselho-vos fortemente a fazê-lo. Se já o viram, o que acharam?

6 comentários:

  1. Eu adorei este filme. Até escrevi uma review dele na altura em que estava a fazer uma countdown para os Oscars. Foi um dos meu favoritos que estava na corrida do Oscar de Melhor Filme :)

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    Respostas
    1. Agora que já o vi posso dizer que concordo completamente. Sem dúvida um dos melhores filmes nomeados :)

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  2. Gostei bastante deste filme. E ainda bem que encontrei o teu blog porque também gostei dele! :)

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  3. Fui vê-lo ao cinema e saí de lá super pensativa. Acho que nos faz abrir os olhos em relação a diversos temas. Também adorei o Birdman mas fiquei desiludida que este não tivesse ganho o melhor filme. :)

    Isa,
    http://isamirtilo.blogspot.pt/

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    Respostas
    1. Concordo, é um filme que dá mesmo que pensar. Também adorei o 'Birdman' mas sinceramente o meu favorito ao Óscar era o 'Boyhood' :)

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